José António Lozano, Poesia, Tradição

Dous poemas de Hafez

HafezShamsuddin Hafez nasceu em Shiraz em 1320 e faleceu em 1389. Foi um talento excepcional em diversos campos como a filosofia mística, a poesia ou a teologia. Chegou a aprender o Alcorão de cor, que é o que significa o seu nome (Hafez, o que recorda). Revolucionou a poesia persa na forma do ghazal (poema corto e amoroso, clássico nos trovadores persas e árabes) ao introduzir vários temas numa mesma composição sem perder a harmonia e o ritmo do mesmo. Foi contestado pola ortodoxia religiosa, acusado de sensual e herético. Ele pola sua parte não se cansou de ridicularizar a falsa piedade, a hipocrisia religiosa e a retórica racionalista.

 

GoetheGoethe escreveu o seu Divão oriental e ocidental inspirado em Hafez, assombrado pola sua liberalidade, ousadia e, sobretudo, pola sua paixão no canto do amor. Nietzsche dirá: “Hafez realmente é aquele que conhece e desfruta” Há que dizer, porém, que a influência sobre o ocidente foi cultural e literária mas não iniciática. Nota-se no próprio Goethe, pois não há sempre uma compreensão adequada das metáforas e símbolos da tradição oriental. Tende-se a confundir sensualidade, sentimentalidade e espiritualidade. Esta equivocidade afectou ao próprios contemporâneos do poeta persa, e mesmo a sua vinculação com formas organizadas da mística persa não está clara. Ele mesmo não duvida em ser critico com algumas formas de entender o sufismo e nisto assemelha-se com ibn Arabi de Murcia (1165-1240), poeta, místico e filósofo, que foi considerado como um exemplo de hipócrita e conformista por muitos dos seus contemporâneos mas que era, na verdade, o mais grande mestre da sua época.

 

Seria interessante, mas ficará para outro dia, pensar a questão trovadoresca, a mística e a cavalaria iniciática, em relação com a Demanda e com toda uma Espanha herética e heterodoxa com a que nos sentiríamos francamente em mais agradável companhia para espanto de Don Marcelino Menéndez y Pelayo, pois o pobre, que se lhe vai fazer, não dava mais de si.

De Hafez podemos encontrar 101 Poemas na Editorial de Oriente y el Mediterráneo ou bem na edição de Rafael Cansinos Asséns, recentemente reeditada em Edições Arca intitulada: Antología de poetas persas.

 

A CASA DA ESPERANÇA

A casa da esperança ergue sobre areia

Os cimentos da vida no ar sustentam

Vem, pois, vinho na minha mão derrama

Para por fim a toda pena.

Deixai que seja escravo da vontade do homem

Que sob a abóbada turquesa do céu

Das anímicas confusões

Logrou libertar-se e continua-o fazendo.

Excepto que a mente siga emaranhada

Com aquela cuja radiante beleza

A evocar o amor e a lealdade,

Liberta a mente de toda fadiga

Ontem à noite andei a beber

Na taberna e uma mensagem

Do mundo invisível agora vos conto

Que me trouxe o belo Gabriel

Falcão de sobranceiro prestígio

de ninho elevado e olhar altivo

esta cidade da aflição

não é própria para passar os teus dias”

E que não ouves que te chama o assobio?

Desde os muros do céu aclamou.

Não compreendo como é que foi

Que este engano seja a tua prisão”

Ouve o conselho que agora te dou

Que as tuas acções determina:

Estas são as frases que eu recebi

Daquele que foi meu ancião guia.

Contenta-te com o destino e a vida

não voltes cenhoso o teu rosto

aqui abaixo a porta da liberdade

não está fechada para nós”

Não tentes achar fidelidade

Neste mundo de tão fraco apoio

Antes que a ti, esta velha bruxa

Traiu a milheiros de noivos

Não acredites em mostras de pura intenção

Nem que a rosa sorri sincera:

Laia-te, amante rouxinol:

Há muito motivo de pena.

Porquê gemes e invejas de Hafez,

Pobre poetinha, a facilidade?

Só Deus é que pode conceder

O dom musical e a graça feliz.

TODO O MEU GOZO

Todo o meu gozo é beber vinho

Dos amados lábios,

O prazer máximo já obtive:

Só Deus seja louvado.

