O manifesto “O fim do Apartheid”, em favor de maior tolerância gráfica para a língua galega, continua ganhando adesões. São já por volta de 1.100 pessoas preocupadas com a decadente deriva da cultura, reintegracionistas ou não, que têm apoiado o texto com sua assinatura consciente. Porque este manifesto, não tendo que ser por razões de estilo igualmente satisfatório para tod@s, tem a incontestável virtude de ser muito claro no que às suas intenções diz respeito: reclamar o fim da invisibilidade para uma perspetiva da língua que tem sido marginalizada nas últimas décadas embora alguns dos maiores vultos da intelectualidade do país tenha erguido no seu seio grandes obras e o galeguismo referencial do século XX tivesse reconhecido a sua pertinência.

No passado 17 de novembro os avanços do manifesto fôrom apresentados na Corunha, contando com a presença do professor da Universidade da Corunha Xosé Ramóm Freixeiro Mato e da poetisa Eli Rios. O debate posterior não eludiu ressaltar algumas incoerências do mundo cultural galego, mas decorreu no ambiente de fraternidade e respeito que só @s mais conscientes dos crus tempos que vivemos sabem alimentar. Como dizia meu avó, lavrador de trás-Deza que houvo de fazer vida na Corunha de pósguerra: «Paciência, ratos, que ardeu o moínho». E diria eu: daí para diante tod@s a ajudar.

{Palavra comum}

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Língua

Confluência de corações

Apesar de que grande parte do sector intelectual galego continua ancorado na desídia e até numa permissiva indolência com as práticas menos democráticas herdadas do franquismo (capelinhas e “chiringuitos”, instituições feudalistas, antilusismos espanholistas, independentismos espanholeiros, oligarquias académicas, gerontocracias sempiternas, etc), na AGAL só se rende homenagem ao esforço permanente, à tolerância fraterna e ao pragmatismo libertário. É sem dúvida uma honra tamanha para mim, depois de ter colaborado durante muitos anos em diversos grupos, associações e sindicatos, fazer parte de uma irmandade em que primam a liberdade individual, as contas claras (e positivas!) e a vontade de consenso. É claro que destes corações, destas mãos e destes vímbios só podem sair os melhores cestos.

Pergunto-me, ao tempo, onde vão ir parar as “instituições oficiais” e as “melhores empresas culturais” deste país com tanta rigidez perante a mudança de paradigmas no mercado cultural a que, de resto, a cultura galega —há sessenta anos “utópica”, agora “oficial”— nunca soubo somar-se. Mas aqui estamos muitos para colaborar numa nova época em que, não pode caber dúvida, todos os recursos disponíveis devem ser aprimorados e os ombros de tod@s devem unir-se para a grande causa comum.

«A Associaçom Galega da Língua (AGAL) aprovou dia 3 em assembleia o texto que recolhe a confluência das duas tradiçons normativas que coexistiam no reintegracionismo, que a partir de hoje contará com umha única proposta ortográfica e morfológica. A Ortografia Galega Moderna convergente com o português no mundo (nome provisório) será lançada em app para telemóvel e numha wiki-faq, onde já se encontra umha primeira versom que também será editada em livro (com exercícios práticos) no próximo mês de janeiro.

Desde o nascimento do movimento reintegracionista contemporáneo, conviviam nele duas sensibilidades, com usos gráficos mais ou menos convergentes com o português no mundo. Em termos normativos, isto refletia-se no uso de duas normas independentes, cujas principais discrepáncias entre si era o uso de formas divergentes para o indefinido feminino (uma/umha) e para a terminaçom que na Galiza pronunciamos –om/-am, que havia quem escrevesse com til (ão) e quem nom (om/am).

Na prática, a confluência normativa implica umha ampliaçom das velhas normas da AGAL, que passam a incluir mais algumhas duplicidades, aquelas que estám justificadas nos usos conscientes das pessoas reintegracionistas. Ainda, dentre as duplicidades que já tinha esta norma, serám relegados alguns traços gráficos que nom se justificam no uso atual do reintegracionismo (como o ç no início de palavra ou a forma irmám acabada em –am).

O processo é em certo modo paralelo ao sofrido pola própria normativa ILG-RAG do galego em 2003, em que agora convivem as terminaçons ble-bel ou eria-aria. Com este passo, a associaçom admite que a “normativa” deve acompanhar a realidade, admitindo os usos reais, porquanto era evidente que cada vez mais reintegracionistas faziam uso de formas que nom recolhia a norma da AGAL agora ampliada.

Para a AGAL, as pequenas discrepáncias que exibiam as duas tradiçons gráficas deixaram de justificar que fossem mantidas duas normas independentes. Por isso, será divulgado um novo texto normativo de carácter orientativo que se insere na tradiçom de línguas que, como o inglês, nom contam com normas prescritivas (apenas descritivas), com duplicidades que só o uso das pessoas irá resolvendo.

