Alfredo Ferreiro, História da literatura, Lusofonia

A Galiza de Saramago en 1990

saramago_desenho-do-rui.jpegRecentes intervencións nos blogues Aspirina B, Coroas de pinho, Opaco e As uvas da solaina así como no PGL a causa dunha entrevista a José Saramago me lembraron unha outra realizada en Compostela en galego e/ou portugués ao escritor por uns xovens universitarios que xa demostraban perspicacia e talento infrecuentes. Era 1990 e viña á luz na Folhas de Cibrão. Revista Universitária de Investigação Científica, I, 2, con responsabilidade de Antom Fernández Malde e Pedro Casteleiro.

Rescatamos aquí un excerto sobre algunhas das cuestións tratadas nestes días:

«[…] Tem você algum contacto com a literatura feita na Galiza?

Não, quer dizer, a literatura feita na Galiza é para nós uma grande desconhecida. Se tiramos os nomes conhecidíssimos —mas mesmo assim com altas e baixas a respeito da divulgação deles—, se tiramos um Castelão, uma Rosalia, um Cunqueiro, um Blanco-Amor e alguns poetas como Manuel-Maria… A regra é o grande desconhecimento. E é um desconhecimento que não sei como é que se pode resolver.

É muito fácil dizer: —Temos que correr, ir por um lado, ir pelo outro… Isso é muito fácil dizer, mas como é que isso se faz é muito mais difícil, porque isso passa por uma coisa que se chama distribuição do livro, venda do livro, colocação do livro nas livrarias, interesse do público de um lado e doutro e isso já sabemos que está muito mal.

Claro que o problema é que em Portugal quando se fala da literatura dos nossos dias, o que nós vemos é a literatura espanhola. E não pensamos se é de Catalunha ou da Galiza ou de Andaluzia. É literatura que vem da Espanha. Há uma atitude involuntária reducionista que apaga as nacionalidades, que apaga as expressões literárias nacionais e que as reduz a uma linha única que é a Espanha. Pode acontecer que um autor galego, se for traduzido em Portugal, provavelmente dirão que é um autor galego; dirão que é um autor espanhol. E tudo isto acaba por confundir. Claro que, nalguns casos, quando são literaturas com expressão mais forte, relativamente mais forte em termos de divulgação, como é o caso da catalã…

Mas da Galiza é realmente difícil termos uma ideia clara do que aqui se passa. Certos jornais em Portugal dão alguns excertos, mas são tão poucos que melhor é dizer que é um ou dois. Dão, de facto, alguma atenção, mesmo assim bastante reduzida acerca do que é que se passa aqui. Mas eu acho que a culpa talvez seja vossa… Se vocês querem sair desta penumbra em que a Galiza vive —porque a Galiza tem vivido em penumbra até do ponto de vista do resto da Espanha…— Como é que não há-de viver em penumbra do ponto de vista de Portugal?

Mas isso é estranho teoricamente, porque nós não falamos a mesma língua que os espanhóis, mas sim a mesma língua que você?

É evidente, mas falta fazer não sei quê se me perguntarem, o que é que é preciso fazer para que tenhamos todos a consciência de que praticamente falamos a mesma língua, porque falamos a mesma língua, e por que é que então não…

É claro que do ponto de vista do poder central espanhol, qualquer aproximação entre a Galiza e Portugal, mesmo no plano linguístico, no plano cultural e tudo isto, eu acho que é vista com maus olhos. Madrid não gostaria que por cima do rio Minho se lancem todas as pontes possíveis e imagináveis, e que a Galiza seja uma espécie de prolongamento natural de Portugal… Mas também não vejo que tal e como as coisas estão, que Madrid… Eu não me apercebo de que haja acções do governo de Madrid no sentido de serem contrárias a isto, também não as há no sentido de favorecer…

Sim, têm talvez que jogar ao iberismo, têm que jogar ao europeísmo, têm que jogar com isso.

Não, olha, eu acho que a situação se pode modificar radicalmente…

Talvez no 92, que é a abertura das fronteiras na Europa…

Não, não, a Europa não. A Europa iria acabar com a Galiza, com as Astúrias… Não espero nada de bom da Europa. Aquilo que eu acho é que a situação pode modificar-se muito a partir do momento em que ache uma Espanha federativa, em que a Espanha não seria mais já esta coisa híbrida que não se sabe se é um país só, se é um conjunto de nacionalidades, e em que as autonomias se vão conquistando muito lentamente, e pouco a pouco. A solução para a Espanha é chegar à figura de uma federação. Então as relações entre Portugal e a Espanha deixariam de ser, como são, predominantemente relações bilaterais, entre Estado e Estado, para se tornarem relações multilaterais, relação entre Portugal e Catalunha, entre Portugal e Andaluzia, entre Portugal e a Galiza. Neste processo, sobretudo do ponto de vista cultural, neste processo circular em tudo comunica com tudo, então penso que a situação aí se modificará.