O Destino, meu velho inimigo,

Nunca deixou ir à minha amada;

Dai-me pois áureo vinho

E os seu lábios escarlates

(Clérigos fanáticos, velhos

que o caminho extraviaram

De nos murmuraram:

São bebedores, borrachos”

Que o asceta viva lôbrego

Não quero saber nada dele,

Se o monge tem de ser piedoso

Que Deus perdoe a sua fé)

 

Querida, que podo contar

Da minha pena, se te foches

Senão as minhas ardentes bágoas

E um centenar de suspiros?

Que não contemple um infiel

A amargura silenciosa,

A tua beleza vê o cipreste

O teu rosto a lua ciumenta

O desejo dos teus beijos

Obriga a Hafez a isto,

Que já não se preocupa

De orações nem leituras

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9 thoughts on “Dous poemas de Hafez

  1. José António Lozano says:

    Epitáfio de Hafez no Irão.

    Recebi, a Deus graças, a boa nova:
    Vou reunir-me com meu Amado.
    Vou por último abandonar esta gaiola
    que tem meu espírito prisioneiro.
    Amigo! Amante!
    Quando venhas ao meu túmulo, vem embriagado,
    de uma bebedeira que nunca decresça,
    cheio teu ânimo de um fervor que engendre amor,
    e de esperança cheio.
    Tem presente que a alegria deste mundo é curta,
    passará com os anos vividos.
    O importante é o que no final ficará,
    dessa embriaguez que levas na tua Alma.

  2. José António Lozano says:

    Epitáfio de Hafez no Irão.

    Recebi, a Deus graças, a boa nova:
    Vou reunir-me com meu Amado.
    Vou por último abandonar esta gaiola
    que tem meu espírito prisioneiro.
    Amigo! Amante!
    Quando venhas ao meu túmulo, vem embriagado,
    de uma bebedeira que nunca decresça,
    cheio teu ânimo de um fervor que engendre amor,
    e de esperança cheio.
    Tem presente que a alegria deste mundo é curta,
    passará com os anos vividos.
    O importante é o que no final ficará,
    dessa embriaguez que levas na tua Alma.

  3. José António Lozano says:

    Suponho que fazes referência a Khaled Hosseini ( e não a Campanella). Eu li o seu romance Cometas no Céu, que me pareceu muito bom, mas não li a Cidade do Sol. Suspeito que Hosseini tem ligações com o sufismo pela sua maneira de focar os temas e por referências explicitas (mais ou menos) que ele faz.
    Sobre Hafez há bastante cousa publicada mas desconheço, Elisa, se é galega, brasileira, portuguesa ou de onde?.
    Em espanhol há uma edição de poemas na Editorial Sufi que se intitula El despertar del amor. Em Brasil e Argentina sei que há alguma edição traduzida de poemas por um autor que foi discípulo do mestre sufi de origem afegã Omar Ali Shah, penso que se chama Jorge Alberto Ferreira mas não estou totalmente certo.
    Se quiseres informações mais concretas, tentarei! E desculpa a demora mas andei ausente na ponte do 1 de novembro!

  4. José António Lozano says:

    Suponho que fazes referência a Khaled Hosseini ( e não a Campanella). Eu li o seu romance Cometas no Céu, que me pareceu muito bom, mas não li a Cidade do Sol. Suspeito que Hosseini tem ligações com o sufismo pela sua maneira de focar os temas e por referências explicitas (mais ou menos) que ele faz.
    Sobre Hafez há bastante cousa publicada mas desconheço, Elisa, se é galega, brasileira, portuguesa ou de onde?.
    Em espanhol há uma edição de poemas na Editorial Sufi que se intitula El despertar del amor. Em Brasil e Argentina sei que há alguma edição traduzida de poemas por um autor que foi discípulo do mestre sufi de origem afegã Omar Ali Shah, penso que se chama Jorge Alberto Ferreira mas não estou totalmente certo.
    Se quiseres informações mais concretas, tentarei! E desculpa a demora mas andei ausente na ponte do 1 de novembro!

