Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Fotografia, Poesia

“Peles especuladas”

Fotografia de Paula Gómez del Valle

Autora: Paula Gómez de Valle

 

Peles especuladas

Existe uma densidade na pele do mundo
que me aterra,
uma memória cicatrizada nos gritos
de bichos diminutos
e no silêncio do húmus
ultrajado mas sempre fecundo.
Por toda a terra o nosso umbigo aparece
em cada furo de grilo
e o nosso mamilo floresce
no cimo de um monte coroado pelo sol.
Pode a humanidade
ser rastejada na terra
como pode a epiderme do mundo
oferecer-nos uma sombra entre rugas
para o descanso do ser.

*

Nota: Poema tirado da anotação de Palavra Comum em que partilha espaço com outro poema de Ramiro Torres também inspirado na fotografia de Paula Gómez Del Valle.

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Críticas e referências, Poesia, Ramiro Torres, Tati Mancebo

Na esteira de Sefer Sefarad, de Pedro Casteleiro

Sefer Sefarad, livro de Pedro CasteleiroNa apresentação de Sefer Sefarad, de Pedro Casteleiro, os poetas Alfredo Ferreiro, Táti Mancebo e Ramiro Torres leram textos próprios inspirados num poema do livro apresentado. O ponto de partida foram o verso “Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes”, pertencente ao poema «A casa vazia». Ei os poemas recitados pelos amigos do autor:

Traição a Pedro Casteleiro

Nossa casa cheia de vozes
enterradas nas paredes.
Nossa casa de torrões,
de minhocas e verdades
perseguidas por toupeiras
cegadas pola razão
de seus dentes e suas garras.

Nossa casa lua cheia
de sonhos e serpentes.
Nossa casa oráculo mudo
de vozes que se prostram
e se erguem
sobre a terra que não dorme
que nos vela e não se rende.

Nossa casa cheia de nozes
penduradas das paredes.
Nossa casa de chocalhos,
amores que nunca morrem,
música que não perece.

Alfredo Ferreiro. Arteijo, 7 novembro de 2015.

*

Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes,
plena de um vazio sem pausa
quebrando os espelhos desde dentro,
na distância infinita de toda razão
que não se expanda como a luz
no interior dos músculos abertos:
eis-nos, entranhados e estrangeiros,
cavando no invisível com as mãos
em carne viva, avançando no eterno
habitado como pura palpitação do real.

Ramiro Torres. A Corunha, 5 de novembro de 2015.

*

Nossa casa cheia de vozes enterradas nas paredes
Som de rocha, som de telha
Som tamém no fundo de uma botelha
Som de auga: pinga, pinga
Som de palha: malha, malha
Som de fume: lume, lume!
Som de branco, som de azul
O silêncio num baú
As serpes do dessasossego som
Requeixo abaixo ao lodeiro vou
Som de sonho, som de sono
Som de aqui, que aqui não tenho trono
que soe o som
Toc-toc
Som eu
Quem som
Eu som
O som.
Táti Mancebo. Arteijo, 7 de novembro de 2015.
*
Nota: O evento decorreu na “Librería AZETA”, da Corunha, a 8 de novembro de 2015. Participaram, para além destes poetas e de Pedro Casteleiro, Estefania Blanco e Tito Calviño, voz e guitarra respetivamente.
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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Fotografia, Língua, Objetos mutantes, Poesia

Pela tolerância ortográfica

GaivotaemArteijo_AFerreiro

A Teresa Barro

Cansado de escrever assim ou assám
com letras de cá ou de lá
concebo a ideia de escrever
com os dedos cheios de merda.
Escrever um poema
que cheirasse como uma bubela,
as fístulas explodindo
e os vómitos rarefeitos da cultura
que nos foi dado sorver
a causa das marés poluídas
das políticas nacionais,
dos negócios da política,
esgotos em que os poderosos
deitam as luvas depois de mexer
os intestinos larvados da pátria.
A pútrida pátria
que sob uma bandeira erradica
a liberdade, a democracia e a arte
gostava que morresse de vez.
Numa nova mátria
galega, portuguesa e ibérica
é que devíamos renascer.