Agora também, com tudo isto, além de passar pelo marketing, passa também por uma vontade política. A questão que se põe é esta, é saber que é o que a autonomia galega pensa… (bom, quando digo a autonomia galega, digo os seus representantes políticos superiores), o que é que pensam de uma aproximação com Portugal. Embora por outro lado, eu acho que se devia reflectir sobre coisas tão significativas como esta:

Há alguns anos eu estava em Madrid, entrei numa livraria e havia um livro de Castelão. Comprei o livro de Castelão, cheguei ao hotel, abri o livro, olhei-no e comecei a ler… E disse: que é o que estou lendo…? Estava lendo uma tradução espanhola, uma tradução castelhana do galego, da língua galega que o Castelão tinha usado. E então interroguei-me… Como é que é possível isto? Então é que a Espanha precisa —certa Espanha, a Espanha castelhana—, precisa de traduzir um livro de Castelão para que…

Ora bem, entre Portugal e a Galiza isso não é necessário; um livro de Castelão pode ser lido, embora não seja lido por qualquer pessoa, mas mesmo assim há a dificuldade de entrar numa língua, que sendo a mesma, não a escrevem igual…

Bom, para nós…, quer dizer, se eu tomo um livro de Castelão há muitas coisas que não entendo, porque são dialectalismos…

Pois são questões de dialectalismos, são questões de regionalismos muito estreitos, e isto está bem. Isso também acontece comigo, por exemplo, se leio um livro de Aquilino Ribeiro, algumas vezes tenho que ir a um dicionário muito bom, muito rico, para encontrar lá termos que ele usou.

Mas de facto acontece isto que é extraordinário: chegar aqui um escritor de Portugal para fazer um colóquio, tem trezentas pessoas que o recebem e o ouvem… Mas à inversa não se daria. Se fosse um escritor galego a Lisboa, isso não aconteceria. Iriam não sei quantas, mas muito poucas pessoas. Quer dizer, nós não vos vemos a vocês. A Espanha, a ideia da Espanha está antes. Antes de que nós consigamos ver à Galiza temos que ver antes à Espanha, que se levanta ocultando a Galiza. E isto, esta relação é que é preciso inverter. Não é esquecer ou apartar a Espanha, é tornar a Galiza mais visível.

Havia uma frase de Castelão quando na Segunda República Espanhola se falara tanto do iberismo e da futura confederação, e que não entenderam bem os castelhanos: “Bom, falam vocês muito de iberismo e demais, mas esquecem que única chave para abrir Portugal é a Galiza”.

Ora bem, nessa altura seria, mas agora não há chaves, há gazuas…., que se chamam a invasão económica dos espanhóis, a compra de empresas pelos espanhóis, e tudo isso. Mas isto não é nada que não tivesse acontecido já antes. Porque toda a gente se surpreende agora com a invasão dos espanhóis, mas ninguém se surpreendeu até agora com a invasão dos norte-americanos, que têm as empresas, que vendem Coca-Cola, que vendem camisetas com “Universidade de Boston”, e que são vestidas por pessoas que nunca irão à Universidade de Boston, e que nem sequer sabem onde é que fica Boston. Esse é sim um domínio, e a única coisa que temos que pedir nós próprios é capacidade para invadirmos nós a Espanha.

Há talvez um certo complexo de inferioridade em Portugal a respeito da Europa, e a respeito do mundo? Um complexo que para os galegos nos parece muito estranho, porque o argumento que nós temos sempre é Portugal.

Eu não diria exactamente um complexo de inferioridade. Cada um tem de ter consciência daquilo que vale, e nós temos consciência que somos um pequeno país; não vale a pena de entrar em delírios de megalomania. Nos séculos XV e XVI de facto Espanha e Portugal possuíam uma tecnologia que nenhum país da Europa tinha. E foi essa tecnologia a que nos permitiu termos uns barcos e irmos por aí fora. Eu não falo já de “espírito de aventura”, não tem que ver com isso; a tecnologia ninguém a tinha, e nós a tínhamos e fomos. E agora não temos.

O que acontece é isto; enquanto a Espanha sempre teve, mais ou menos, uma ideias imperiais que ficaram do Império, a verdade é que para nós essa história do Império nunca teve um grande significado, nunca no povo português, e também não nas classes sociais mais altas se criou a ideia, nem nos intelectuais nem em nada disso, que nós tínhamos o Império. Então nós vivemos sempre na própria dimensão, conscientes da nossa debilidade, da nossa perspectiva, evidentemente, sabendo que militarmente não somos nada, sabendo que economicamente somos muito pouco, e não o chamaria complexo de inferioridade, mas consciência do que de facto somos.

