Manifesto "O fim do Apartheid"

«Na casa em que nasci, citando Rosalia, dizem irmao e galega. Na tua, no entanto, dizem irmán e ghalegha. Uns falam de corisco e de barruçar, outros de pedraço e de poalhar. A tradição académica, sobre estas diferenças, construiu imensos catálogos, o grande edifício da dialetologia, com tantos praticantes. O furor em defesa da variedade é uma constante da filologia galega e um dos poucos legados etnográficos reconhecidos entre a população que, mesmo subestimando o seu património linguístico, surpreenderia a falantes doutras línguas com maior tradição normativa por valorar tanto as variantes. Diversidade é riqueza, parece ser o slogan. “Nós não falamos assim”, “não falamos como os da TVG”, “não falamos como os da costa, ou como os da chaira”.

Todo esse respeito pela variação desaparece assim que se fixa por escrito. Como se fosse impossível perceber um texto se não estivesse escrito como estudámos no Instituto, na época em que as pessoas se afizeram a introduzir os computadores nas suas vidas, a gerir os seus pagamentos pela internet, a socializar os seus afetos através das redes sociais, no imaginário coletivo isso que se chama o/a falante continua a ser visualizado como uma pessoa com escassa formação, que se assusta por um ç e deixa de ler um texto se não está grafado tal como aprendeu nas aulas. Referentes políticos e intelectuais apresentam como impossível repartir folhas informativas à saída da Citroën se não estão redigidas segundo a mesma tradição gráfica do espanhol, embora usem um léxico requintado, que conjunta sisudos conceitos políticos com uma seleta escolha de termos populares com sabor local. O professorado assegura as crianças não poderem ler Harry Potter em português, mas não vê assim tão problemático que esse mesmo alunado entenda um texto de Otero Pedraio que, até agora, ninguém leu sem dicionário à mão –ou á man.

Indo para o caso do espanhol, Juan Ramón Jiménez escrevia elejía e escelentísimo; Gabriel García Márquez propunha uma simplificação ortográfica sustentada em que ninguém confundiria revólver com revolver nem entenderia porque burro se escreve com b e vaca com v, visto que das duas letras levadas para a América pelos avós espanhóis, sempre sobra uma. Ambos escritores conseguiram o Prémio Nobel. Porém, na literatura galega não há de ter um Nobel nenhum dissidente. Isso está assegurado. Qualquer dissidente antes será emudecido, silenciado e colocado fora do sistema literário.

As editoras galegas profissionais não publicam fora da normativa em vigor, qualificada de oficial. Contra toda a lógica e contra os seus interesses – chegarem ao maior público possível ou, mesmo, visibilizarem movimentos diversos dentro do panorama cultural – condenam ao ostracismo a quem ousar optar pelo ç e pelo nh: constroem assim uma mitologia de letras malditas. Igualmente, os prémios literários excluem aqueles textos que não obedeçam fielmente os ditados da Academia. É possível concorrer com erros, gralhas ou espanholismos – esses podem corrigir-se num tratamento posterior do texto; o pecado é usar as letras malditas. Nas palestras cantam-se as literaturas de tradição oral, que nunca foram escritas, e um furor antiacadémico e democrático ocupa as aulas um instante; furor que se esvaece no momento em que alguém usa um nh. A liberdade é para os indígenas doutras tribos; nesta tudo fica sob controlo. Nos júris literários utiliza-se o critério do “bem escrito” num sentido escolar, isto é, como acompassado a uma normativa ortográfica, não no sentido de criativamente evocador. Valora-se, antes de mais, conformar-se, obedecer. Com efeito, quem escreve noutra tradição gráfica não está a cometer uma gralha; simplesmente adequa-se a um padrão diferente mas, curiosamente, as autoridades perdoariam o erro, o despiste ou a ignorância; o que não perdoam é que se explique a história da língua doutra maneira, mesmo se essa outra maneira é apenas um bocado diferente. Dizer que os reis da Castela medieval escreviam poemas em galego-português está bem. Dizer que hoje escrevemos poemas em galego-português está mal. Hoje o galego-português já não existe. Hoje até nem é patriótico: vivam os estados e as suas fronteiras mas sejamos apolíticos ao transmitirmos linguística! Pode-se dizer ghallegho e corisco; não se pode dizer nem faço ideia disso, mas non me dou de conta.

Rosa Parks BusSer preto é não poder subir ao autocarro dos brancos. Seguramente é também estar condenado a um estilo de vida, a uma economia, a uma peculiar maneira de habitar a existência que os não-pretos desenharam previamente e no seu benefício. Mas deixemos a instantânea lá: no momento em que Rosa Parks, esgotada, não pode ocupar a cadeira livre no autocarro pela sua cor de pele. Importa é esse relato minúsculo, onde se agiganta o ridículo da discriminação. Ser reintegracionista é hoje na Galiza não poder subir ao autocarro da literatura galega. Seguramente implica mais causas, algumas delas esgrimidas com orgulho pelo movimento do NH: ter uma conceção determinada da língua e das suas possibilidades, ter um posicionamento político, demonstrar um tipo de rebeldia. Mas também é não poder ocupar o assento reservado a outrem.

