Apresentação de Caudal de relâmpagos, de Amadeu Baptista

Foi um prazer acudir à apresentação da nova obra do amigo Amadeu Baptista, uma seleção pessoal de poemas com base nos seus mais de trinta e cinco anos de trabalho poético. Mais um manual imprescindível para os amantes da boa poesia aquém e além do Minho, e sem dúvida um dos favoritos desde já na minha biblioteca.

Foi no ano 1994 que conheci o Amadeu Baptista no Festival da Poesia no Condado de Salva-Terra do Minho, quando ele aceitou o convite para vir recitar a terras galegas e eu acudi para acompanhar os amigos com quem vinha de celebrar na Corunha com um outro recital o aniversário da Revolução dos Cravos: António Cândido Franco, Francisco Soares, Avelino de Sousa, o falecido José Manuel Capêlo e os companheiros do Coletivo Poético Hedral. Desde aquele encontro a amizade prendeu e logo a viemos amarrar fortemente com cartas (aquelas folhinhas —lembram?— que introduzíamos em envelopes que logo eram decorados com selos ensalivados) e afinal coroámos com uma visita fundacional a Vila Nova de Gaia.

Muitos anos passaram, é certo, mas o caminho percorrido na companhia do amigo é, ademais de uma honra, o alimento do presente e do futuro (cfr. notícias de A. B. n’ OLdM). Porque se ter bons amigos fala bem de nós, muito melhor fala o facto de serem alguns deles autores da melhor poesia que desde há tempo se publica.

O vídeo que aqui oferecemos é resumo do evento que organizou, com eficácia e primor, a editorial Edições Esgotadas na sua nova sede no Porto, e que realizámos com sua permissão:

Paralelamente, aproveitamos para fazer referência também ao vídeo realizado pela própria editorial, em que a causa da nossa vaidade tanto gostamos de figurar.

{Palavra Comum}

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Um pouco acima da miséria, de Amadeu Baptista

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Amadeu Baptista vence XXIX Premio de Poesia Cidade de Ourense

Conheço desde há muito o Amadeu Baptista. É, com certeza, um dos melhores poetas vivos de Portugal, afirmação que digo com toda a contundência. Melhor sem dúvida que uma miríade de nomes pertencentes à esfera universitária, tão dada à divulgação de obras pelas palestras académicas, os meios e os congressos oficiais. Amadeu Baptista é, ao contrário, um outsider, e isso paga o preço de não contar com uma vasta família de padrinhos institucionais. Porém, o poeta produz, produz sem pausa e as águas do rio da inspiração inundam o território de todos, como quando o Nilo experimenta uma irreprimível enchente e assim acontece a fertilização dos campos. Entrei no seu blogue e apanhei um poema do livro que haverá de publicar-se sob o título Um pouco acima da miséria, com responsabilidade do Concelho de Ourense. Parabéns ao poeta e aos seus leitores galegos!

MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante? […] Ler mais

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O blogue do poeta Amadeu Baptista

O noso amigo e luminoso poeta Amadeu Baptista decidiu finalmente abrir a súa páxina persoal. Un novo espazo para petiscar algunha da mellor mao para a poesía de Portugal.

(fragmento)
E é então que a saudade se expande como palavra portuguesa
e eu volto à infância, enquanto tu, Dempster das Irlandas que não há,
revives e oficias o K3 dessa Guiné repulsiva para que o fascismo te mandou,
como se houvesse uma nova crónica do descobrimento e conquista da Guiné a ampliar
a que o Zurara escreveu, e nada se cria ou se perde, e tudo se transforma,
como a antiga lei nos disse, e de versos se inça o exílio que jamais projectamos
e, sem mais, o acaso da vida, pelo seu ábaco infeliz, nos ordenou –
e sabemos que os poemas sujam tudo,
tal como os pombos, as pombas, os ratos, os pais que nos traíram,
e todos os que traíam as infâncias que, como as nossas,
foram vividas a golpes de marcas nos costados pela sovas iníquas
que nos deram

