Encontro Literario na livraria Carvalhido Cartaz

Share
Alfredo Ferreiro, Breves, Colaborações:, Pedro Casteleiro, Poesia

Encontro literário e não só

Imagem
Alfredo Ferreiro, Breves, Colaborações:, Pedro Casteleiro

O ato poético

O ato poético puro é somente a sombra de um processo mental, total na sua essência e livre na sua conceição. Mas tal ato não deixa de ser uma imagem própria, uma criação com sentido autônomo, como acontece com as “sombras chinesas”.

Alfredo Ferreiro e Pedro Casteleiro (Acrunha, 16 de janeiro de 1994).

{Grupo Surrealista Galego}

Share
Standard
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Críticas e referências, Pedro Casteleiro, Poesia, Vídeos

A propósito de Sefer Sefarad

Pedro CasteleiroEscrever sobre este livro ou sobre um autor como Pedro Casteleiro, que palpita e sente muito antes do que pensa e descreve, só pode ser qualificado de ousadia poética. Lembro quando o conheci, de chapéu e agasalho comprido e entre todos os viageiros destacado como um Fernando Pessoa de um qualquer país afastado de si próprio, um país que sonha e semeia um tapete de poemas que poder pisar no dia da redenção vindoura. E ele de chapéu e de agasalho ali sentado, logo a olhar para mim e para o meu chapéu e o meu agasalho grisalho, como arribando exatamente ao mesmo país afastado que ambos os dois desejávamos enlouquecer. Duas Pessoas equivalentes iniciando a viagem da capital do mesmo descontento para toda a esperança de um Fernando, de chapéus e agasalhos e canetas prontas para ser disparadas num ulterior enfrentamento com a razão, aquela que prende e sujeita as mãos do coração contra as costas de um monstro medonho.

Sefer Sefarad, de Pedro CasteleiroMais de vinte anos têm passado desde aquele dia no Castromil de Santiago à Corunha, mais chapéus, mais agasalhos e o doce licor da amizade por entre os mil rios da cidade cúmplice do nosso anseio secreto, do nosso anseio repetido como uma litania a lume gravada entre os versos de pedra que, na irmandade do ofício, nos é dado lavrar. Hoje escrevo porque ele fez amor e fez poemas e deu a lume um livro, e o livro é menina e foi a toda a comunidade exposto para público conhecimento, e agora existe e a gente sabe, e já pode ser ignorado. Porque o triste fado deste país afastado de si próprio é ignorar aquilo que é mais prezado, por nunca ser compreendido ou por nunca no alto cimo do convencional ser desejado (isto sempre se cumpre aqui ao menos por setenta anos).

Mas não nos importemos com isso, pois é a hora de celebrar uma miríade de elevados versos e profundos sentimentos, com “meia-lua do silêncio crepitando na garganta”, na “nossa incontestável ambição para as sombras”. Ó amiga e atrevida leitora, “deixa a barca deixa a esteira luminosa cumprir a sua secreta migração” e observa as “estalactites que o coração estagna na habitação do alento” e a “velha amante amanhecida no meu peito”; porque “quando é que chamas, à noite, negro afluente de que me transborda a voz?”, quando é que bailais, “prisioneiras do nada”, quando perfumais “com ópio os velhos túneis da palavra”?; dizei-me onde é o “acampamento dos meus braços perenes” e “como voar e cantar e crescer altos e definitivos sobre o lume”, pois já o “diamante que espera na turbulenta biosfera” é “uma única voz pelas destilarias do nada”.

Agora vistes, amigos, como já nem sei falar sem plagiar o escrito, até porque a sua força me invade e gostava que conquistasse o mundo, em feliz andaço a fertilizar montes e prados até o plácido entardecer dos fungos. Mas os tempos são convulsos e estes poemas, sendo poderosos, não têm o poder que só alguns querem ver. Porque estes versos nasceram com o vigor de uma pura e sagrada matéria e por isso se fazem invisíveis enquanto tocam, sem se aperceberem os mais lestos, uma música celestial tão só dedicada aos doidos. Sim senhores, a vida é dura para os que seguram dinheiro onde deve florescer o amor, e por isto eles não vão sentir a graça. Olharão para o lado e passarão à beira de uma vibração para eles imperceptível, um epicentro que em Sefer Sefarad está a ter lugar como uma maré que sem cessar caminha. Algo do que nos teremos que desde hoje orgulhar, recetores privilegiados, porque sendo obra de um único homem é para muitos que foi cultivada, porque vindo de umas mãos que morrem o seu fruto se ergue perante o sol e sobre pradarias do tempo.