Em relação à Espanha, enfim, são velhas histórias, são velhas histórias que assentam em preconceitos, evidentemente, mas também é verdade que até isto tem que ser entendido. Porque quando nós olhamos para o mapa da Espanha e está ali um, eu penso que os espanhóis não gostam de ver a Península Ibérica, não gostam de olhar para o mapa da Península Ibérica, porque de duas uma: ou a reproduzem inteira nos seus mapas, e então aquele bocado que está ali não é Espanha; ou então, como às vezes fazem, retiram Portugal de ali, e então a Espanha fica toda desarrumada… Há uma falta ali acima…

Temos que entender que a presença de Portugal aqui criou nos espanhóis ao longo do tempo uma certa instabilidade, que superou ou substituiu por um sentimento de indiferença: o que está ali não existe!

Portanto, para além dos conflitos que houver, os conflitos militares, os problemas dinásticos —que evidentemente se resolvem—, agora estamos em vias de não pensar mais nessas histórias de Aljubarrota, e Filipes e tudo isso. O que é necessário é que pelo nosso lado se perca esse sentimento de desconfiança em relação à Espanha, onde até nós temos um refrão que diz: “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”. Eu tento de desmentir isso, porque é que estou casado com uma espanhola e, portanto, nós temos que perder esse sentimento de temor, esse sentimento histórico de temor… E a Espanha tem que perceber que dez milhões de pessoas aqui ao lado, com uma cultura e uma história, e uma identidade e uma personalidade próprias, têm que ser reconhecidas e respeitadas, e que se perca essa ideia de que o português é…

Você que tem como matéria prima de trabalho a Língua Portuguesa, que pensa do estado actual desta em toda a Lusofonia, e em concreto na Galiza e Portugal?

Bom, eu conheço mal a questão; sei que o problema aqui, a questão não é pacífica, isso já o sei. Que há lusistas muito determinados, há outros grupos que tendem, pelo contrário, para a continuação da castelhanização do galego…

Julgo que, ao contrário do que é que acostumo dizer, nestes casos eu estou de acordo com o radicalismo. Porque uma atitude de meias tintas, de meias águas, acabará com certeza por prejudicar a própria identidade do galego, não já no que se refere apenas à língua, mas também à sua própria identidade cultural. E penso que essa tentativa de aproximação da norma portuguesa, que muitos defendem com muita força, pode não ser alcançável, quer dizer, pode até eventualmente não ser útil, completamente útil. Mas penso que os que defendem essa aproximação tão radical, aquilo que no fundo estão a fazer é a querer defender-se do castelhano. E a verdade é que o galego não tem outra maneira de defender-se do castelhano, senão aproximando-se do português.

Então, essa atitude tão radical que em si mesma pode, e acredito que sim, criar tensões aqui na Galiza, polémicas entre gente que não se fala uns com os outros, que se começou uma guerra. Isso eu julgo que é legítimo, que é natural, e que é mesmo desejável. Porque é justamente, na medida que essa tensão em cada um esteja muito consciente, daquilo que defende e daquilo que quer, só daí é que poderá resultar um encontro para uma solução, que defenda o galego do castelhano. […]» (Para ler a entrevista enteira ligar para Çopyright – pensamento, crítica e criação, 67)

Revisión: “Saramago dixit, por Xavier Alcalá.

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6 thoughts on “A Galiza de Saramago en 1990

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  4. Casteleiro says:

    Grato ao Levantador por este trabalho de recuperação -sim, é interessante porquanto esta entrevista é a parcial radiografia do passado e, em certa medida, uma das muitas chaves do presente.

    Creio humildemente que Saramago, o narrador, tinha uma compreensão que sempre foi mantida, uma compreensão sobre a cultura muito alheia ao etnicismo, uma ausência notável, diria, da “educação emocional” que é fundamento de certo sentir galeguista; entendam-me, creio que nunca ficou demasiado afetado polas suas circunstâncias vitais, no relativo a este assunto -de facto, se reparam na entrevista, Saramago era extremamente cauto, não se queria comprometer, mas não por covardia, acho, mas porque, no fundo, era um tema a que não ligava uma importância, digamos, “vital” -ele pensava que as verdadeiras questões eram de índole social, económica, etc., e só secundariamente “nacional” . E era assim, para mim de maneira óbvia, por dous motivos: por ser português e polos seus vínculos com determinada ideologia (tradicionalmente alheia, mesmo historicamente inimiga de nacionalismos).

    Fico, como afinal será o balanço de todos, com a sua intensidade humana, com o amor que nos deu.

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