Apresentação de Caudal de relâmpagos, de Amadeu Baptista

Caudal de relâmpagos de Amadeu Baptista

Apresentação no Porto de Caudal de relâmpagos, de Amadeu Baptista. Com a presença também da editora Teresa Adão e o poeta Jorge Velhote. […]

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Apresentação da revista DiVersos no Porto, em Santiago e na Corunha

Revista DiVersos ~ Poesia e tradução nº 25

Nesta semana, na quarta 22 de março em Santiago (20:00 hs. na livraria Chan da Pólvora) e na quinta 23 na Corunha (no café livraria Linda Rama), a revista DiVersos – Poesia e tradução será apresentada na Galiza. São já 20 anos desde a sua fundação (1996-2016) e mais de 300 nomes da poesia que foram aqui publicados, em língua original ou traduzidos. Contaremos nos dous eventos com a presença do seu editor, o amigo José Carlos Marques, da Edições Sempre-Em-Pé, assim como com a do escritor e professor Carlos Quiroga em Santiago e o poeta Ramiro Torres na Corunha. O nosso propósito será, para além de apresentarmos uma revista de que tanto gostamos e na que nos orgulhamos em participar, tentarmos estabelecer as bases para uma colaboração permanente entre galegos e portugueses. […]

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Terra, edição de “Cultura que une”

Terra coletanea publicada de fotografos e poetas galegas e portuguesas publicada por Cultura que une 2015

Terra é um livro coletivo que reúne o fotografias e poemas de galegos e portugueses, editado por Cultura que une. […]

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Encontro na Ribeira Sacra

Na passada quinta acudi a um encontro em Chantada. O propósito era reunir-me com dous amigos, um de há longo tempo, o Vergílio Alberto Vieira, e o outro de há bem pouco, o Xosé Lois Garcia. O contexto era o Românico galego e o tema a literatura peninsular ocidental que nos coubo conhecer, com seus delírios e suas grandezas.

O Vergílio conheci-no a finais de 90, se lembro bem, quando um amigo comum, o Amadeu Baptista, nos levou à Táti Mancebo e a mim a Braga para travarmos uma nova amizade na Galécia do sul, se me permitirem a reivindicação histórica. Num ambiente de fraternidade galego-portuguesa nasceu uma relação que chega até hoje. E que implica, felizmente, a Gina, a quem gostei imenso de voltar a ver.

O Xosé Lois Garcia sempre foi para mim um referente da Galiza que, para além de teorizar sinergias, permanentemente exerceu como membro de pleno direito numa lusofonia que transcende as nescidades e misérias das políticas culturais do Estados. Lembro aquela entrevista ao Herberto Helder que realizou em 1987 para a extinta revista Luzes de Galiza, uma das escassíssimas e provavelmente a mais profunda que jamais concedeu aquele esquivo e genial poeta, referência ímpar da poesia europeia para tantos de nós. Achei-no repetidamente em todos os projetos de outro vulto da dinamização literária e da fraternidade galego-portuguesa, o António José Queiroz (que também conheci pelo Amadeu Baptista), e por isso não me admirou que fizesse parte do último júri do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, este ano concedido pela primeira vez a um autor galego, o Mário Herrero Valeiro, caro amigo desde os alvores da nossa afeição pola escrita. Assim as cousas, não podia deixar de também convidar o Garcia para participar na Palavra comum, esta nossa modesta ágora que promove o convívio fraterno de todos os filhos da galeguia, ou como se conhece habitualmente, a lusofonia, pois não pretendemos atribuir-nos mais méritos que aqueles tão humildes que no passado remoto ficárom esquecidos para tantos. Na verdade, tomamos a iniciativa desde este pequeno país europeu com vontade de apelar a uma fraternidade que gostamos de alimentar, e já vamos vendo como os velhos amigos e ainda os novos de toda a parte aparecem carregados de presentes e nos honram com seu esforço e seu talento, e já não podemos deixar de ficar gratos e satisfeitos.

Mas voltarei a Chantada e àquele memorável encontro: houvo poesia, amizade, livros, vinhos, truitas e vitela da Terra, e de tudo foi testemunha a majestosidade do Românico e o grande rio que atravessa o país e discorre por unha Ribeira que, entre todas a mais pura, acabou por se chamar de Sacra. A gente não vai acreditar, mas chegamos ao Cabo do Mundo e caminhamos polas duas beiras, uma transcendência da cartografia que só a Poesia é capaz de conceder.

