PGL entrevista Alfredo Ferreiro

Alfredo Ferreiro recolhe, entre outros epítetos, o de poeta. Tem participado em vários projetos coletivos, caso de Amigos de Azertyuiop e o 7 poetas. Como respira a poesia na era digital?

Respira muito bem, embora a gente não perceba os ritmos do poético que transcendem uma visão convencional da vida. A perspectiva tradicional dos meios poéticos, como o livro de poemas em papel, é que sofre, mas à par de outros géneros literários. O romance também é cada vez menos lido, e ninguém parece reparar nisso.

Diriges, com Táti Mancebo, a plataforma de blogues Blogaliza. Como respiram os blogues na era das redes sociais?

Devo aproveitar a ocasião para informar de que a Asociación Cultural Blogaliza, presidida por Pedro Silva, alma mater da comunidade de blogues desde o seu nascimento, é que ficou responsável polo serviço desde há alguns meses. A Táti e mais eu albergamos o Blogaliza no nosso projeto empresarial durante vários anos, mas felizmente hoje tem um futuro certo nas mãos de quem melhor a conhece e o pode manter. Quanto à vitalidade dos blogues, é evidente que na comunicação do imediato perderam espaço se comparados com o Facebook ou o Twitter; mas como espaço pessoal de publicação e arquivo continuam a ser um recurso imprescindível.

Revista Palavra comum

Um dos teus últimos projetos é a revista on-line Palavra Comum. Na apresentação afirmas que a Galiza é terra de talentos e a revista um lugar de encontro. Que é preciso para a cultura galega ser um lugar de encontro para além de ortografias e estratégias culturais?

É isto um tema controverso sobre o que tenho uma opinião bicéfala que algumas pessoas, de uma beira e da avessa, nem logram compreender. Na experiência consciente da nossa língua acho duas verdades rijas demais para serem conciliadas numa fórmula única: 1) a ortografia histórica ou reintregrada (qualquer uma) é uma estrangeirice surpreendente para muita gente, o que provoca o reintegracionismo ativo medrar numa sorte de gueto; 2) a ortografia institucional atual (chamada de “oficial”), por sua parte, é uma espanholeirada devastadora que perpetua uma alienação cultural de séculos. Se tiver que escolher hoje uma estratégia seria a seguinte: a) Na linha da aprovação da ILP Paz Andrade, todas as instituições deveriam permitir a presença da ortografia histórica em todos os âmbitos e sem limitações para os diversos padrões nacionais e internacionais, à par da ortografia institucional e sempre que nenhum requisito legal o impedir; b) No âmbito cultural deveríamos promover em todos os espaços intelectuais, artísticos, jornalísticos, académicos, etc, o convívio de normas até a total erradicação na sociedade da ideia de conflito ortográfico. Não quer isto dizer que de uma perspectiva teórica especializada não devam continuar as argumentações pertinentes sobre a questão, mas digo que fazermos deste tema um motivo de confronto habitual não é socialmente recomendável, salvo para agonizarmos na frustração permanente. As grafias marcam efetivamente o futuro do galego (uma é um presente sem futuro, outra um futuro com limitado presente), mas uma vontade galeguista conciliadora tem de ser hoje o catalisador de uma nova fase que poda superar personalismos fossilizados do século XX. Aquelas pessoas que têm mais razão devem mostrar mais generosidade e vontade conciliadora, até porque a fortaleza do seu discurso oferece melhores alicerces. Neste sentido, a atitude da AGAL que conheço hoje é um exemplo de respeito, rigor intelectual e ânsia socializadora; infelizmente, as discussões insultantes nos média em favor do reintegracionismo ocultam os nossos melhores argumentos com o manto escuro da conflituosidade. Uma ética superior e a paciência de quem sabe que se alicerça na mais digna das lutas sociais é que são precisas. Gosto sempre de lembrar que a minha avó, monolíngue de Trás-Deça falecida há poucos anos, falando uma única língua usava o galego, o galego-português e o português ao mesmo tempo, embora nunca tivesse aprendido a escrevê-los.

Um outro epíteto do nosso sócio Alfredo é o de corunhês. Como se vive em galego e fazendo cultura numa cidade como a Corunha?

Morei perto de vinte anos na Corunha, cidade em que nasci, embora na atualidade tenha a morada em Arteijo, que afinal continua a ser a mesma área metropolitana. Nessa cidade encetei a minha atividade poética, iluminado por um farol que na negra noite paco-vazqueana significava um feixe de luz igualitário no cimo ambicionado da inspiração; deu-se aqui também o início da minha profissão como gestor cultural, paralelamente à memorável gestão política do BNG na cidade (a quem nunca pertenci por convicções anarquistas), partido tão rijamente doestado por nacionalistas que com certeza exigiram muito demais durante a etapa 2006-2009. Não pretendo saldar contas nem defender ninguém, mas tenho para mim que uma maior condescendência é urgente em certos casos, para não sermos injustos nomeadamente com quem menos longe está de nós. Devemos juntar a força das tribos galaicas para defender o comum, sem necessidade de mudar de bandeira nem de estabelecer novas obrigas para além dos compromissos individuais pré-existentes. A partir do próprio, do que já somos, devemos ajudar no que é de todas e todos, esse seria um tribalismo que semelha útil.

