Meninas que inspiram

«[..] Uma menina volta da praia, sob o crepúsculo, com a mãe. Chora por nada, porque queria ter continuado a brincar […]». Este trecho de Patrick Modiano, sem dúvida justificado no relato de que faz parte (Rue des Boutiques Obscures, Paris: Gallimard, 1986, p. 2491, via Confraria do vento), traz para a mesa que as crianças costumam chorar por nada cada vez que são privadas de brincar contra a sua vontade. E eu, por mais que penso, duvido se a salvaguarda dessa felicidade, se o desejo de continuar a ficar na excitação do jogo em que tempo e espaço se fundem e mesmo o latejar do nosso coração se sente uno com o dos outros, com tudo o que respira e até mesmo com a terra, o céu e o mar, é um rasgo de infantilismo que devemos quanto antes erradicar da nossa vida. Porque são momentos de comunhão com o mundo em sua múltipla variedade, momentos em que tudo funciona e mente e corpo vivem em total harmonia, por isso deveriam ser respeitados como transparentes fontes de sabedoria. A partir desta imagem inicial, é fácil lembrar todos aqueles de tempos pretéritos que desfrutavam imenso com a presença de crianças, como que ressaltando que o jeito destas enfrentarem o mundo, quer dizer com a máxima cordialidade no aqui e no agora, é um caso de conhecimento infuso ainda não apagado pela educação e a maturidade.

No mesmo sentido, quero agora descrever o caso de uma sobrinha nossa que se chama P. Sobre ela, a família habitualmente diz: “P mora no seu mundo”. E isto é porque responde agilmente e com sinceridade aquilo que nitidamente deseja, julga justo ou relaciona com a sua realidade imediata. Deste modo os adultos implicitamente reconhecemos não aceitarmos um modo de entender e relacionar-se com a realidade que não situa em primeiro termo as limitações comuns, as normas, as punições e as frustrações que habitualmente assumimos para um modo de proceder aceitável. Mas não constituirá isto um lastro excessivo que no processo de nos tornar adultos carregamos ao lombo e que depois exigimos todos acarretem ao igual que nós? Não nos impossibilitará isto, porventura, para nunca mais percebermos aquilo que o coração realmente sente e precisa? Assim, a felicidade sempre fica para trás de uma adversidade permanente: “Eu gostava, mas não posso…”

Os adultos não estamos no nosso mundo, também não, até porque estamos em um mundo alheio, a causa de um “sistema” que mantém o nosso coração exilado num gueto atroz, por sua vez rodeado de um paraíso improvado desde aquela venerada infância. Trabalhando esforçadamente para sermos “alguém”, não reconhecemos aquilo que somos e estamos destinados a ser.».

{Publicado em Praza Pública}

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