Exercícios bio-saudáveis

Exercicios biosaudaveis_AFerreiro

Fotografia de Alfredo Ferreiro (Outubro de 2014)

«Acarão da igreja românica de Breixa há um sarcófago de pedra. Pertence ao passado da aldeia como mais adiante a outras a ponte medieval da Carixa ou o pórtico do mosteiro de Carvoeiro. Foi achado numa leira que hoje alberga o campo da festa, onde os paisanos dançam, bebem, comem e cruzam na procissão portando a figura do apóstolo Santiago (outrora o santo local era Bartolomeu, de que ninguém sabe se emigrou e se maquina a vingança).

Da igreja chama a atenção o abside e os capitéis com motivos zodiacais. Mais isso acontece enquanto não tangem os sinos, que fazem com que toda a paróquia vibre como um grilo aprisionado numa gaiola de som. Do outro lado do campo da festa é o tele-clube, uma casa de convívio para as atividades dos aldeãos, um antigo prédio que hoje serve para jantarem e fazerem cursos onde outrora a gente nova olhava westerns em Technicolor.

De par desta casa, desde há uns anos existe uma fonte. Uma imensa pedra vertical com uma torneira de pulsar unida a um poço com bomba. É uma obra invasiva, estranha, inútil e falsa. Uma pedra forçada a ser fonte mediante uma oculta prótese de PVC. Mas hoje, este monumento ao injustificado foi acompanhado por um novo esperpento: à beira da fonte, a pleno sol no verão e sob a chuva toda do inverno, o governo municipal de Silheda mandou fixar três aparelhos chamados de bio-saudáveis. Trata-se de uma instalação desenhada para os idosos terem onde exercitarem os braços, e só cabe pensar que um dia sejam usados por extraterrestres. Quem pode imaginar que as mesmas labregas e labregos que podam a vinha, apanham as patacas e sacham a horta hão de precisar mais exercício para as extremidades que usam cada dia desde que se erguem até que se deitam? Tamanho despropósito só pode ser comparado com os agasalhos de pele usados e logo doados pelas burguesas europeias aos pretinhos pobres da África tropical.

Sim, a comparação nem é casual. Ninguém, desse Concelho governado por desarraigados, se preocupa com as verdadeiras necessidades dos aldeãos. Ninguém se preocupa porque os senhores nada devem aos seus vassalos. E estes nada protestam pela gestão privada e caprichosa do comum, até porque o comum é, na realidade, propriedade de privilegiados. Do mesmo modo que o que acontecia no Antigo Regime, como se esse sistema fosse o que realmente persiste sob a tona corruta da nossa democracia.

{Praza Pública}

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