Colaborações:, José António Lozano, Tradição

A noite acesa de Bahaudin Majruh (II), por José António Lozano

Ufánanse los necios y alardean / llenos de orgullo y altivez, de una / insulsa libertad, tediosa y yerma. / Orgulloso yo estoy, por el contrario, / de ser de una tirana encantadora, / el más sumiso y venturoso esclavo. (Hafiz, tradução de Rafael Cansinos Assens)

A lucidez e a procura da liberdade total são o motivo do Viageiro de meia-noite. Os diferentes totalitarismos de esquerdas e direitas, o fanatismo religioso, o cancro da submissão sob diferentes formas são o alvo deste viageiro que percorre cidades e desertos, montanhas e cárceres: vadiagens de territórios sem fim na procura de si e dos seus, perante o terrível espectáculo do ego-monstro. Realmente Majruh é um sufi. Nas suas próprias palavras: “o sufi é espontaneamente inconformista. Dissidente que defende a sua liberdade individual, troça sem cessar do despotismo e a sua única referência é a sua disciplina. Respeita as leis que não ameaçam o seu caminhar. Reza mais e melhor que qualquer homem de fé, não por ostentação mas para alcançar o domínio de si próprio. Jamais se compromete com a mentira e a iniquidade. Se a sociedade se corrompe até ao ponto de proibir-lhe alguma acção útil para com outro, abandona a cidade. Retirado ao deserto, elige, ali como em qualquer outra parte, a solidão e a liberdade”.

Segundo Majruh se Deus é expulso da cidade dos homens -que é a cidade da alma- acontecerá uma catastrofe: o ego do homem abatirá-se sobre a cidade da alma. Imagina proceder de um poder discreccional e aspira a possuir algo parecido. Pretende ser Deus na Terra. A pouco e pouco a incontrolada vontade de poder leva à demência. Uma demência muito razoável por outra parte, que é capaz de uma astucia maquiavélica à hora de disfarçar a sua verdadeira condição.

Tanto o Viageiro da meia-noite como o Riso dos amantes são o percurso inclassificável de Majruh na intra-história do Afgenistão, uma alegoria profética e visionária. Começada antes da invasão soviética e acabada antes da chegada ao poder dos talibans parece pressagiar através dos signos do presente o terrível desenlace da barbárie sem limites que depara o futuro. Ainda que isso não seria mais que algo acessório. O essencial está no seu oferecimento na procura do oceano do sentido: o amor. Um dos momentos mais intensos é a história (que sem dúvida evoca uma história real vivida pelo poeta) de Gulandam e Delazad. Dous namorados que visitam ao filósofo-poeta e que representam a beleza, o amor e a liberdade. A ele se dirigem com franqueza e amizade e lhe confiam os seus anelos. Majruh tece com eles palavras de sabedoria e de pesquisa. Viviam no mesmo campo de refugiados que Majruh. Um bom dia foram apedrejados até a morte por uma massa enfebrecida, no mesmo campo em que o próprio Majruh também morreria assassinado não muito mais tarde. Majruh escreve:

Quando chegou tudo tinha rematado. A multidão dispersava-se lentamente.

Um pouco aparte dos demais, alguns dignitários religiosos luziam as suas lúgubres barbas. Os turbantes e as negras túnicas rodeavam-nos com uma aura mais fúnebre que de costume.

O Viageiro chegou ao centro da praça.

Meio sepultos numa montanha de pedras, jaziam um homem e uma mulher novos, cobertos de sangue e de fango.

O Viageiro ficou petrificado.

Eram Gulandam e Delazad”

Depois de carregar os seus corpos o Viageiro improvisa com as suas próprias mãos uma sepultura para os amantes. Majruh clama contra os miseráveis e dirigindo-se aos seus amigos diz:

Oxalá, amigos, não leveis convosco nem um chisco do ódio abjecto pelo que os fixeram assassinar! A vossa existência demonstra que a vida não pode limitar-se a um inacabável lamento, nem a um ininterrupto duelo como agoiram os vossos carrascos. Não: graças ao vosso passo pela terra, a vida ofereceu-se como o que é: o riso de um instante, o anúncio alegre de um novo mencer, a mensagem de seiva da primavera…” e mais adiante: “Piedade, dixo o poeta, para o coração que não recebeu o mínimo sinal de Ti! Morto, o corpo sem mensagem da alma/Estéril, a palavra de amor estranha ao sofrimento/A Miriam da alma não engendrará luz/se o segredo compartido não passa/de intimidade a intimidade.

Dadas as limitações do espaço cortei muito texto de real interesse, mas isto é só uma notícia realmente.

Em outra ocasião Majruh fala, através do viageiro, dos cárceres onde os “camaradas” mantinham também a velhos sábios e homens espirituais. Um exemplo está no caso do capítulo intitulado: “Entrevistas no coração da noite” onde o viageiro descreve assim ao seu “venerável amigo”, companheiro de cela numa lúgubre cadeia: “Quase sempre sorria. Apesar do infortúnio, sorria. Nele reflectia-se a lembrança de um mundo perdido, de uma humanidade acolhedora e transparente. Naquela cela, apareceu-se-me como a terra habitada ao final de uma noite sem esperança”. Este velho amigo conta-lhe ao viageiro o interrogatório ao que foi submetido por um dos poderosos de Tiranópolis:

-Eminência, perguntou-me com ironia, na tua opinião, o vasto universo tem um criador?

