Finalistas do Certame de Narracións Breves Manuel Murguía de Arteixo

Reunido o xurado o pasado 22 de abril, a organización do Certame de Narracións Breves Manuel Murguía de Arteixo,  anuncia os finalistas e céntrase na cerimonia de entrega de premios que se celebrará o próximo 19 de maio, venres, ás 20:00 no Centro Cívico e Cultural de Arteixo.

Certame Manuel Murguía Arteixo 2017 - XuradosReunido o xurado, composto por Anxos Sumai (escritora e representante da Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega), Beatriz Rodríguez Rodríguez (profesora da Universidade de Vigo e representante da Asociación Galega da Crítica), Diego Giráldez (gañador da 25ª edición) e Alfredo Ferreiro Salgueiro (coordinador literario, que asistiu como secretario, con voz e sen voto), decidiu por unanimidade conceder os tres premios ás seguintes obras finalistas (por orde alfabética de autor):

Reversible, de Jesús Amboage García

Corazón de Aquiles, de Noelia Cendán Teijeiro

A semântica oculta de Mrs. Hockett, de Teresa Moure Pereiro

Dos 58 relatos recibidos, 52 foron admitidos a concurso por cumpriren estritamente as bases. Os premios, que se coñecerán durante a cerimonia, contan coa seguinte dotación: 4.000 € para o primeiro, 500 € para o segundo e 300 € para o terceiro.

Como novidade deste ano, a coordinación destaca a presenza no xurado de un membro da Asociación Galega da Crítica, feito que, grazas a un recente acordo de colaboración similar ao precedente coa Asociación de Escritoras e Escritores en Lingua Galega, vincula de maneira máis decidida o Certame ao sistema literario galego.

O acto de entrega ofrecerá ademais outros alicientes para todos os asistentes: a actuación musical do grupo EJazz, as intervencións artísticas do colectivo XIPA e un viño de honra como fin de festa.

O evento incluirá ademais unha lembranza da figura de Carlos Casares, escritor homenaxeado este ano no Día das Letras Galegas, mediante a proxección dunha peza en que se fai referencia á relación do autor ourensán con Arteixo.

Contacto: Alfredo Ferreiro (609 653 176) ~ Coordinador literario do Certame de Narracións Breves Manuel Murguía do Concello de Arteixo

Cfr. Web municipal.

Nota: Em galego-português no Portal Galego da Língua.

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A propósito d’ A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro

mario-herrero-a-razao-do-perverso-300O poemário começa com aquilo que é interdito, como sendo os “mandamentos” do poeta do nosso tempo, aqueles de uma religião imposta: “nunca comerás terra / nunca beberás leite / nunca escreverás / sobre o sexo do país / nunca lamberás / as conas das poetas / nunca buscarás / as suas cuecas / entre as néscias palavras, / nunca vomitarás / no umbigo / do nosso Octavio Paz.” E isto dá pé para questionar uma consciente e necessária ação política: “quebrar para sempre as inércias do país”.

A seguir, a destruição, a decadência, a frustração se manifestam até ao ponto de amor e poema tender a desaparecer. Uma dor inevitável, essa da vida do indivíduo como a da nação, sempre semelha uma tragédia: “o meu corpo a arder sobre a terra”. Mesmo o país se tornou tão funesto que a língua houve de o abandonar: “partiu a língua, / foi a primeira a fugir”.

Até o passado que podemos lembrar, aquilo já perdido, só é uma “passagem pelas sombras”. E assim o niilismo invade definitivamente o livro: “somos poetas do nada”; “nada permanecerá no teu corpo… nada no teu país… distante e atroz o teu país”; “ não me custa não estar, / não ter terra, / não te amar”. Porque o amor se torna algo impossível numa sociedade tão doentia, em que a poesia não encontra espaço para florescer: “gritavas pedindo versos”; “não escreverás mais, / esse foi o castigo” e a verdade escasseia mesmo no íntimo do poeta: “porque nada em mim / é verdade”. Assim as cousas, é da dureza do mundo que é preciso escrever para “esquecer as vísceras, / as vísceras das crianças / sobre a areia”.

Existe, sim, erotismo neste livro, mas faz parte das diversas experiências humanas que este mundo corrompe, ultraja e contamina, não sendo mais do que parte do tecido habitualmente falso desta vida pervertida por uma razão que converte tudo em “quase-nada”, entre a frustração do que deveria ter sido e o pouco valor do que é. Um mundo que não pode evitar produzir constantes psicopatias (“sou a mão demente / a assinar o papel”), ajustes de contas, os agravos a causa da “falácia, uma lenta desforra por uma idade interminável de vergonha”, o sentimento de vulnerabilidade por “esta língua ruim e cativa / com que descrevo a miséria”. Agora, quando se revelam como protagonistas a vingança, o desterro, as ruas sem luz, os lábios que beijam a poeira das pedras, percebemos que o erotismo à la page do poemário é escasso, salvo que se poda falar de novo da erótica do poder ou, neste caso, da erótica da crítica contra o poder: “o desejo foi conceber uma erótica dos povos, / um orgasmo grupal, / uma hecatombe”, ou quando “os teus lábios lambem o universo”.

