Alfredo Ferreiro, Críticas e referências, Poesia

Os selos da Lituânia, de Amadeu Baptista

escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, ven num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona da água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam […].

Este libro, merecente do Prémio Edmundo Bettencurt (ex aequo), ofrécenos máis do alto nível de inspiración de Baptista á hora de traer para a mesa a memoria da infancia e con ela transcender o tempo e atinxir o universal. Pequenos acontecementos e grandes lembranzas do pasado surxen nun verso de marcado e alegre ritmo, e poboando unha sintaxe lúbrica que converte imaxes elaboradas en bocados deliciosamente accesíbeis. Poesía que transforma a nosa particular mundanidade, coas súas vitorias e traumas, en artísticos frascos con perfumes inesquecíbeis.

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