{Palavra comum}

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Um pouco acima da miséria, de Amadeu Baptista

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Amadeu Baptista vence XXIX Premio de Poesia Cidade de Ourense

Conheço desde há muito o Amadeu Baptista. É, com certeza, um dos melhores poetas vivos de Portugal, afirmação que digo com toda a contundência. Melhor sem dúvida que uma miríade de nomes pertencentes à esfera universitária, tão dada à divulgação de obras pelas palestras académicas, os meios e os congressos oficiais. Amadeu Baptista é, ao contrário, um outsider, e isso paga o preço de não contar com uma vasta família de padrinhos institucionais. Porém, o poeta produz, produz sem pausa e as águas do rio da inspiração inundam o território de todos, como quando o Nilo experimenta uma irreprimível enchente e assim acontece a fertilização dos campos. Entrei no seu blogue e apanhei um poema do livro que haverá de publicar-se sob o título Um pouco acima da miséria, com responsabilidade do Concelho de Ourense. Parabéns ao poeta e aos seus leitores galegos!

MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente – de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito, como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego: o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós, de vitória em vitória, ou derrota em derrota, ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho os olhos num infinito não muito distante?

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Poemas que nacen nun ventrículo atormentado

A lectura dun novo libro de Amadeu Baptista sempre supón enfrontar unha experiencia que non me deixará impasíbel. Por iso cando comecei a ler O ano da morte de Xosé Saramago (2010) e os niveis da máquina estético-intelectual subían até máximos raramente atinxidos na lectura, nada me resultou estraño.

Posúe este libro un estilo que boga entre a tormenta da imaxe sorprendente e o mar en calma do discurso directo sobre os asuntos vitais máis vulgares. Non oculta, neste sentido, unha marcada ideoloxía naquelas cuestións da rúa que todos pisamos, nunha actitude de outsider tan habitual nel, sen obviar unha crítica mordaz das políticas ultraliberais que o pobo despoxan do que é en xustiza froito do seu suor; hai mesmo unha denuncia dos gobernos que levan a cabo o indigno espolio dunha sociedade non ben acabada de matar:

«A desgraça de um país mede-se na distância que vai das instâncias do poder à esperança dos seus habitantes, o deserto especializa-se quando a crise se amplia, chegam os usurpadores e o equilíbrio das emoções descontrola-se…».

«… o Nuno vem de Viseu, onde tão bem notou que é o crucifixo um punhal que se usa á cintura, e fazemos unha grande fogueira disto tudo, lume puxado a tudo o que seja comburente, com excepção, talvez, de L’Obsservatore Romano que no Inferno arderá com maior jurisdição».

Ofrece, ademais, poderosas referencias a unha infancia obscura e de difícil asunción que xa percibimos noutras obras do autor, e que resaltan coa dureza daquilo que sempre nos doe e á vez nos impele a realizar un esforzo permanente na procura da felicidade, algo que no poeta se manifesta como unha caza pertinaz da beleza e a verdade, dúas faces da mesma moeda:

«…Era eu criança e procurava em vão a tumba de um irmão, e uma pedra bastou para me serenar a angústia, aínda que do meu irmão nunca mais soubese, nem de minha mãe, a quem beijei por última vez a notar-lhe um ferimento no rosto, um ferimento que só a terra cicatrizará, uma terra compacta para tantos cães, uma cicatriz igual à que tenho na alma, se alma é o que na minha cicatriz se incrustou».

Mais estas ramas, a crítica política e a áspera lembranza do pasado, son aspectos do poemario que acompañan un tronco principal, unha liña vertebral de contido que fai referencia á poesía mesma, ou mellor á arte escrita en sentido amplo. Esta é a razón pola que con frecuencia aparece a reflexión sobre a propia escrita, e pola que en varias ocasións se citan no poemario José Saramago (xa no título), Herberto Helder e Nuno Dempster. Porque a experiencia da escrita, sendo íntima e estando ligada a experiencias persoais, posúe no ámbito da publicación unha vinculación co alleo, sexa o lector, os outros autores, o mundo editorial ou en xeral o sistema literario.

A pesar de ter un tamaño máis reducido, quero tamén resaltar outra obra do autor, máis recente: Atlas de circunstâncias (2012), que gañou o Prémio Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage en 2009. Utilizando de forma moi libre o soneto, presenta Baptista a figura do poeta como un ser convulso, complexo e paradoxal, facto debido á súa función de espello do mundo, esa realidade que só pode ser representada mediante unha elocuente contradición de imaxes e sons:

«O poeta deseja a clareza e é afoito a perscrutar o magma da palavra e os seus grumos. Um enigma, ao fim da tarde, retiera-lhe o poder indemonstrável das palabras…»

Presenta o libro tintes de gnosticismo laico, cunha perspectiva poética que resalta como instrumento útil para o coñecemento interior, para a perscrutación de todo aquilo que no ollar cotidiano non pode ser revelado. E, como non podía deixar de ser na obra de Baptista, aparece a infancia retratada como un estadio de alta percepción do mundo nas súas grandezas e nos seus misterios, unha sabedoría natural que non debe ser esquecida para non caermos na soberbia de nos sentir o centro do universo.

