Alfredo Ferreiro, Breves, Colaborações:, Jornalismo, Língua

Orgulho de neofalante

orgulhoneofalanteSou novo falante de galego desde que decidi assumir como própria a língua que a minha mãe, que deseja sempre o melhor para mim, escolheu não me transmitir. Rejeitava ela a fala que tinha aprendido com a família, e que se vinha falando desde que a gente tem memória. Porém, não foi em rigor uma decisão apoiada na carência, mas todo o contrário, alicerçada na estrita provisão de recursos, algo profundamente humano e por isso nada estranho ao amor maternal.

Mas ela já tinha apreendido e mesmo experimentado que o futuro era possível só se a gente falava uma autêntica língua, e que aqueles falares que percebem as favas e as vacas não são ótimos para arranjar um trabalho como os que na modernidade a gente precisa. Por isso, ao tempo que me alimentava com o melhor que brotava do seu peito, também me negava, sem sabê-lo, um alimento que eu tive de apanhar entre o que a ela lhe sobrava, e que na aldeia ainda nascia com a naturalidade do que sempre brotou ali.

Amo a minha mãe, mas detesto a infinita ignorância que a Espanha (todos os seus agentes desgaleguizadores, aquém e além) têm sementado na Galiza, e que faz com que a gente, a partir do exemplo do idioma, não tenha apreço pelas autênticas tradições.

Nunca pensei que tinha adotado o galego face ao meu castelhano inicial por uma atitude antissistema. Acho melhor que foi uma coerência, provavelmente inoculada por via artístico-intelectual, que me levou a sentir como próprio aquilo que rebordava sem trégua sob o leve manto de espanholidade que respiraba à minha volta. É sem dúvida uma questão de sensibilidade, e não só para ser alvo de aquilo que nos marca senão mesmo para ser penetrado por uma realidade que de algum modo se pressente, e que, de um modo íntimo e prévio a todo raciocínio, precisamos absorver.

[Praza Pública, 1/10/2014]

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