  5. Ramiro says:

    Com certeza todos os textos, toda a vida, podemos dizer, têm múltiplos níveis simultâneos. Uma das melhores maneiras de perceber esse níveis e a enorme rede de relações que tecem com todo, com o Todo, é a poesia, na sua arte de descobrir e agochar, de saltar por riba das barreiras e chegar a um lugar em que a luz obscura que banhou a existência de um ser (ponhamos Hafez, neste caso) não nos é estranha, por falar-nos directamente a uma parte um tanto, digamos, dormida de nós. Uma parte, isso sim, central.
    Uno-me ao Pedro em lhe dar graças por este presente ao Chíqui.
    E que as leituras, e a Vida, nos sigam fazendo progredir.

  6. José António Lozano says:

    Contrariamente ao que se pensa popularmente por aqui os conhecimentos requeridos para o accceso a um mesmo, ao conhecimento de si, a uma “espiritualidade” não depende só do talento e a genialidade mas de uma função de mestria. O filósofo portugês José Marinho tratou isto claramente num livro intitulado Filosofia: ensino ou iniciação?. Há três níves de ensino: pedagogia, paideia e anagogia. Isto é paralelo à classificação sufista de 1º, 2º e 3º domínio. A questão de como isto foi deliberadamente contestado e progressivamente eliminado na Modernidade é algo que seria longo de desenvolver aqui. Dizer tão só que Mestre faz referência a um homem de carne e osso que alcançou a sua maturidade espiritual como também a uma função do ser ligada à auto-iniciação.

    Quanto ao resto do que dizes é bem interessante. Para alguma dessas questões ocorresse-me a obra de Henry Corbin. Acabo de descobrir um link para um escrito de Robert Graves sobre os sufis (é a sua introdução ao livro Os Sufis de Idries Shah) e acho que polo momento já é informação de mais:

    http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2006/10/o_sufismo.html

    Rosalia é, sem dúvida, muito mais em galego e castelhano do que se têm pretendido fazer dela. E no sentido do que falamos é claríssimo.

    Sinto ser tão pouco claro mas há cousas que terão de sair publicadas e desenvolvidas fora deste contexto algo informal.

    Uma forte aperta.

  7. A ler a introdución preguntábame se os lectores deste blogue están minimamente familiarizados con o concepto de “mestre” que ti agora traes para a mesa. Non será talvez unha definición posíbel aquela que aparece na segunda estrofa do poema “A casa da esperanza”: «Deixai que seja escravo da vontade do homem / Que sob a abóbada turquesa do céu / Das anímicas confusões / Logrou libertar-se e continua-o fazendo»? Porque quen pode manifestar obediencia total senón a quen represente o coñecemento verdadeiro, a integridade humana plena?

    Moitas cousas me suxiren estes versos en que o poeta, home que sofre iluminacións nas tabernas, é dicir, no lugar en que mana o “viño”, é tratado de paxaro. Todo o enigma, sen ir máis lonxe, do famoso “Romance del prisionero” que, para alén de probabelmente estar incompleto, cativa os estudosos através de símbolos ornitolóxicos. Hai anos que sospeito un fermoso traballo no estudo da lírica peninsular á luz das chaves ramificadas das raíces árabes. Até porque a mística que trouxeron á Iberia non era menos polida que a ciencia.

    Así tamén o segundo poema, en que a bebedeira semella máis vir do alcohol amoroso do que dos hostaleiros da cidade, lembra as coitas d’amor medievais e o sofremento melancólico pola ausencia dun misterio representado na amada. Aquí xa tantas cousas: o “cabaleiro da triste figura” e a personaxe do “triste” que chega a Rosalía de Castro (En las orillas del sar) e António Nobre:

    En cada fresco brote, en cada rosa erguida,
    cien gotas de rocío brillan al sol que nace;
    mas él ve que son lágrimas que derraman los tristes
    al fecundar la tierra con su preciosa sangre.
    Rosalía de Castro

    Rosas de vinho! Abri o cálice avinhado,
    para que en vosso seio o lábio meu se atole:
    beber até cair, bêbado para o lado,
    Quero beber, beber até o último gole!
    António Nobre

  8. Pedro Casteleiro says:

    O meu silêncio será a melhor companhia para mim, dizem estas canções. Graças, Chíqui, por trazer-nos um pouco deste vinho.

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