Caudal de relâmpagos de Amadeu Baptista
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Poesia

Apresentação de Caudal de relâmpagos, de Amadeu Baptista

Foi um prazer acudir à apresentação da nova obra do amigo Amadeu Baptista, uma seleção pessoal de poemas com base nos seus mais de trinta e cinco anos de trabalho poético. Mais um manual imprescindível para os amantes da boa poesia aquém e além do Minho, e sem dúvida um dos favoritos desde já na minha biblioteca.

Foi no ano 1994 que conheci o Amadeu Baptista no Festival da Poesia no Condado de Salva-Terra do Minho, quando ele aceitou o convite para vir recitar a terras galegas e eu acudi para acompanhar os amigos com quem vinha de celebrar na Corunha com um outro recital o aniversário da Revolução dos Cravos: António Cândido Franco, Francisco Soares, Avelino de Sousa, o falecido José Manuel Capêlo e os companheiros do Coletivo Poético Hedral. Desde aquele encontro a amizade prendeu e logo a viemos amarrar fortemente com cartas (aquelas folhinhas —lembram?— que introduzíamos em envelopes que logo eram decorados com selos ensalivados) e afinal coroámos com uma visita fundacional a Vila Nova de Gaia.

Muitos anos passaram, é certo, mas o caminho percorrido na companhia do amigo é, ademais de uma honra, o alimento do presente e do futuro (cfr. notícias de A. B. n’ OLdM). Porque se ter bons amigos fala bem de nós, muito melhor fala o facto de serem alguns deles autores da melhor poesia que desde há tempo se publica.

O vídeo que aqui oferecemos é resumo do evento que organizou, com eficácia e primor, a editorial Edições Esgotadas na sua nova sede no Porto, e que realizámos com sua permissão:

Paralelamente, aproveitamos para fazer referência também ao vídeo realizado pela própria editorial, em que a causa da nossa vaidade tanto gostamos de figurar.

{Palavra Comum}

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Revista DiVersos ~ Poesia e tradução nº 25
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Lusofonia, Poesia, Vídeos

Apresentação da revista DiVersos no Porto, em Santiago e na Corunha

Nesta semana, na quarta 22 de março em Santiago (20:00 hs. na livraria Chan da Pólvora) e na quinta 23 na Corunha (no café-livraria Linda Rama), a revista DiVersos – Poesia e tradução será apresentada na Galiza. São já 20 anos desde a sua fundação (1996-2016) e mais de 300 nomes da poesia que foram aqui publicados, em língua original ou traduzidos. Contaremos nos dous eventos com a presença do seu editor, o amigo José Carlos Marques, da Edições Sempre-Em-Pé, assim como com a do escritor e professor Carlos Quiroga em Santiago e o poeta Ramiro Torres na Corunha. O nosso propósito será, para além de apresentarmos uma revista de que tanto gostamos e na que nos orgulhamos em participar, tentarmos estabelecer as bases para uma colaboração permanente entre galegos e portugueses.

O vídeo oferecido cá responde ao evento que celebramos no Porto no passado 3 de março. Animamos @s amantes da poesia a acudir aos encontros previstos para esta semana na Galiza.

*

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Terra coletanea publicada de fotografos e poetas galegas e portuguesas publicada por Cultura que une 2015
Alfredo Ferreiro, Colaborações:

Terra, edição de “Cultura que une”

Terra é um livro coletivo editado pelo projeto transminhoto «Cultura que une», uma aposta galego-portuguesa por fazer da antiga cultura galaica comum, muito mais extensa do que os limites políticos e territoriais da atual Galiza, uma experiência do nosso tempo. Não se trata de mover ou eliminar fronteiras mas de viver como se elas não existissem, nem de concorrer pelos méritos do passado ou do pressente mas desfrutar do convívio natural a que uma mesma terra nos convida desde há milénios.

É nessa sequência que nasceu a primeira publicação de Cultura que une, um livro iluminador que tudo o conta já no título: Terra. Consiste numa coletânea de fotógrafos e poetas galegas e portuguesas que partilham por pares suas particulares maneiras de ocupar a folha em branco. De partida, as fotografias foram propostas e a seguir os poemas, inéditos e não só, foram aconchegados para fornecer outros pontos de fuga.

