Apresentação da revista DiVersos no Porto, em Santiago e na Corunha

Nesta semana, na quarta 22 de março em Santiago (20:00 hs. na livraria Chan da Pólvora) e na quinta 23 na Corunha (no café-livraria Linda Rama), a revista DiVersos – Poesia e tradução será apresentada na Galiza. São já 20 anos desde a sua fundação (1996-2016) e mais de 300 nomes da poesia que foram aqui publicados, em língua original ou traduzidos. Contaremos nos dous eventos com a presença do seu editor, o amigo José Carlos Marques, da Edições Sempre-Em-Pé, assim como com a do escritor e professor Carlos Quiroga em Santiago e o poeta Ramiro Torres na Corunha. O nosso propósito será, para além de apresentarmos uma revista de que tanto gostamos e na que nos orgulhamos em participar, tentarmos estabelecer as bases para uma colaboração permanente entre galegos e portugueses.

O vídeo oferecido cá responde ao evento que celebramos no Porto no passado 3 de março. Animamos @s amantes da poesia a acudir aos encontros previstos para esta semana na Galiza.

*

«As origens da poesia e da música perdem-se no tempo e são indiscerníveis. Até aos trovadores medievais, pelo menos, essa associação foi sempre mais ou menos estreita. E mesmo depois disso, apesar de uma separação de onde nasce a poesia «meramente literária» cuja música passou a ser interior ao próprio texto aparentemente sem música exterior, música e poesia continuam muitas vezes entrelaçadas. Passam a ser os músicos que procuram a literatura, ora para obterem libretos de óperas, por exemplo, ora para, partindo de poemas previamente existentes, agora «musicados», darem origem a canções e melodias de que revestem o texto. É pois sobretudo no Lied, nome que de certo modo pode designar todo o género, que sobretudo se exprime a proximidade das duas artes, embora não exclusivamente. O facto de começarmos esta «etiqueta» com um poeta e um compositor escandinavos, ambos noruegueses, é fortuito. Em próximas expressões desta rubrica, outros compositores de outras pertenças e trabalhando sobre poemas de outras línguas serão escolhidos. Por vezes, refere-se que este ou aquele autor de um poema que algum grande compositor transformou numa canção ou melodia famosa não passava de um «poeta menor», em contraste com alguns outros que foram génios da poesia. Tal não nos inibirá de por vezes escolhermos algum desses poetas já que, a nosso ver, se poderá haver «poetas menores», mesmo esses poderão ter produzido poemas que não são menores. Serão pois os poemas, mais que os poetas, que nos guiarão neste exercício. Para o qual convidamos os leitores a colaborar, sugerindo poemas e compositores a incluir futuramente.

Páginas: variável (170 no nº25)
Preço: 10€
ISSN: 1645-474X

Revista DiVersos 25 A 300pxNeste número, datado de dezembro de 1996 mas em circulação a partir do início de 2017, completa-se e encerra-se a evocação do vigésimo aniversário da criação da DiVersos – Poesia e Tradução.

Poemas de um poeta grego moderno, como é o caso de Kostís Palamás traduzido por Maria da Piedade Faria Maniatoglou, prosseguem a quase constante presença de poetas gregos nas nossas páginas.

Federico García Lorca, poeta galego? É nessa língua que surge neste número um dos maiores poetas de sempre de língua castelhana. E como se verá adiante, justificadamente. Com ele aprofundamos o nosso interesse pela poesia de língua galega e ao mesmo tempo prestamos homenagem ao grande poeta andaluz no 80.º aniversário do seu assassinato.

Com o escritor norueguês Henrik Ibsen, autor dramático mas também poeta – faceta menos conhecida fora da Escandinávia -, e à semelhança do que aconteceu no n.º 23 com o tema «Poesia e Natureza», iniciamos uma nova etiqueta, «Poesia e Música», há muito acalentada mas que só agora foi possível iniciar. À poesia de Ibsen associa-se a alusão à música de Edvard Grieg, um dos maiores compositores românticos e o mais reputado compositor norueguês.

Traduzidos do inglês, apresentamos alguns poemas de Charles Simic, em tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, e de Seamus Heaney, em tradução de José Lima.

Do castelhano, poesia de Miguel Losada, confrade editor da publicação La Revista Áurea e ele próprio poeta, traduzido para português por Verónica Aranda, poetisa espanhola que mais adiante surge selecionada e traduzida a si própria para português em poemas inspirados no ambiente de Lisboa.