Por todo o explicado atrévome a recomendar a lectura destas dúas extraordinarias obras. Mais hei de recoñecer que, se isto non fose unha actitude inxusta, contemplaría a hipótese de impoñer a súa inoculación por decreto poético a toda persoa afeccionada á poesía, convencido de que non habería moitas vacinas máis eficaces contra a falta de sentido artístico. E se cadra unha transfusión de urxencia para aquelas persoas que aseguran non entender o xénero.

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O blogue do poeta Amadeu Baptista

O noso amigo e luminoso poeta Amadeu Baptista decidiu finalmente abrir a súa páxina persoal. Un novo espazo para petiscar algunha da mellor mao para a poesía de Portugal.

(fragmento) E é então que a saudade se expande como palavra portuguesa e eu volto à infância, enquanto tu, Dempster das Irlandas que não há, revives e oficias o K3 dessa Guiné repulsiva para que o fascismo te mandou, como se houvesse uma nova crónica do descobrimento e conquista da Guiné a ampliar a que o Zurara escreveu, e nada se cria ou se perde, e tudo se transforma, como a antiga lei nos disse, e de versos se inça o exílio que jamais projectamos e, sem mais, o acaso da vida, pelo seu ábaco infeliz, nos ordenou – e sabemos que os poemas sujam tudo, tal como os pombos, as pombas, os ratos, os pais que nos traíram, e todos os que traíam as infâncias que, como as nossas, foram vividas a golpes de marcas nos costados pela sovas iníquas que nos deram

Falemos de exemplares vivos e pios de aves, o centro da cidade é uma loja chinesa na ordem geral do mundo, nós estamos a viver algures entre a rua Formosa e a rua da Paz e o dia de hoje, claro como há muitos dias não havia, enche-se de sombras, e eis que acabam de bater as doze e quarenta e cinco e morre, em Lanzarote, José Saramago, tão pombo como nós na refrega das coisas que nos escapam entre os dedos como se não fossem mais que jangadas de pedra onde nenhum ente divino se senta à nossa mesa por um café – falemos da inexprimível solidão dos poetas, esse luto

Vejo-me como um homem calado, vejo assim os poetas, vemo-nos como homens calados que não podem estar calados, ou que estão cegos e não podem estar cegos, ou que não podem deixar de deambular na cidade, porque há uma pedra a levantar do chão, um povo a levantar, uma infância a levantar

É, foi na infância que o descontrolo se arrostou, aquele odor a sal e a vinagre palpita ainda no meu cérebro, ligamo-nos assim à terra, a olhar o interior das mercearias, dos pomares, a surpreender a alegria que se faz pela interposição do silêncio com as palavras vitais, o rego de sangue que se abriu na via do caramanchão quando ficou determinado o lugar das alucinações e se abriu a porta para um determinado ponto da cidade, esse mesmo onde caímos pela primeira vez

O que lá está é nosso e não nos pertence nunca, o olhar deslumbra-se por esses cavalos, essa estátua, esses pombos, provera a Deus e seríamos meninos para sempre com essa brisa no rosto, os barcos estão cheios de carvão, discorrem sobre eles as mulheres que pelas tábuas passam e carregam à cabeça largos cestos de vime, e é como se fossem podoas a escandir o ar, como se fossem a nossa misericórdia irremissível

(in O Ano da Morte de José Saramago, Lisboa, & Etc, 2010)

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'Os selos da Lituânia', de Amadeu Baptista

escrever pode ser, naturalmente, ter três anos, estar na praia num dia muito quente e sentir que alguém nos apanha pela cintura e mergulha nas ondas violentas de um mar revolto, ven num relance a multidão em volta, toucas amarelas, biquínis coloridos e o homem da bolacha americana, de boné enfeitado com uma âncora, a percorrer o areal em toda a extensão que vai do paredão à casa do banheiro. vir num soluço à tona da água e voltar a submergir com um grito preso na garganta para ver do mar o fundo, aquelas algas ameaçadoras num bailado aquoso que as lágrimas ainda mais adensam […].

Este libro, merecente do Prémio Edmundo Bettencurt (ex aequo), ofrécenos máis do alto nível de inspiración de Baptista á hora de traer para a mesa a memoria da infancia e con ela transcender o tempo e atinxir o universal. Pequenos acontecementos e grandes lembranzas do pasado surxen nun verso de marcado e alegre ritmo, e poboando unha sintaxe lúbrica que converte imaxes elaboradas en bocados deliciosamente accesíbeis. Poesía que transforma a nosa particular mundanidade, coas súas vitorias e traumas, en artísticos frascos con perfumes inesquecíbeis.

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