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, José António Lozano, Pedro Casteleiro, Poesia, Ramiro Torres

Herberto Helder, in memoriam

Ontem soubemos que um dos vultos da poesia europeia contemporânea, o poeta português Herberto Helder, iniciou o caminho de retorno. Se calhar ele nunca chegou a saber até que ponto foi o grande referente da poesia moderna para alguns de nós, neste pequeno país chamado Galiza que, sendo o berço certo da lusofonia, esquece cada dia a sua cultura enquanto sorve desesperado as essências da poesia. Somos assim, contraditórios até ao paroxismo, e isso talvez é que nos faz humanos e divinos, efémeros e eternos.

Obscuro e luminoso ao tempo, Helder foi um exemplo de compromisso com o trabalho interior que a poesia impõe, e que pouco tem a ver com a literatura, esse objeto mercantilizado que coisifica a espiritualidade da arte, mede o esforço, calcula os ganhos e contabiliza os aplausos: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós […]». Por isso nós hoje queremos escrever tão só umas breves linhas de homenagem, breves, seguindo a recomendação do mestre, porque é que a nós, mais do que a ele, dirão respeito. Continue reading

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Poesia, Traições

Traição a Rosalia de Castro

150Cantares1No dia de hoje, 24 de fevereiro, coincidindo com o Dia de Rosalia de Castro, foi publicado o livro digital 150 Cantares para Rosalía de Castro, uma iniciativa de Suso Díaz em que tive a honra de participar com mais uma traição, que agora aqui publicito numa nova versão galego-portuguesa conforme à edição de Cantares galegos da Academia Galega da Língua Portuguesa. O livro pode-se descarregar desde a página da Fundación Rosalía de Castro, que desde já alberga esta obra coletiva. A publicação, que ia ser apresentada publicamente na Casa de Rosalía de Castro no próximo sábado 7 de março, ás 18 hs, fica adiada sem data devido a causas pessoais.

Traição a Rosalia de Castro

Ai, se não me levais pronto, bafos
demoníacos, airinhos da minha terra;
se não me levais, airinhos
e alentos sepulcrais onde o mar
se esgota e a terra se queima,
nem demos lindos nem anjos banais
quiçá já não me conheçam.
Que a ledice que comigo medra,
que a febre que de mim come,
uma faz com que sobre o monte voe,
outra vai-me consumindo lenta.
E no meu coraçãozinho
que amores e maldições acolhe,
uma libera-me nas asas do vento,
outra também traidora se ceiva.

Nota: Em itálico figuram os versos originais de Rosalia de Castro.
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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Música, Poesia, Vídeos

História de um guarda-chuva vermelho

«A música de Karlheinz Stockhausen, pertencente à obra Tierkreis, da qual se extrai este Gemini (1975), foi interpretada na XLI Semana de Música do Córpus de Lugo, pelo Black Cage Ensemble (com Antonio Badenas, oboé, e Alejandro Troya, saxo tenor) com videoprojeções de Xacobe Meléndrez. Do mesmo jeito em que se estabelece um diálogo entre música e imagem, produz-se a conexão do vídeo com o poema de Alfredo Ferreiro, o resultado é uma peça artística multidisciplinar sugestiva e ambígua, que aprofunda na identidade e a experiência e se abre a múltiplas interpretações.
Xacobe Meléndrez Fassbender»

História de um guarda-chuva vermelho from NoTobo do Raposo on Vimeo.

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Poesia

Nova lei

Dissecar um corpo para abri-lo como um estandarte, eis a última recomendação da Associação das Facas Unidas. É preciso liberar-nos da opressão das costelas, uma prisão de osso derivada duma reminiscência calcária demasiado antiga e falaz. Não precisamos esses espartilhos antediluvianos, assim que procedamos já. Quem tiver sua faca pronta, não deve aguardar mais; quem não, consulte seu farmacêutico ou seu sacerdote, ao mesmo dá, mas nunca tome suas decisões só. Lembre: seu corpo não lhe pertence e deve dar graças pelo fato de o poder usar. É a Lei do Livre Comércio de Cidadãos.

{Grupo Surrealista Galego}

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