Na parte final do livro, resulta evidente a crítica do corpus literário aprovado pela intelligentsia galeguista, caracterizada por uma visão pequeno-burguesa e portanto falsamente proletária. E aqui influem, quer-me parecer, alguns dos grandes erros do nacionalismo pseudorevolucionário: a) que o nacionalismo precisa de uma burguesia galega na prática inexistente; b) que aquele modelo de revolução precisa de um proletariado igualmente inexistente, dado que uma maioria de trabalhadores rurais possuem de certo modo uma mentalidade pré-industrial, se não declaradamente feudalista.

É portanto, um livro eminentemente político. Existe nele a denúncia de um galeguismo nacionalista maioritário que se rege por esse comportamento partidário de consignas e capelinhas, e que se permite proscrever fórmulas regaleguizadoras como o reintegracionismo. Lembro neste momento as declarações do Almada Negreiros em 1968 a respeito da geração anterior à sua: “Os jovens da Orpheu fomos maltratados pela geração anterior ao Orpheu, que nem sequer nos supunha. Então, porque nos combateram?”.

 O escritor Luiz Pacheco, ignorado pelas enciclopédias e desconhecido nas Faculdades de Letras (podemos acrescentar: hoje com toda a sua obra inacessível porque esgotada), é responsável pela edição da melhor poesia portuguesa, embora fosse sempre considerado um “bobo da Corte”. Para ele existiam três tipos de literatura falsa: a) a literatura “abençada”, que consiste naquelas obras dos grandes nomes que periodicamente devem vir à luz no mercado, e que respondem mais a uma “exploração do nome” ou mesmo à prostituição da escritura; b) a literatura de casino, que é “a que salva os prémios”; c) a literatura de consumo, aquela que é pensada para “ter em casa”.

 Nesta linha, uma verdade que a este livro subjaz é que a literatura galega atual está alicerçada no reconhecimento a muitos autores que na realidade têm um talento essencialmente político, ou ao menos um talento para as relações públicas, factos que propiciam que tenham atingido uma projeção por cima da altura real das suas obras: “quando tudo vale, / nada tem mérito”, “quando tudo é arte, / deus dá por conclusa / a sua obra”, “porque quando tudo vale, / a única forma é não estar / guardar os cadernos, / preservar o pénis / debaixo das calças / e, silenciosamente, / desaparecer”.

E dizer isto não comporta necessariamente inveja ou um pacato desejo de não deixar medrar o fruto na leira do vizinho. É, na realidade, afirmarmos que vivemos na falsidade, dizermos mais uma vez que o rei caminha despido embora a maioria louve a vestimenta real, é reconhecer que não resolveremos os problemas do país alimentando os egos das elites.

Não se pretende, porém, desmascarar os falsos méritos literários do pessoal quanto reconhecermos que no pobre caldo da literatura atual existem restrições, censuras e intolerâncias profundamente antidemocráticas para os escritores de diversa raça gráfica, de epiderme cultural diversa à pretensamente “normalizadora”, o que faz com que dia após dia nos tornemos, absolutamente todos, menos normais.

A literatura galega reintegracionista, não só a poesia, continua, nesta cacarejada democracia, num interregno, quando não sofrendo um autêntico apartheid. Por isso é que somos descrentes deste mundo em que o mais importante semelha decidir que capelinha governará a Real Academia Galega. Depois chegam mesmo estrangeiros bem intencionados, amadores da cultura galega “autêntica” a quem devemos agradecer sua atenção embora partam suas exigências, aparentemente objetivas e científicas, de um erro insuspeitado por eles: o galego, em seu uso quotidiano e vulgar, como experiência vital comum, não é uma língua. E isto é corroborado cada dia pelo seu uso nos jornais, no mundo da empresa, na ciência e nas legislação.

Hoje, no quadro da crise económica ocidental e da crise política espanhola, as contas não dão certas para a língua do país e aquela pretensa “normalidade cultural” que devia era dar reconhecimento a uma nova e extensa vaga de vultos intelectuais e criativos revelou uma nova época em que a carência de recursos faz mais violenta a luta das capelinhas culturais perante os restos do que pode ser o definitivo naufrágio cultural. Não devemos esquecer que a nova democracia espanhola se baseia num “pacto de silêncio” a respeito dos crimes da ditadura, e é esta cultura do silêncio face à repressão que educou várias gerações e ainda contribui para que a própria democracia não floresça, e que mesmo o retorno à perda de direitos civis seja tolerada. Nesta ordem de cousas, a ocultação das obras reintegracionistas não resulta estranha no contexto dos habituais e irresolutos conflitos culturais do estado espanhol.

