“Tanto delírio ao lombo”

TorreHércules4

Foto: Alfredo Ferreiro

Agradeço a Vivir na Coruña que tenham lembrado nestes dias um dos poemas que escrevi quando retornei à cidade em que nasci, e que tão bons momentos me permitiu viver sob os mantos da sua penetrante luz e da sua latejante névoa. Nunca esquecerei as muitas noites de poesia, cerveja irlandesa, vinho do Porto, música folque e brasileira num quase ininterrompido fascínio de candorosa amizade e fervente inspiração juvenil. Agora vêm estes amigos e me lembram tão gratos momentos… assim que muito muito obrigado.

Deixo nesta ocasião a versão gráfica original do poema, aquela que não vê a luz desde 1995:

 

Tanto delírio ao lombo

tem esta cidade:

caẽs que corren entre crianças,

velhos que acenam alegres

para facerem parte

de enrugadas fotografias.

 

Dá a cidade toda para uma praça

em que as crianças se concentram.

Caẽs vêm a correr pola avenida

que as crianças assustam

e secam as fontes de ruas noturnas.

 

Sob os farois de ruas e estradas

corpos perdidos passeiam

entre prédios distantes

com uma mão na cabeça

e a outra erguida na névoa portuária.

São velhos a tombarem mortos

ao meio de jardins românticos,

as cabeças a abalarem

como pedras caídas de carreta.

 

Chega a primavera

com um fato de grinaldas secas.

 

*De A cidade engrinaldada (Amigos de Azertyuiop, 1995), in A Coruña á luz das letras (Trifolium, 2008) e Versos fatídicos 1994-2010 (Edicións Positivas, 2011).

 

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