Quanto a poesia originariamente escrita em português, duas miniantologias de dois dos fundadores da DiVersos, Carlos Leite e Manuel Resende; alguns poemas de um dos mais importantes intérpretes do surrealismo português, Cruzeiro Seixas, aqui presentes graças aos bons ofícios de António Cândido Franco. Inês Fonseca Santos, poetisa com vários livros publicados, surge pela primeira vez nas páginas da DiVersos, tal como Júlio Henriques, que enquadrámos na etiqueta «Poesia e Natureza», embora esse não seja, de longe, o único tema da sua poesia. Nuno Félix da Costa, já anteriormente publicado na DiVersos, está aqui de novo connosco. Três poetas brasileiros, Helio Neri e Mariana Ianelli, que chegam até nós pela mão amiga de Elisa Andrade Buzzo, e Tere Tavares, que nos foi apresentada por Nuno Rebocho, completam as quase duas dezenas de poetas deste número 25. Vinte e cinco números em vinte anos – não é muito, esperamos no entanto que se revele como algo mais que uma simples teimosia.

 *

A DiVersos não tem distribuição comercial e apenas pode ser comprada diretamente ao editor, seja em números avulso seja em assinatura. Os números da DiVersos do n.º 2 (n.º 1 esgotado) ao n.º 15 custam €2,00 cada, os seguintes, €10,00 cada. Portes de correio variáveis conforme o peso. Para assinar uma série de quatro números (em Portugal: €30,00; para o estrangeiro: €38,00) ou para informações ou dúvidas, use os contactos gerais da página. Os novos assinantes ou os assinantes que renovem assinatura são convidados a escolher um dos títulos de poesia das Edições Sempre-em-Pé, que lhe será enviado gratuitamente como expressão de boas-vindas.»

[Edições Sempre-Em-Pé]

Terra, edição de “Cultura que une”

Terra é um livro coletivo editado pelo projeto transminhoto «Cultura que une», uma aposta galego-portuguesa por fazer da antiga cultura galaica comum, muito mais extensa do que os limites políticos e territoriais da atual Galiza, uma experiência do nosso tempo. Não se trata de mover ou eliminar fronteiras mas de viver como se elas não existissem, nem de concorrer pelos méritos do passado ou do pressente mas desfrutar do convívio natural a que uma mesma terra nos convida desde há milénios.

É nessa sequência que nasceu a primeira publicação de Cultura que une, um livro iluminador que tudo o conta já no título: Terra. Consiste numa coletânea de fotógrafos e poetas galegas e portuguesas que partilham por pares suas particulares maneiras de ocupar a folha em branco. De partida, as fotografias foram propostas e a seguir os poemas, inéditos e não só, foram aconchegados para fornecer outros pontos de fuga.

Fotografia: António Pinto, Anxo Cabada, Catarina Almeida, Diogo Cardoso, Fernando Ribeiro, Iván Merayo, João Madureira, Maribel Valdivieso Varela, Santi Amil, Xosé Luís Alonso.

Poesia: Alfredo Ferreiro, Amadeu Baptista, António Fortuna, Berta Dávila, Carlos Da Aira, João Madureira, José Braga-Amaral, Ramiro Torres, Virgínia do Carmo, Yolanda Castaño.

Uma versão áudio-visual dos conteúdos pode achar-se no Canal Culturaqueune.

Disponível na Galiza na livraria Aira das Letras de Alhariz e em Portugal na Traga-Mundos de Vila Real.

Fotografia Frigindo os rojoes no pote por Joao Madureira

Frigindo os rojões no pote, por João Madureira

ARDER

Arder, aquecer no pote
o tempo e perceber o doce sabor
de aquilo que nasce
aquilo que morre
aquilo que mora no bordo da existência,
como um fungo que raramente aparece
e logo se oculta, fugitivo insensato
na derme sacra da terra
nas leves asas do vento
nas iriadas brânquias do mar,
que em nenhum lugar permanece
por ser apátrida sempre
onde outros erguem bandeira
e defecam pomposamente.
Caminhar sem tempo
alargadamente num único latejo
pela imagem da lua que dança
na marisma de um pensamento cordial,
maravilha do sacro no quotidiano.