Para obteres mais informaçom sobre a nova proposta ortográfica da AGAL podes consultar o texto aqui, nomeadamente o primeiro capítulo: “Esclarecimentos prévios”» […].

{PGL: ‘Confluência normativa’ aprovada por unanimidade’}

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Colaborações:, Língua, O levantador de minas

Teresa Barro: «Un galego ríxido e acartoado, como unha tradución mal feita do castelán»

Teresa Barro PardoTeresa Barro: «[…] Cando os escritores do século XIX como Rosalia decidiron escreber e resucitar unha língua que estaba abandonada, perdida ou desprezada como o galego, fixérono ¨de ouvido¨, porque non había tradición escrita da língua, e inventaron unha grafía que mais ou menos respondía ao que eles escoitaban no galego falado. Daí o ¨unha¨, en vez do ¨una¨ do castelán, para reflectir o son nasal que ten o galego, e daí as equis e os apóstrofos para reflectir sons que non ten o castelán. Se os escritores fosen conscientes e coñecedores do portugués, posivelmente terían optado por escreber con grafía portuguesa, mas, polo alonxamento histórico entre Portugal e Galiza que se produciu a partires da independenza de Portugal, eran tan poucos os vínculos có país veciño que iso non sucedeu, e empezou unha tradición, que segue hoxe, de inventar como se escrebe o galego. E cando o idioma galego se oficializou, non se quixo admitir a historia verdadeira da língua e, transformada en arma política e símbolo da nazón, ¨a língua de Galicia¨ apresentouse como se tivese nacido nun manancial na propia Galicia desde o comezo do mundo en lugar de ter saído do latín como o castelán, o francés e o catalán, e como se non tivese que ver con nengunha outra, e menos que nengunha có portugués. Nun contexto politizado e de comparación continua e pouco acertada có catalán, botóuselle a culpa ao franquismo dunha perda da língua que empezara moitos séculos atrás e tapouse a realidade por xulgala vergoñenta e sinal ¨de non sermos capaces de defender a nosa língua como fan os cataláns¨, cando era o mais natural do mundo e o que tería sucedido en calquer país nas mesmas circunstancias. Iso tivo como resultado un galego ríxido e acartoado, sen vida, e que é como unha tradución mal feita do castelán […]».

{Ler mais em “A historia do galego”, Desde Albión para Galiza}

Nota: Teresa Barro é colaboradora habitual da Palavra Comum.

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Jornalismo, Língua, Sistema literário

Os desígnios da Corte

Galicia ConfidencialMaría Xesús Pato já é numerária da Real Academia Galega, o que implica ter prestado homenagem simbólica à monarquia espanhola. Lá vai uma intelectual galeguista, esquerdista, feminista e se calhar independentista absorvida polo sistema espanholizante do Estado. Lembro ter pensado antes algo similar aquando da entrada de Manuel Rivas: “Será mais um espírito galeguista e contestatário assolagado nas marismas do Sistema?”. E que podemos lembrar do affaire Ferrín, outrora símbolo vivo da atitude nacionalista mais rebelde e comprometida, que houvo de abandonar a madrigueira da espanholeira instituição arreganhando os dentes depois de ter sido acusado (explicita ou implicitamente) de beneficiar familiares com postos de trabalho, retribuição indevida e choferismo burguês?

Alfredo Ferreiro por ele próprioTenho para mim que o Sistema espanhol, a respeito destes e doutros elementos muito valiosos em multidão de aspetos artísticos e intelectuais, esfrega as mãos ao comprovar o poder atraente das atalaias institucionais que perpetuam seu poder. Escritores e escritoras, por sua parte, olham para o lado enquanto reconhecem suas debilidades de simples mortais e rogam o indulto a quem nalgum momento pensou que podiam ser heroínas.

Mas voltemos ao nomeamento recente da RAG: havia outra candidata, com mais anos, mais obra e certamente não menos feminismo às costas que ficou mais um ano abandonada na berma da autoestrada académica: María Xosé Queizán. Porque? Será que a sua atitude — atrevamo-nos a dizê-lo tudo — rigorosamente crítica com a chamada de “normativa oficial” do galego, nascida duma sorte de golpe de estado na RAG acontecido na década de 80, pudo impedir seu ascenso a esse “panteão dos vivos”. Chegados cá, não vamos restar méritos à tão reconhecida Chus Pato, mas é evidente que os méritos que o sistema vê não são aqueles para nós mais prezados.

Dirão alguns académicos que as decisões e as atividades da RAG não são sempre de seu gosto, e que os resultados do seu esforço são governados por uma fórmula por vezes injusta ou errada (cfr. homenagem ao franquista Filgueira Valverde). No entanto, como o pão dos mesmos não depende de tal vínculo institucional, por virtude do mesmo são responsáveis sem atenuantes pola espanholidade que emana, o elitismo burguês que desprende e o carácter antidemocrático que como clube representa.