{Palavra comum}

Share
Standard
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, José António Lozano, Pedro Casteleiro, Poesia, Ramiro Torres

Herberto Helder, in memoriam

Ontem soubemos que um dos vultos da poesia europeia contemporânea, o poeta português Herberto Helder, iniciou o caminho de retorno. Se calhar ele nunca chegou a saber até que ponto foi o grande referente da poesia moderna para alguns de nós, neste pequeno país chamado Galiza que, sendo o berço certo da lusofonia, esquece cada dia a sua cultura enquanto sorve desesperado as essências da poesia. Somos assim, contraditórios até ao paroxismo, e isso talvez é que nos faz humanos e divinos, efémeros e eternos.

Obscuro e luminoso ao tempo, Helder foi um exemplo de compromisso com o trabalho interior que a poesia impõe, e que pouco tem a ver com a literatura, esse objeto mercantilizado que coisifica a espiritualidade da arte, mede o esforço, calcula os ganhos e contabiliza os aplausos: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós […]». Por isso nós hoje queremos escrever tão só umas breves linhas de homenagem, breves, seguindo a recomendação do mestre, porque é que a nós, mais do que a ele, dirão respeito. Continue reading

Share
Standard
Alfredo Ferreiro, Pedro Casteleiro, Poesia, Surrealismo, Tati Mancebo

Cadáver exquisito

Poeta e mundo, de Tono Galán1. Os carlistas imberbes do nabo placidamente cintilam a menina que tirou as calças nos úberes das vacas.

2. Restar pedras ao ar −que não quer os encontros cafeteiros− reverbera intermitentemente o urso pardo da lua entre os papeis da mentira.

3. A razão do mais louco, cujos espaços são curtos, re-mata as casas como as ramas da sem-razão.

4. A luz da gadanha −a que tem o cabelo vaga-lumento− trespassa copos e colheres como o esperma das cariátides.

5. A magia, a do jérsei verde, recua lentamente as maçãs de prata cantando aleluias com a navalha no colo.

6. Platão, o do lentor baleiro, suspira um relógio roto na música celestial das marés.

7. Como as levitações dos olhares de perfil, a orgia dos dentes arrecende misteriosamente com as correntes janeirentas cada pergunta.

8. Num puxar incessante de cordas, uma mulher de pernas longuíssimas como chaminés arrisca até o limite sem limites -com as forças de cor peixe verde- umas poucas vitórias azuis.

9. Com luzes de amanhecer, rameiras da lua abafada da noite −e o nojento limão− excretam sem limites.

10. Entre as corcovas dos camelos o mármore brilha covardemente. No vão, a traição.

No Torques, em 8 de outubro (6ª) de 1993, assinamos este deca-texto:
Pedro Casteleiro
Luís Maçãs
Dulce Fernández
Táti Mancebo
Alfredo Ferreiro

Share
Standard
Alfredo Ferreiro, Fotografia, François Davó, José António Lozano, Pedro Casteleiro, Poesia, Tati Mancebo, Vídeos