Sim, respondi, existe um poder infinito e eterno.

-Demonstra esta afirmação!

Fiquei calado. Que podia dizer? Que mensagem poderia dizer a um profissional do terror? Mas tinha que falar, assim que me escutei a mim mesmo dizer o seguinte: (aqui há um pequena exposição filosófico-teológica, que é rebatida com as seguintes palavras)

-Acaso não sabes, Eminência da Miséria, que o teu Deus foi destituído, morto, aniquilado, e que nos deixou livres para exercer todos os poderes?

-Dizeis que tendes ganhado a liberdade que vos permite reinar. Ignorantes! Ao converter-vos em estrangeiros de Deus, vos tendes afastado da liberdade para entrar na cadeia do poder. Pois só Deus, liberdade infinita, dá sentido às demais liberdades. Não percebeis que ainda que Ele tenha abandonado as ruínas das vossas almas e as tenha sumido nas trevas, ilumina sempre a Cidade da Alma dos seu amigos e organiza nela todo tipo de festas? Não percebeis de que o facto de que alguns vivam na escuridão não implica que não exista o fogo? Não veis que a luz ainda existe ainda que o mundo de alguns cegos esteja cheio de trevas? Ó ignorantes! Sabei que estais baixo o poder de um feitiço demoníaco, de um dragão que se deleita devorando-os e que se devora a si próprio enquanto desfruta, pois a aniquilação e a morte são a sua lei e o seu fim.

-O acusado é perigoso. Levai-no e que esteja preparado para o interrogatório final.

E finalmente alguma das histórias de Rir com Deus, onde Majruh recompila histórias dos clássicos sufis e mesmo alguma do mestre contemporâneo e amigo, Ustad Khalili.

Falsa oração

Um sufi, no silêncio do seu retiro, teve a visão súbita de uma mulher, entregando-se ao jogo do amor, numa casa de encontros.

Senhor, – suspirou o sufi- pela Tua graça, concede-me a essa mulher!

-Não – dixo a Voz- porque não me pediste que te entregasse a ti a ela?

O turbante

Um louco de Deus tinha o costume de levar descoberta a cabeça polas ruas de Ghazni. Alguém perguntou-lhe porque não se dignava levar um turbante.

-A menos que ele me faga chegar um desde o alto- respondeu-, jamais porei uma cousa assim sobre a minha cabeça.

Um dia, quando passava por uma rua estreita, alguém lançou-lhe uma casca de meio melão desde uma janela alta.

Este chapéu improvisado caiu sobre a parte superior do crânio, ao que se ajustava maravilhosamente.

Por fim tinha recebido o seu turbante celestial.

Tomou-no, observou-no de perto e, lançando-o cara as nuvens, exclamou:

– Se isto é todo o que me podes enviar, toma-o e põe-no Tu!

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6 thoughts on “A noite acesa de Bahaudin Majruh (II), por José António Lozano

  1. Pedro Casteleiro says:

    Excelente. Para além do amor e o riso, a nada mais me conduz o que aqui escreveste, o que é o melhor sinal, amigo.

  2. Pedro Casteleiro says:

    Excelente. Para além do amor e o riso, a nada mais me conduz o que aqui escreveste, o que é o melhor sinal, amigo.

  3. José António Lozano says:

    Para Majruh o despotismo externo é alimentado desde o nosso próprio coração. De aí que não acredite em revoluções. Segundo ele, aqueles que não fizeram verdadeiras e revolucionárias transformações dentro de si próprios, quando se comprometem (e amiúdo com muita energia e convicção) com excesso de zelo na tranformação do mundo, só engadem um pouco mais de miséria ao mundo. Todo o séc. XX é uma exemplificação disto (pondo exemplos cercanos). Algo similar pensava Espinosa no século XVII.

  4. José António Lozano says:

    Para Majruh o despotismo externo é alimentado desde o nosso próprio coração. De aí que não acredite em revoluções. Segundo ele, aqueles que não fizeram verdadeiras e revolucionárias transformações dentro de si próprios, quando se comprometem (e amiúdo com muita energia e convicção) com excesso de zelo na tranformação do mundo, só engadem um pouco mais de miséria ao mundo. Todo o séc. XX é uma exemplificação disto (pondo exemplos cercanos). Algo similar pensava Espinosa no século XVII.

  5. Ramiro says:

    Grande é a beleza destes textos, e mais grande ainda a verdade e valentia de quem os escreveu. Estas aproximações amostram o achegados que estamos todos os seres humanos quando escutamos o coração, órgão vital da nossa existência, contra as ataduras várias em que nos tentam manter -em que nos mantemos nós próprios muitas vezes-.

  6. Ramiro says:

    Grande é a beleza destes textos, e mais grande ainda a verdade e valentia de quem os escreveu. Estas aproximações amostram o achegados que estamos todos os seres humanos quando escutamos o coração, órgão vital da nossa existência, contra as ataduras várias em que nos tentam manter -em que nos mantemos nós próprios muitas vezes-.

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