Pode que quando a RAG nasceu fosse o tobo necessário de uma primária política galeguista, que mesmo a sua sobrevivência durante a ditadura fosse conveniente, mas depois de quarenta anos de castigadora pseudodemocracia é mais um baluarte do Ancien regime espanhol que debilita a nossa mais independente energia social. E nada tem a ver com aquilo que um espírito democrático e moderno -que antiga palavra!- pode hoje defender à hora de construir o futuro do país.

{Galicia Confidencial}

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Compromiso por Galicia na Corunha em 2016 por Alfredo Ferreiro
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Língua

Tolerância gráfica

Há já tempos que vimos advogando pública e privadamente pela promoção de uma nova atitude de rotunda tolerância gráfica, nada nova certamente para quem quiser ouvir (cfr. “O galego e os limites imprecisos do espaço lusófono” do professor Xoán Lagares). Uma atitude necessária, democrática e fraterna entre todos os utentes da língua galega, conscientes da luta por um objetivo comum perante as afrontas constantes dos poderes antigalegos e o declínio permanente da cultura. Se o patriotismo existe e serve para algo, não deve ser muito mais do que isto. Por isso o manifesto “O fim do Apartheid”, publicado por um pequeno grupo de pessoas entre as que figura Teresa Moure, me resultou tão grato.

A proposta, se bem entendida, só pode ser boa para a nossa língua. Defendem o possível convívio de vários modos de grafar o galego, de modo que se convertesse em natural apresentar-se a prémios, publicar livros, colaborar na imprensa, figurar nos livros de texto, aceder a prémios da crítica, etc, em qualquer normativa que fosse, e para isso tentam exorcizar a censura ativa e passiva que incontestavelmente sofrem as obras reintegracionistas apelando ao melhor espírito galeguista das agentes culturais, tanto criadoras quanto técnicas.

No entanto, alguns intelectuais não chegaram a compreender o positivo da proposta, embora tenham muito dignamente ocupado seu tempo em valorizá-la. Continue reading

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Jornalismo, Língua, Sistema literário

Debates político-literários

Xavier Alcala por Nifunifa«Há tempos que, por regra, não há debates de peso na intelectualidade do país. Será que a vida política, que balança do roubo nas arcas públicas ao messianismo mais superficial, produz um fastio paralisante nas plumas galegas. Mas existem, no entanto, exceções como o Xavier Alcalá, que vem livrando em solitário uma guerra pola dignidade do Centro Pen de Galicia, segundo as declarações que como aprendiz de outsider não deixo de seguir (cfr. “Centro Pen” no blogue O levantador de minas).

Nesta ocasião o professor Alcalá houvo de trazer para a mesa velhos argumentos para defender algo básico: não se pode falar em literatura galega —enquanto a língua galega ainda não desaparecer— sem assumir que a escolha linguística é uma marca de galeguidade incontornável. Continue reading

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Rosa Parks Bus
Colaborações:, Língua, O levantador de minas, Sociedade

Manifesto “O fim do Apartheid”

«Na casa em que nasci, citando Rosalia, dizem irmao e galega. Na tua, no entanto, dizem irmán e ghalegha. Uns falam de corisco e de barruçar, outros de pedraço e de poalhar. A tradição académica, sobre estas diferenças, construiu imensos catálogos, o grande edifício da dialetologia, com tantos praticantes. O furor em defesa da variedade é uma constante da filologia galega e um dos poucos legados etnográficos reconhecidos entre a população que, mesmo subestimando o seu património linguístico, surpreenderia a falantes doutras línguas com maior tradição normativa por valorar tanto as variantes. Diversidade é riqueza, parece ser o slogan. “Nós não falamos assim”, “não falamos como os da TVG”, “não falamos como os da costa, ou como os da chaira”.

Todo esse respeito pela variação desaparece assim que se fixa por escrito. Como se fosse impossível perceber um texto se não estivesse escrito como estudámos no Instituto, na época em que as pessoas se afizeram a introduzir os computadores nas suas vidas, a gerir os seus pagamentos pela internet, a socializar os seus afetos através das redes sociais, no imaginário coletivo isso que se chama o/a falante continua a ser visualizado como uma pessoa com escassa formação, que se assusta por um ç e deixa de ler um texto se não está grafado tal como aprendeu nas aulas. Referentes políticos e intelectuais apresentam como impossível repartir folhas informativas à saída da Citroën se não estão redigidas segundo a mesma tradição gráfica do espanhol, embora usem um léxico requintado, que conjunta sisudos conceitos políticos com uma seleta escolha de termos populares com sabor local. O professorado assegura as crianças não poderem ler Harry Potter em português, mas não vê assim tão problemático que esse mesmo alunado entenda um texto de Otero Pedraio que, até agora, ninguém leu sem dicionário à mão –ou á man.

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