Alfredo Ferreiro, Poesia

Gabriel Nascente

O poeta Poeta Gabriel Nascente e seu periquito Loló, por Sinesio Dioliveira

Poeta Gabriel Nascente e seu periquito Loló, por Sinesio Dioliveira

O Gabriel Nascente é sem dúvida um homem generoso. Certo dia recebi um pacote com um livro dele e uma carta em que dizia que um amigo seu lhe tinha falado de mim, poeta galego, e que gostava assim de estabelecer contacto comigo. Assim, apresentando-se presenteando. Fiquei agradecido e contente, a imediatamente lhe enviei o livro colectivo de poetas corunheses de que dispunha naquele momento.

Então mais: recebi outros livros, e um trecho de cultural de jornal em que louvava os poemas do nosso grupo poético publicamente. Na Goiânia, um lugar que tive de procurar no mapa pela minha grande ignorância, e que já nunca mais esquecerei.

Reparem: há gente no interior do Brasil, esse continente, que conhece e fala dum pequeno grupo de poetas da Corunha. Se o afã de comunicação não tem limites, evidentemente os corações verdadeiramente abertos à arte, e à vida portanto, já nem concebem o próprio conceito de limite.

Há algum tempo já que este amigo me enviou estes poemas sobre o conflito do Iraque. Hoje ainda, infelizmente, não deixam de ser plenamente actuais.

A CANÇÃO DO VISIONÁRIO
(A propósito da guerra do Iraque)

Quando os homens acionarem a
ignição de suas máquinas de guerra,
guardarei unha semente de trigo
na cabeceira dos brejos – (lá onde
a terra se mistura com o soluço das águas).

E levarei hosanas
aos presidiários.
Os meninos pressentirão nos dedos
a pólvora
das explosões sanguinárias.

A poeira do estupor
correrá o mundo.
A luz lamberá a chusma das feridas.
E enormes cogumelos de nuvens atômicas
assustarão as janelas (num espectáculo
de aviltar a frieza dos mármores).

E imperceptivelmente um tordo, triste,
cantará sobre os escombros.
A água ficará enferma
em suas nascentes.
E será moda lambuzar os nossos pratos
com molho de vísceras cadavéricas.

E as ovelhas, meu Deus, as ovelhas…
do árido território dos desertos,
para onde vão buscar abrigo,
entre os vales de pedras,
há milênios?

As hortaliças. O pão.
Mãos à obra de quem?
Nem os rios terão tempo de prantear
a caveira de suas faunas.
Choraremos a solidão dos nossos ossos.

(Sala Albert Camus, Goiânia, 16 de Fevereiro de 2003)

UMA PROFECIA DE MAL GOSTO
(A propósito da guerra do Iraque)

I

Tempos ruins virão (abrindo
crateras no rosto dos homens).

As ovelhas e os meninos
na mira dos aviões,
(despejando bombas do ventre
atroz de suas missões).

O sol lá dos insípidos desertos…
que dó: O Eufrates.
Minas de larvas brotarão
da raiz dos nossos olhos.

Não haverá tempo para
o último uivo do lobo.
Ó raça de povos erradios, com
sangue de camelo nas veias:
Orientais fanáticos, bebei
postos de petróleo:

II

Tempos ruins virão (abrindo
crateras nos abismos do céu).
Loucos e histéricos, os homens
já se estraçalham uns aos outros,
feito ventanía de moscas, na carniça.

Os homens e seus trágicos
instrumentos de cortes e fogo.
(Espalhando cadáveres pelas
cidades e pelos campos).

III

E eu já ouço,
daqui dos subúrbios desta América,
o grito de pavor das crianças
buscando abrigo no colo das mães.

Viver é uma dor.
Guitarras vão às ruas
pedir paz.

O mundo é um tambor
de povos
na mira dos massacres.

Tempos ruins virão.
(Tomara que isto seja apenas
uma película de cow-boy americano).

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