O Grupo poético Hedral reencontrouse n’ Á lus do candil

Grupo poético Hedral na libraría Á lus do candil, de Arteixo (7/12/2012)Levaba un tempo camiñando por esta terra, traballando neste país, criando os fillos como xeracións sen termo fixeron antes ca min e, subitamente, reencontreime con aquel eu mesmo que tiña vinte e cinco anos e profesaba a súa fe na poesía, na vangarda, no anarquismo, no lusismo… Os compañeiros daquela guerra en que loitabamos pola modernidade que nos tocaba construír, contra unha incercia cultural que nos parecía pouco seria, pouco sincera, pouco valente, pouco intelectual, pouco tradicional, pouco profunda e, en denitiva, pouco atractiva e deliberadamente pouco fértil, reuníronse de novo. Percibín como o tempo pasou e, aínda que tolerei os erros doutrora como un avó perdoa e xustifica amorosamente as crianzas, gustei de recoñecer os acertos que da intuición xuvenil chegaron a ser alicerces dunha filosofía que acredita no valor do amor e da arte, que acredita nun país tan forte e tan rico que prefere, máis intelixentemente do que algúns pensamos, aparentar que se deixa levar pola maré, como sen vontade, cando o que desexa é nunca camiñar polo carreiro que lle marcan desde afastados despachos.

Vinte anos pasaron, de guerra íntima e de loita social e, vendo de novo recitar os compañeiros do grupo, revelóuseme que a verdade está noutra parte que nos números do día das eleccións, os números da oficina de desemprego, os números da economía estatal, os números do documento de identidade… A poesía apareceu aquel venres n’ Á lus do candil e a luz fíxose palabra á vez que os números caían derretidos no chao. Os números do latrocinio, cifras dunha falsidade roubada, perante a verdade iluminada da poesía.

Todos os días preciso de ler as noticias políticas e económicas, e todos os días me digo que ler isto é unha tentación malévola que o sistema me ofrece para me contaminar, para que pense que podo mudar algo nesta falsa democracia en que o que o pobo di a ninguén importa, en que o pobo é quen menos ordena.

E cada vez que sucumbo, vexo como o meu corazón se torna escuro, a miña vontade amolece e o desánimo crece en proporción inversa á miña vontade de actuar.

Por iso agora quero dicir que renego íntima e publicamente desa realidade falsa que nos describen a maioría dos medios. Eu non recoñezo máis autoridade que a de quen é autor (cf. Mário Cesariny), e os autores que máis me interesan son os meus amigos, os meus familiares, os meus veciños, as miñas compatriotas, os meus artesaos, as miñas labregas, os meus mariñeiros, os meus xornalistas, as meus profesoras, os meus taxistas, as miñas dentistas, os meus artistas, as miñas escritoras, os meus libreiros… porque día a día son autores da miña vida. Non desexo prestar máis atención ao canto das sereas dun mar que nunca hei de navegar. Eu son de aquí, convosco moro e para vós escribo. E acarón de vós hei de morrer.

Nota: na foto de acima, que me manda Ramiro Torres, figuran (de esquerda e en pé): Alfredo Ferreiro, Luís Maçãs, José António Lozano, François Davo, Pedro Casteleiro, Tati Mancebo, Mário Herrero e Dulce Fernández. O vídeo é de Tati Mancebo.

Share
Standard
Alfredo Ferreiro, Críticas e referências, François Davó, José António Lozano, Narrativa, Pedro Casteleiro, Poesia, Tati Mancebo

Un grupo ‘shandy’ galego?