Falemos de exemplares vivos e pios de aves,
o centro da cidade é uma loja chinesa na ordem geral do mundo,
nós estamos a viver algures entre a rua Formosa e a rua da Paz
e o dia de hoje, claro como há muitos dias não havia, enche-se de sombras,
e eis que acabam de bater as doze e quarenta e cinco e morre, em Lanzarote,
José Saramago, tão pombo como nós na refrega das coisas que nos escapam
entre os dedos como se não fossem mais que jangadas de pedra onde nenhum
ente divino se senta à nossa mesa por um café – falemos
da inexprimível solidão dos poetas, esse luto

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas,
vemo-nos como homens calados que não podem estar calados,
ou que estão cegos e não podem estar cegos,
ou que não podem deixar de deambular na cidade,
porque há uma pedra a levantar do chão,
um povo a levantar,
uma infância a levantar

É, foi na infância que o descontrolo se arrostou,
aquele odor a sal e a vinagre palpita ainda no meu cérebro,
ligamo-nos assim à terra, a olhar o interior das mercearias,
dos pomares,
a surpreender a alegria que se faz pela interposição do silêncio
com as palavras vitais, o rego de sangue que se abriu
na via do caramanchão quando ficou determinado o lugar das alucinações
e se abriu a porta para um determinado ponto da cidade,
esse mesmo onde caímos pela primeira vez

O que lá está é nosso e não nos pertence nunca, o olhar
deslumbra-se por esses cavalos, essa estátua, esses pombos,
provera a Deus e seríamos meninos para sempre com essa brisa no rosto,
os barcos estão cheios de carvão, discorrem sobre eles as mulheres
que pelas tábuas passam e carregam à cabeça largos cestos de vime,
e é como se fossem podoas a escandir o ar, como se fossem
a nossa misericórdia irremissível

(in O Ano da Morte de José Saramago, Lisboa, & Etc, 2010)

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'Os selos da Lituânia', de Amadeu Baptista

escrever pode ser, naturalmente, ter três anos,
estar na praia num dia muito quente
e sentir que alguém nos apanha pela cintura
e mergulha nas ondas violentas
de um mar revolto, ven num relance
a multidão em volta, toucas amarelas,
biquínis coloridos e o homem da bolacha
americana, de boné enfeitado com uma âncora,
a percorrer o areal em toda a extensão
que vai do paredão à casa do banheiro.
vir num soluço à tona da água e voltar
a submergir com um grito preso na garganta
para ver do mar o fundo, aquelas algas
ameaçadoras num bailado aquoso
que as lágrimas ainda mais adensam […].

Este libro, merecente do Prémio Edmundo Bettencurt (ex aequo), ofrécenos máis do alto nível de inspiración de Baptista á hora de traer para a mesa a memoria da infancia e con ela transcender o tempo e atinxir o universal. Pequenos acontecementos e grandes lembranzas do pasado surxen nun verso de marcado e alegre ritmo, e poboando unha sintaxe lúbrica que converte imaxes elaboradas en bocados deliciosamente accesíbeis. Poesía que transforma a nosa particular mundanidade, coas súas vitorias e traumas, en artísticos frascos con perfumes inesquecíbeis.

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E de novo Amadeu Baptista! Agora o Prémio de Poesia João Lúcio

Amadeu BaptistaSe hai poucos días escribía que o amigo Amadeu Baptista gañaba máis un premio de poesía, a sumar outros varios tamén recentes (entre eles o Espiral Maior), agora de novo teño que botar peito fóra polo amigo e informar da consecución dun novo galardón. Será inevitábel en data próxima o Grande Prémio de Poesia da APE – Associação Portuguesa de Escritores? E de seguir así, cando todos os que lle restan, incluído o Camões? Vexamos o seu particular rosario da galardóns:

1985: Prémio José Silvério de Andrade – Foz Côa Cultural; 1993: Prémio Pedro Mir – Revista Plural, na categoria de Língua Portuguesa, México; 2000: Prémio de Poesia e Ficção de Almada; 2004: Prémio Vítor Matos e Sá e Prémio Teixeira de Pascoaes; 2007: Prémio Literário Florbela Espanca, Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire; 2008: Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, Prémio Literário Edmundo Bettencourt – Cidade do Funchal, Prémio Espiral Maior (Galiza/Espanha), Prémio Literário Oliva Guerra / Sintra, Prémio de Poesia João Lúcio. […] Ler mais

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Mais um prémio de poesia para Amadeu Baptista

Amadeu Baptista

O nosso querido amigo Amadeu Baptista, que vinha e de lançar em setembro três novos livros (O Bosque Cintilante, Sobre as Imagens e Poemas de Caravaggio), e que recentemente fora galardoado com o Prémio Literário Edmundo Bettencourt – Cidade do Funchal, pelo original Os Selos da Lituânia e o Prémio Espiral Maior (Galiza/Espanha), pelo original Açougue, venceu agora o Prémio Literário Oliva Guerra– Sintra 2008 com Doze Cantos do Mundo. A distinção mereceu a unanimidade do júri, que analisou 83 originais concorrentes. O júri integrou os escritores Liberto Cruz, em representação da Associação Portuguesa de Críticos Literários, José Correia Tavares, em representação da Associação Portuguesa de Escritores e Ricardo António Alves, em representação da Câmara Municipal de Sintra.
O Prémio Literário Oliva Guerra é anualmente patrocinado pela Câmara Municipal de Sintra e consiste, além da publicação em livro da obra vencedora, no montante de 5.000 euros. A entrega do prémio ocorrerá em data a anunciar pela autarquia de Sintra.

PAINEL PARA ROSALÍA DE CASTRO

É um frio tremendo.
A água gela nas torneiras, a solidão
cresce com uma unha, uma sombra
atrai todas as camisas de silêncio, arde, é uma noite
encerrando os perigos da perdição, os ferros agudíssimos
do silêncio.

É um frio tremendo.
Perde-se o caminho de casa, a luz extingue-se,
pergunta-se pelo sangue e o sangue não responde, o sangue
perde-se aos borbotões na vida, não há caminho, não há
regresso, a sereia canta
no denso nevoeiro, mas não há esperança, a tempestade
é o único lugar, o único lençol, a voz velocíssima
entregando-nos sem rendição, entregando-nos.

Como uma agulha fecha-nos os lábios, ata-nos
as mãos, como uma agulha de silêncio, feroz, terrível,
cose-nos
contra as paredes e os olhos saltam, saltam, é um frio tremendo
onde tudo arde,
arde antiquíssimo, flecha no coração, solidão
descendo o braço, descendo devagar, espraiando-se
na terrível superfície do silêncio.

Amadeu Baptista

De Rosalírica – Homenaxe de 27 Poetas Portugueses a Rosalía de Castro (1985)

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Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica para Amadeu Baptista

«Amadeu Baptista é o vencedor da edição portuguesa do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica. O Prémio foi instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e pelo Ayuntamiento de Punta Umbria, contando com a colaboração de «Sulscrito – Círculo Literário do Algarve». Um júri constituído por José Mário Silva, António Carlos Cortez e Fernando Esteves Pinto, decidiu por unanimidade atribuir o prémio à obra intitulada «Sobre as Imagens», da autoria de Amadeu Baptista, de entre um conjunto de 138 originais apresentados a concurso.

«Sobre as Imagens» é constituído por um ciclo de catorze poemas, tendo por referência os 14 painéis provenientes do antigo retábulo da capela-mor da Sé de Viseu, agora expostos no Museu de Grão Vasco, nessa mesma cidade de Viseu.» (Vía Porosidade etérea)

O noso amigo, que en pouco máis de seis meses gañou catro premios literarios, concedeu unha substanciosa entrevista ao Bibliotecario de Babel.

A. F.

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