Ao tempo, o reintegracionismo organizado progrediu como? Embora era marginalizado por questões de forma, promoveu atitudes positivas de divulgação de conteúdos interessantes. Assumiu o paradoxo e avançou graças a ele: se os seus inimigos o castigavam a causa da forma, ele privilegiou os conteúdos. É aqui, portanto, que devemos situar a obra de Mário J. Herrero Valeiro, membro da Academia Galega da Língua Portuguesa, tradutor juramentado de português e vencedor com sua particular língua nortenha no Prémio Internacional Glória de Sant’ Ana para obras lusófonas. É nesta vontade insubmissa e abertamente galeguista em tempos de alinhamento e uniformização intelectual bizarra, que a obra do Mário Herrero ressalta, para além de na sua arte, como profundamente comprometida e contestatária.

*

Notas: Este livro venceu o X Certame de Poesía Erótica Illas Sisargas em 2015. Outras referências: “da prosaica grossaria (a razão do perverso – poemas descartados), por Mário Herrero”; “Política da carne: A razão do perverso de Mário Herrero Valeiro”; “‘A razão do perverso’ é um livro formalmente erótico e também é uma crítica do sistema literário galego”.

{Palavra Comum}

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“A língua da musa”

A língua da musa, Azertyuiop nº 105 (2016)

Alfredo Ferreiro: “A língua da musa”

*

Tradução: Vem o amigo F. D. e não ouve aquilo que não bem tenho para dizer-lhe. Meu amigo é surdo perante quem melhor devia é ficar mudo, o amigo que me queima e me arrasta por uma encosta fascinante que arde.

Meu amigo é fiel, mas eu nem sei a quem. Talvez a uma musa que me elude e me não concede uma baila, ninfeta decorosa que não quer dançar com velhos de corações artríticos e falsos.

Meu amigo conhece uma musa misteriosa que num lugar dança em que o tempo não corrompe nem o baile cansa. Meu amigo tem um poder estrangeiro que me assombra e lhe outorga forças estranhas, uma musa que me recusa, que nalgum lugar recôndito se abre como flor e oferece o seu fascínio, uma musa impenetrável, recôndita e próxima que me atrai até ao abandono, me faz caminhar ao luar e esquecer o lugar em que moro.

Meu amigo guarda um segredo profundo. Um segredo que não confessa para proteger de mim o mundo.

*

Nota: “A língua da musa” é uma visão de Alfredo Ferreiro. A sua tradução para o galego-português foi publicada no fanzine Azertyuiop (nº 105) em Janeiro de 2017.

{Palavra Comum}

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“Peles especuladas”

Fotografia de Paula Gómez del Valle

Autora: Paula Gómez de Valle

 

Peles especuladas

Existe uma densidade na pele do mundo
que me aterra,
uma memória cicatrizada nos gritos
de bichos diminutos
e no silêncio do húmus
ultrajado mas sempre fecundo.
Por toda a terra o nosso umbigo aparece
em cada furo de grilo
e o nosso mamilo floresce
no cimo de um monte coroado pelo sol.
Pode a humanidade
ser rastejada na terra
como pode a epiderme do mundo
oferecer-nos uma sombra entre rugas
para o descanso do ser.

*

Nota: Poema tirado da anotação de Palavra Comum em que partilha espaço com outro poema de Ramiro Torres também inspirado na fotografia de Paula Gómez Del Valle.

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Apresentação de Caudal de relâmpagos, de Amadeu Baptista

Foi um prazer acudir à apresentação da nova obra do amigo Amadeu Baptista, uma seleção pessoal de poemas com base nos seus mais de trinta e cinco anos de trabalho poético. Mais um manual imprescindível para os amantes da boa poesia aquém e além do Minho, e sem dúvida um dos favoritos desde já na minha biblioteca.

Foi no ano 1994 que conheci o Amadeu Baptista no Festival da Poesia no Condado de Salva-Terra do Minho, quando ele aceitou o convite para vir recitar a terras galegas e eu acudi para acompanhar os amigos com quem vinha de celebrar na Corunha com um outro recital o aniversário da Revolução dos Cravos: António Cândido Franco, Francisco Soares, Avelino de Sousa, o falecido José Manuel Capêlo e os companheiros do Coletivo Poético Hedral. Desde aquele encontro a amizade prendeu e logo a viemos amarrar fortemente com cartas (aquelas folhinhas —lembram?— que introduzíamos em envelopes que logo eram decorados com selos ensalivados) e afinal coroámos com uma visita fundacional a Vila Nova de Gaia.

Muitos anos passaram, é certo, mas o caminho percorrido na companhia do amigo é, ademais de uma honra, o alimento do presente e do futuro (cfr. notícias de A. B. n’ OLdM). Porque se ter bons amigos fala bem de nós, muito melhor fala o facto de serem alguns deles autores da melhor poesia que desde há tempo se publica.

O vídeo que aqui oferecemos é resumo do evento que organizou, com eficácia e primor, a editorial Edições Esgotadas na sua nova sede no Porto, e que realizámos com sua permissão:

Paralelamente, aproveitamos para fazer referência também ao vídeo realizado pela própria editorial, em que a causa da nossa vaidade tanto gostamos de figurar.

{Palavra Comum}

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