Alfredo é colaborador do Praza Pública onde um dos seus artigos mais comentados, ‘Medo ao reintegracionismo?’, recolhia a seguinte frase: “resulta evidente, queiramos ou non, que as estratexias de normalización lingüística dos últimos corenta anos non funcionaron como se agardaba, no que di respecto da recuperación de falantes”. Achas que é assim tão evidente, quer para os seus promotores, quer para os que receberam essa estratégia?

É capaz de não ser evidente para os promotores, mas só se não quigerem reconhecer os fatos provados. Ora, essa pouca vontade de reconhecer o fracasso da via castelhanófila tem a ver, quer-me parecer, com as dificuldades para assumirem uma certa coerência: muitos, académicos, escritoras e intelectuais por aí adiante não gostam da ideia, numa dada altura da sua vida, de começarem uma “alfabetização em português”, se calhar desde o orgulho de chefiarem departamentos e cátedras ou simplesmente por vaidade, preguiça ou quaisquer outras razões diversas do patriotismo e o heroísmo cultural que com facilidade se atribuem. Ficam cómodos com a galeguidade que conseguiram imprimir sobre uma espanholidade básica. Mas esta continua viva e implica um lastro espanholista que empece um compromisso fulcral com a cultura galega de ontem e de amanhã. Dizem defender o povo de um “ç”, mas são eles que só vem uma letra e um som estrangeiros e nunca um modo digno e não deturpado de grafar a sua língua e mesmo o seu sotaque.

Nesta época também não podo esquecer muito reintegracionista que acordou institucionalizar-se ortograficamente no início do século e que agora deve estar a duvidar de certas decisões; tenho muitas amigas e amigos neste setor, pessoas com grande coração e não menor altura intelectual que sem dúvida vão ajudar a superar, com amor e inteligência, as perspetivas caducas que acima referenciei.

Em que momento da tua vida descobriste que a língua galega não era o que te ensinavam na escola? Que sentiste?

Em primeiro, a minha reação foi negativa a respeito do reintegracionismo. Eu levava anos viajando com a família a Portugal e lendo naturalmente banda desenhada em português, quando o poeta Xavier Seoane (professor de literatura no meu liceu) escreveu no quadro “palavra”, e imediatamente me senti tocado por um lusismo que ofendia o galeguismo que eu defendia vigorosamente como neofalante. Foi depois na universidade quando conheci o exemplo, a coerência e o talento de companheiros como o Fernando Corredoira e o Carlos Parga, que abracei sem reservas a teoria reintegracionista. Nesses anos floresceu a estratégia de concórdia ortográfica de finais de 90, que não pude aderir; na altura a AGAL também parecia para mim ainda um bocado “isolacionista” nas suas soluções gráficas, polo que um grupo de pessoas da Corunha chegamos a fundar a Associação Galega de Escritores, criada para divulgar a obra de escritores naturalmente lusógrafos em território espanhol. O projeto não teve continuidade, até porque não soubemos fornecer a energia e a constância necessárias; na altura a AELG animava ativamente os lusistas a aderirem seu projeto abrangente.

Por onde achas que deve caminhar o reintegracionismo e o movimento normalizador em geral? Que novos caminhos se devem transitar? Que outros devem ser abandonados?

Sempre estivem na periferia do reintegracionismo organizado, como um outsider que não quis entrar no quarto do lusismo direito, e que mesmo gosta de entrar no quarto que existe em frente, como desfrutando de uma heterodoxia pertinaz que desafia umas e outras estratégias ortográficas. Não sou, portanto, alguém que deva atrever-se a criticar ou propor caminhos para um movimento tão bem fornecido teórica e mesmo academicamente. Mas se tiver que explicitar qualquer cousa, remeto para os argumentos acima referenciados, no sentido de criar uma atitude pessoal amável e generosa como característica essencial dos reintegracionistas, conscientes de que o fundamento da teoria é ancestral e universalmente positiva: o conhecimento de um mesmo e amor polo próprio são uma e a mesma cousa. O terrível é que o nosso povo tem convertido em tradicional, a causa de séculos de opressão nacionalista espanhola, o costume de desprezar a sua milenária cultura. E até ontem éramos um povo nomeadamente tradicional.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação?

Nos últimos tempos têm mudado as cousas no reintegracionismo, que percebo mais aberto desde que mostra uma maior naturalidade no seu projeto lusófono. Mas se quadra a mudança essencial se tenha dado na minha pessoa, provavelmente sendo eu próprio, por limitações inerentes, responsável de certos desencontros. Hoje vejo muita gente a trabalhar com perspetivas muito positivas, tanto na AGAL quanto em instituições próximas a esta, e se calhar eu também estou a sentir a positividade de certas atitudes minhas e alheias, uma sorte de harmonia que comecei a ouvir desde o íntimo. Associo-me, em definitivo, porque é a hora de trabalhar mais esforçadamente pola língua.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Um país que tem introduzido com naturalidade o português na secundária e em geral nos âmbitos intelectual e académico, facto que começa a revelar que podemos conter a espanholização da cultura e fai com que começamos a descobrir que escrever a nossa língua “à portuguesa” não obriga a mudar de sotaque, nem a prescindir de léxico, morfologia ou modismos nomeadamente galegos. Apenas uns pequenos passos muito significativos como estes, que começariam a transformar o nosso quadro de referências, seriam suficientes para já.

{Portal Galego da Língua, 3/10/2014}

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