Fotografia: António Pinto, Anxo Cabada, Catarina Almeida, Diogo Cardoso, Fernando Ribeiro, Iván Merayo, João Madureira, Maribel Valdivieso Varela, Santi Amil, Xosé Luís Alonso.

Poesia: Alfredo Ferreiro, Amadeu Baptista, António Fortuna, Berta Dávila, Carlos Da Aira, João Madureira, José Braga-Amaral, Ramiro Torres, Virgínia do Carmo, Yolanda Castaño.

Uma versão áudio-visual dos conteúdos pode achar-se no Canal Culturaqueune.

Disponível na Galiza na livraria Aira das Letras de Alhariz e em Portugal na Traga-Mundos de Vila Real.

Fotografia Frigindo os rojoes no pote por Joao Madureira

Frigindo os rojões no pote, por João Madureira

ARDER

Arder, aquecer no pote
o tempo e perceber o doce sabor
de aquilo que nasce
aquilo que morre
aquilo que mora no bordo da existência,
como um fungo que raramente aparece
e logo se oculta, fugitivo insensato
na derme sacra da terra
nas leves asas do vento
nas iriadas brânquias do mar,
que em nenhum lugar permanece
por ser apátrida sempre
onde outros erguem bandeira
e defecam pomposamente.
Caminhar sem tempo
alargadamente num único latejo
pela imagem da lua que dança
na marisma de um pensamento cordial,
maravilha do sacro no quotidiano.

Alfredo Ferreiro. Inédito

*

«A Galiza e o norte de Portugal, filhos de uma mesma cultura que ficou truncada, não tanto na época em que D. Afonso Henriques proclamou a independência do Condado Portucalense, mas sim quando foram implantados os tratados de limitação de fronteiras por estados liberais fortemente jacobinos e centralistas ao longo do século XIX.
Nas duas primeiras décadas do passado século XX, intelectuais e criadores galegos e portugueses falaram da necessidade do reencontro. Mas as violências do século XX, nomeadamente as ditaduras, a Guerra Civil Espanhola, a repressão, as dificuldades económicas que afectaram os povos ibéricos pareceram silenciar este diálogo que, na forma de encontros entre arqueólogos, escritores, filólogos, etc., continuaram à margem do discurso oficial.
Amarante é um referente para este reencontro e também encontro. A figura de Teixeira de Pascoaes, grande admirador de Rosalía de Castro (Pascoaes escrevia a Risco que haveria de se lhe fazer uma homenagem) foi um referente simbólico para uma intelectualidade galega. E não só Pascoaes. Também Leonardo Coimbra, Santos Júnior, Carlos de Passos, Hernâni Cidade, Rodrigues Lapa, Vicente Risco, Viqueira, Noriega Varela, Castelao, Filgueira, Jenaro Marinhas del Vallhe, Valentín Paz Andrade, Carvalho Calero, são um bom exemplo de intelectuais que, em algum momento da sua vida, trabalharam para o reencontro.
Mas se é necessário o reencontro também é igualmente necessária a redescoberta de um património cultural que teve origem no território da Gallaecia romana e que teve na língua galaico-portuguesa a sua fonte de criação. O património comum galaico-português faz parte do acervo da humanidade em criações tão singulares como as cantigas medievais da nossa lírica que transparecem uma rica tradição oral onde beberam os trovadores. A cultura popular comúm que manteve a sua vitalidade até ao presente, apesar da fronteira política, debe obter o seu maior reconhecimento mediante a inscrição na Lista Representativa do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.
A aprovação a 11 de Março de 2014 pelo Parlamento Galego da Lei Valentín Paz-Andrade, fruto de uma Iniciativa Legislativa Popular, publicada no DOG de 8 de Abril de 2014, convida-nos, e até certo ponto obriga-nos, a aprofundar o esforço do reencontro.
Para contribuir para fazer da Lei realidade, damos impulso às seguintes actividades a desenvolver em Amarante e na Corunha nesta edição de 2015, que esperamos que não seja a última. A eleição destas duas cidades para a presente edição não é arbitrária. Se Amarante tem a força simbólica de Pascoaes, a cidade da Corunha é onde está a sede da Academia Galega, instituição civil constituída por aqueles que pensavam no ressurgimento da Galiza.
»

{Cultura que une}

Proximamente culturaqueune.com

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Sistema literário

Encontro na Ribeira Sacra

Na passada quinta acudi a um encontro em Chantada. O propósito era reunir-me com dous amigos, um de há longo tempo, o Vergílio Alberto Vieira, e o outro de há bem pouco, o Xosé Lois Garcia. O contexto era o Românico galego e o tema a literatura peninsular ocidental que nos coubo conhecer, com seus delírios e suas grandezas.