Esta obra case lendaria de Enrique Vila-Matas pareceume un deses licores que sempre desexo ter perto, para aqueles momentos baixos en que é preciso reencontrarse co saber intenso da boa literatura. Trátase dunha noveliña que se apoia no aspecto formal no ensaio e argumentalmente constitúe unha sorte de investigación sobre un colectivo de acción artística. Con certo tinte surrealista, a obra refire actuacións e encontros de reputados protagonistas como Duchamp, Scott Fitzerald, Walter Benjamin, César Vallejo, Rita Malú, Valery Larbaud, García Lorca, Pola Negri, Berta Bocado, Alberto Savinio e Georgia O’Keefe, todos estes ben mexidos e maxistralmente temperados cunha lingua literaria saborosamente destilada. Constituída a sociedade secreta, para facer parte dela había dous requisitos imprescindíbeis: a obra do artista debía ser portátil; a outra era que este debía funcionar como unha auténtica máquina solteira. Aínda que non imprescindíbel, era recomendábel posuír certos rasgos especificamente shandys: sexualidade extrema, espírito innovador, ausencia de grandes propósitos, insolencia, convivencia tensa con o duplo, simpatía pola negritude e nomadismo infatigábel.
7poetas_capa_600Porén, a lectura desta obra tróuxome á memoria o que sen sabelo puido ser un incipiente grupo shandy galego, alá polos 90, apenas cinco ou dez anos despois da primeira publicación da História Abreviada da Literatura Portátil (Porto: Campo das Letras, 2006). Éramos sete poetas: José António Lozano, Pedro Casteleiro, Mário Herrero, Tati Mancebo, François Davo, Luís Maçãs e quen isto agora lembra; contábamos ademais co apoio inestimábel de Dulce Fernández e con o albergue inigualábel da Agrupaçom Cultural O Facho. A nosa creatividade frenética durante as noites de case unha decena de anos pola Coruña adiante deu como fruto visíbel un libro denominado 7 poetas. Na capa podía verse unha foto en negativo da Torre de Hércules, facto que para min sempre singnificou a “reapropiación lexítima do símbolo herculino”, furtada, como toda a cidade, á cultura galega polo alcalde Francisco Vázquez.
7poetas_recitalPois ben, editamos o libro no cuarto da miña casa e imprimimos tan só 200 exemplares, 150 dos cais foron enviados a institucións e persoas relevantes. Despois de varios meses, poucas persoas nos tiñan acusado recebemento: Biblioteca González Garcés da Coruña, Biblioteca Municipal de Narón, Luciano Rodríguez, Xosé María Monterroso, Xosé Lois García, Cesáreo Sánchez, Francisco Fernández del Riego, Kathleen March, Vergílio Alberto Vieira, Miguel Anxo Fernán Vello e, das terras interiores da Goiânia, o brasileiro Gabriel Nascente, de quen recibimos unha fermosa nota de xornal que aquí por primeira vez reproducimos.
Lembro que na altura eramos ben conscientes da nosa singular posición político-cultural, que sempre poñiamos atrás das maiores ambicións poéticas, as cales tiñan evidentemente moito máis a ver cun gnosticismo fortemente intuído do que co pacato éxito editorial. Neste cadro, a ninguén pode sorprender de que modo intestino celebramos a publicación da obra: en lugar de organizar unha presentación pública decidimos reunirnos nós mesmos nun lugar afastado á beira dun río e comer e beber xuntos á saúde dos lectores do noso libro, naquel momento ignorantes da báquica homenaxe que lle estabamos a dedicar.
7poetas_gabrielnascente2-1024x468Por esta actitudes e por outras consideracións que paso a refenciar eramos, sen sabelo, unha sorte de clube shandy, a saber: a) a obra do poeta debía ser invisíbel, e para iso nada mellor que escribir o galego con grafía portuguesa, que aínda que histórica, filolóxica e romántica é a máis desprezada polo poder neste país, e por tanto inoperante no permanentemente incipiente mercado literario galego; b) o poeta debía funcionar como unha máquina solteira, o que sin excepción se concretizaba en que política e poeticamente non nos casabamos con ninguén, e implicaba, por outra parte, que non contásemos con padriños. Nunha ocasión en que estes si quixeron aparecer, o seu apoio viña condicionado a que expulsaramos do libro colectivo o François Davo, para dar lugar a unha obra coruñesa sen contaminacións exóticas. No entanto, se o François non estaba no grupo para atribuírmonos un marcado carácter internacional, interesante se quixésemos vender unha marca, tampouco había de restar coruñesismo ao proxecto. A poesía estaba por riba de todo, como unha ponte que salva o superfluo e une o esencial.
7poetas_conviteA maiores destas características, outras nos marcaban en diversa medida: espiritualidade extrema, afán innovador, ausencia de grandes propósitos editoriais, anarquismo, creación en grupo, simpatía pola lusofonía e nocturnidade infatigábel. Por todos estes motivos, e aínda por outros que esquecín ou non me atrevín a lembrar, puidemos ter promovido, sen sabelo, unha secreta conspiración literaria, o que se cadra nos haberá de inspirar para o resto das nosas vidas.

Share
Standard