Dizem que o pessoal não nos lê porque não nos entende. Mas sim entende Otero Pedraio ou Méndez Ferrín, excelentes escritores com elencos léxicos imensos. Os hispanofalantes encontram em El amor en los tiempos del cólera uma frase de Fermina Daza: “Más es la bulla”. Poderia-se desafiar o professorado de literatura espanhola a explicar amanhã à sua turma o que significa essa frase. Em caso de não poderem, deveriam concluir que a mensagem literária não deixa de circular quando a língua propõe dificuldades; ao contrário, a literatura serve para estender a língua, para a expandir até ao infinito. Não é um problema de inteligibilidade. É, com efeito, um problema político, relativo aos limites da nação e ao seu relacionamento com o estado. Mas, sobretudo, está a ser, cá e agora, um problema ético.

O reintegracionismo desafia. A partir desse desafio instalou-se uma lógica de guerra. O inimigo de guerra não pertence à nossa tribo e, portanto, podemos fazer o que quisermos com o seu corpo: mutilá-lo, vexá-lo, bater nele, sacrificá-lo ou arrancar-lhe o coração e atirá-lo ao lume. Mas, quando se instaura uma lógica sustentada na ética, as pessoas empatizam com o inimigo de guerra e não consentem com a sua humilhação. Em vez de massacrarem os inimigos duma guerra de grafias que está a enfrentar os defensores duma mesma língua ameaçada – não se esqueça esse dado –, as pessoas que, no seu legítimo direito, decidiram escrever em ILGA, deveriam solicitar uma cessação de hostilidades. Por ética.

Uma pedagoga norte-americana, Jane Elliot, concebeu um experimento contra a segregação racial em 1968, quando o discurso herdado de Martin Luther King tentava combater o ódio e instaurar os direitos civis. Dividiu uma turma de primária segundo um critério algo esquisito: a cor de olhos. Convenceu as crianças de que ter olhos azuis era sinónimo de inteligência e bondade, e ter olhos castanhos de apatia e atraso académico. Passados uns dias, repetiu o experimento a mudar os valores associados a cada cor de olhos. O curioso é que, em cada caso, as crianças assumiam até ao final a dramatização: se a professora afirmar que ter uma determinada cor de olhos faz com que alguém se comporte de inepto, esse alguém comporta-se como um inepto. São profecias auto-cumpridas. Se nesta sociedade os reintegracionistas são punidos, se se insiste em que somos as margens, é provável que acabemos por nos comportar como margens, de maneira que a sociedade inteira perderá a energia em defesa da língua que o reintegracionismo pode achegar numa época de feroz assédio ao galego. Os e as reintegracionistas somos estigmatizados como minoria (por acaso não é todo o galego minoritário cá e agora?), como lusófilos (por acaso seria melhor ser hispanófilo ou anglófilo?), como sectários (por acaso não somos parte dum movimento em favor da abertura?). Mas os e as reintegracionistas estamos a sofrer discriminação e isso é algo que os não reintegracionistas – tantas pessoas que usam a língua galega sem serem parte das suas elites e, portanto, sem capacidade de decidirem nada nesta guerra – não podem nem devem consentir.

Quem escreve hoje em galego, segundo uma tradição normativa diferente da preconizada pelas instituições – não vamos argumentar sobre se é mais antiga, mais potente ou filologicamente melhor fundamentada; não agora – simplesmente não pode concorrer a prémios, não recebe a atenção da crítica, não sai na foto. Quem escreve hoje em galego reintegracionista não existe. Este apagamento é injusto. É um castigo desproporcionado – qual foi a falta? Juan Ramón Jiménez, na Espanha franquista, escreveu intelijencia e obteve um Nobel. Gabriel García Márquez propus assinar um tratado de limites entre g e j e obteve um Nobel. Ricardo Darín exclama no ecrã: Sós un boludo… E todos os espanhóis, que não falam assim, percebem… e não se atrevem a dizer que isso não é espanhol.

O reintegracionismo jogou o seu papel nas margens mas não pode continuar lá. Os de olhos castanhos somos diferentes dos de olhos azuis. Como os homossexuais. Como as minorias étnicas. Como as mulheres. Como todos os inimigos de todas as guerras. O reintegracionismo faz parte da cultura em língua galega. E nesta altura está a reclamar que alguém dê um passo para a frente. As grandes editoras (Xerais e Galaxia à cabeça), os movimentos sociais em defesa da língua (Queremos galego, a Mesa pola Normalización Lingüística), as associações que zelam por uma cultura ameaçada (as de escritor@s, de editor@s, de livreir@s) devem dar-nos entrada. Urgentemente. Para a Rosa Parks ocupar a cadeira vazia, a da vergonha.»

Para assinar o manifesto clicar aqui.

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