O Vergílio conheci-no a finais de 90, se lembro bem, quando um amigo comum, o Amadeu Baptista, nos levou à Táti Mancebo e a mim a Braga para travarmos uma nova amizade na Galécia do sul, se me permitirem a reivindicação histórica. Num ambiente de fraternidade galego-portuguesa nasceu uma relação que chega até hoje. E que implica, felizmente, a Gina, a quem gostei imenso de voltar a ver.VAVieira_Gina_XLGarcia_AFerreiro_800

O Xosé Lois Garcia sempre foi para mim um referente da Galiza que, para além de teorizar sinergias, permanentemente exerceu como membro de pleno direito numa lusofonia que transcende as nescidades e misérias das políticas culturais do Estados. Lembro aquela entrevista ao Herberto Helder que realizou em 1987 para a extinta revista Luzes de Galiza, uma das escassíssimas e provavelmente a mais profunda que jamais concedeu aquele esquivo e genial poeta, referência ímpar da poesia europeia para tantos de nós. Achei-no repetidamente em todos os projetos de outro vulto da dinamização literária e da fraternidade galego-portuguesa, o António José Queiroz (que também conheci pelo Amadeu Baptista), e por isso não me admirou que fizesse parte do último júri do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, este ano concedido pela primeira vez a um autor galego, o Mário Herrero Valeiro, caro amigo desde os alvores da nossa afeição pola escrita. LivrosXLGarcia_VAVieira_AFerreiro_600Assim as cousas, não podia deixar de também convidar o Garcia para participar na Palavra comum, esta nossa modesta ágora que promove o convívio fraterno de todos os filhos da galeguia, ou como se conhece habitualmente, a lusofonia, pois não pretendemos atribuir-nos mais méritos que aqueles tão humildes que no passado remoto ficárom esquecidos para tantos. Na verdade, tomamos a iniciativa desde este pequeno país europeu com vontade de apelar a uma fraternidade que gostamos de alimentar, e já vamos vendo como os velhos amigos e ainda os novos de toda a parte aparecem carregados de presentes e nos honram com seu esforço e seu talento, e já não podemos deixar de ficar gratos e satisfeitos.

Mas voltarei a Chantada e àquele memorável encontro: houvo poesia, amizade, livros, vinhos, truitas e vitela da Terra, e de tudo foi testemunha a majestosidade do Românico e o grande rio que atravessa o país e discorre por unha Ribeira que, entre todas a mais pura, acabou por se chamar de Sacra. A gente não vai acreditar, mas chegamos ao Cabo do Mundo e caminhamos polas duas beiras, uma transcendência da cartografia que só a Poesia é capaz de conceder.

{Palavra comum}

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Criação, O levantador de minas, Poesia, Prémios literários

Amadeu Baptista vence XXIX Prémio de Poesia Cidade de Ourense

Conheço desde há muito o Amadeu Baptista. É, com certeza, um dos melhores poetas vivos de Portugal, afirmação que digo com toda a contundência. Melhor sem dúvida que uma miríade de nomes pertencentes à esfera universitária, tão dada à divulgação de obras pelas palestras académicas, os meios e os congressos oficiais. Amadeu Baptista é, ao contrário, um outsider, e isso paga o preço de não contar com uma vasta família de padrinhos institucionais. Porém, o poeta produz, produz sem pausa e as águas do rio da inspiração inundam o território de todos, como quando o Nilo experimenta uma irreprimível enchente e assim acontece a fertilização dos campos. Entrei no seu blogue e apanhei um poema do livro que haverá de publicar-se sob o título Um pouco acima da miséria, com responsabilidade do Concelho de Ourense. Parabéns ao poeta e aos seus leitores galegos!

MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante? Continue reading

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Alfredo Ferreiro, Críticas e referências, Poesia

Poemas que nacen nun ventrículo atormentado

A lectura dun novo libro de Amadeu Baptista sempre supón enfrontar unha experiencia que non me deixará impasíbel. Por iso cando comecei a ler O ano da morte de Xosé Saramago (2010) e os niveis da máquina estético-intelectual subían até máximos raramente atinxidos na lectura, nada me resultou estraño.

Posúe este libro un estilo que boga entre a tormenta da imaxe sorprendente e o mar en calma do discurso directo sobre os asuntos vitais máis vulgares. Non oculta, neste sentido, unha marcada ideoloxía naquelas cuestións da rúa que todos pisamos, nunha actitude de outsider tan habitual nel, sen obviar unha crítica mordaz das políticas ultraliberais que o pobo despoxan do que é en xustiza froito do seu suor; hai mesmo unha denuncia dos gobernos que levan a cabo o indigno espolio dunha sociedade non ben acabada de matar:

«A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder
à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise
se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se…».

«… o Nuno vem de Viseu, onde tão bem notou que é o crucifixo
um punhal que se usa á cintura,
e fazemos unha grande fogueira disto tudo,
lume puxado a tudo o que seja comburente,
com excepção, talvez, de L’Obsservatore Romano
que no Inferno arderá com maior jurisdição».

Ofrece, ademais, poderosas referencias a unha infancia obscura e de difícil asunción que xa percibimos noutras obras do autor, e que resaltan coa dureza daquilo que sempre nos doe e á vez nos impele a realizar un esforzo permanente na procura da felicidade, algo que no poeta se manifesta como unha caza pertinaz da beleza e a verdade, dúas faces da mesma moeda:

«…Era eu criança e procurava em vão
a tumba de um irmão,
e uma pedra bastou para me serenar a angústia,
aínda que do meu irmão nunca mais soubese,
nem de minha mãe,
a quem beijei por última vez a notar-lhe um ferimento no rosto,
um ferimento que só a terra cicatrizará,
uma terra compacta para tantos cães,
uma cicatriz igual à que tenho na alma,
se alma é o que na minha cicatriz se incrustou».

Mais estas ramas, a crítica política e a áspera lembranza do pasado, son aspectos do poemario que acompañan un tronco principal, unha liña vertebral de contido que fai referencia á poesía mesma, ou mellor á arte escrita en sentido amplo. Esta é a razón pola que con frecuencia aparece a reflexión sobre a propia escrita, e pola que en varias ocasións se citan no poemario José Saramago (xa no título), Herberto Helder e Nuno Dempster. Porque a experiencia da escrita, sendo íntima e estando ligada a experiencias persoais, posúe no ámbito da publicación unha vinculación co alleo, sexa o lector, os outros autores, o mundo editorial ou en xeral o sistema literario.

A pesar de ter un tamaño máis reducido, quero tamén resaltar outra obra do autor, máis recente: Atlas de circunstâncias (2012), que gañou o Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage en 2009. Utilizando de forma moi libre o soneto, presenta Baptista a figura do poeta como un ser convulso, complexo e paradoxal, facto debido á súa función de espello do mundo, esa realidade que só pode ser representada mediante unha elocuente contradición de imaxes e sons:

«O poeta deseja a clareza e é afoito a perscrutar
o magma da palavra e os seus grumos.
Um enigma, ao fim da tarde, retiera-lhe o poder
indemonstrável das palabras…»

Presenta o libro tintes de gnosticismo laico, cunha perspectiva poética que resalta como instrumento útil para o coñecemento interior, para a perscrutación de todo aquilo que no ollar cotidiano non pode ser revelado.
E, como non podía deixar de ser na obra de Baptista, aparece a infancia retratada como un estadio de alta percepción do mundo nas súas grandezas e nos seus misterios, unha sabedoría natural que non debe ser esquecida para non caermos na soberbia de nos sentir o centro do universo.

Por todo o explicado atrévome a recomendar a lectura destas dúas extraordinarias obras. Mais hei de recoñecer que, se isto non fose unha actitude inxusta, contemplaría a hipótese de impoñer a súa inoculación por decreto poético a toda persoa afeccionada á poesía, convencido de que non habería moitas vacinas máis eficaces contra a falta de sentido artístico. E se cadra unha transfusión de urxencia para aquelas persoas que aseguran non entender o xénero.

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