Alfredo Ferreiro. Inédito

*

«A Galiza e o norte de Portugal, filhos de uma mesma cultura que ficou truncada, não tanto na época em que D. Afonso Henriques proclamou a independência do Condado Portucalense, mas sim quando foram implantados os tratados de limitação de fronteiras por estados liberais fortemente jacobinos e centralistas ao longo do século XIX.
Nas duas primeiras décadas do passado século XX, intelectuais e criadores galegos e portugueses falaram da necessidade do reencontro. Mas as violências do século XX, nomeadamente as ditaduras, a Guerra Civil Espanhola, a repressão, as dificuldades económicas que afectaram os povos ibéricos pareceram silenciar este diálogo que, na forma de encontros entre arqueólogos, escritores, filólogos, etc., continuaram à margem do discurso oficial.
Amarante é um referente para este reencontro e também encontro. A figura de Teixeira de Pascoaes, grande admirador de Rosalía de Castro (Pascoaes escrevia a Risco que haveria de se lhe fazer uma homenagem) foi um referente simbólico para uma intelectualidade galega. E não só Pascoaes. Também Leonardo Coimbra, Santos Júnior, Carlos de Passos, Hernâni Cidade, Rodrigues Lapa, Vicente Risco, Viqueira, Noriega Varela, Castelao, Filgueira, Jenaro Marinhas del Vallhe, Valentín Paz Andrade, Carvalho Calero, são um bom exemplo de intelectuais que, em algum momento da sua vida, trabalharam para o reencontro.
Mas se é necessário o reencontro também é igualmente necessária a redescoberta de um património cultural que teve origem no território da Gallaecia romana e que teve na língua galaico-portuguesa a sua fonte de criação. O património comum galaico-português faz parte do acervo da humanidade em criações tão singulares como as cantigas medievais da nossa lírica que transparecem uma rica tradição oral onde beberam os trovadores. A cultura popular comúm que manteve a sua vitalidade até ao presente, apesar da fronteira política, debe obter o seu maior reconhecimento mediante a inscrição na Lista Representativa do Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.
A aprovação a 11 de Março de 2014 pelo Parlamento Galego da Lei Valentín Paz-Andrade, fruto de uma Iniciativa Legislativa Popular, publicada no DOG de 8 de Abril de 2014, convida-nos, e até certo ponto obriga-nos, a aprofundar o esforço do reencontro.
Para contribuir para fazer da Lei realidade, damos impulso às seguintes actividades a desenvolver em Amarante e na Corunha nesta edição de 2015, que esperamos que não seja a última. A eleição destas duas cidades para a presente edição não é arbitrária. Se Amarante tem a força simbólica de Pascoaes, a cidade da Corunha é onde está a sede da Academia Galega, instituição civil constituída por aqueles que pensavam no ressurgimento da Galiza.
»

{Cultura que une}

Proximamente culturaqueune.com

Encontro na Ribeira Sacra

Na passada quinta acudi a um encontro em Chantada. O propósito era reunir-me com dous amigos, um de há longo tempo, o Vergílio Alberto Vieira, e o outro de há bem pouco, o Xosé Lois Garcia. O contexto era o Românico galego e o tema a literatura peninsular ocidental que nos coubo conhecer, com seus delírios e suas grandezas.

O Vergílio conheci-no a finais de 90, se lembro bem, quando um amigo comum, o Amadeu Baptista, nos levou à Táti Mancebo e a mim a Braga para travarmos uma nova amizade na Galécia do sul, se me permitirem a reivindicação histórica. Num ambiente de fraternidade galego-portuguesa nasceu uma relação que chega até hoje. E que implica, felizmente, a Gina, a quem gostei imenso de voltar a ver.VAVieira_Gina_XLGarcia_AFerreiro_800

O Xosé Lois Garcia sempre foi para mim um referente da Galiza que, para além de teorizar sinergias, permanentemente exerceu como membro de pleno direito numa lusofonia que transcende as nescidades e misérias das políticas culturais do Estados. Lembro aquela entrevista ao Herberto Helder que realizou em 1987 para a extinta revista Luzes de Galiza, uma das escassíssimas e provavelmente a mais profunda que jamais concedeu aquele esquivo e genial poeta, referência ímpar da poesia europeia para tantos de nós. Achei-no repetidamente em todos os projetos de outro vulto da dinamização literária e da fraternidade galego-portuguesa, o António José Queiroz (que também conheci pelo Amadeu Baptista), e por isso não me admirou que fizesse parte do último júri do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, este ano concedido pela primeira vez a um autor galego, o Mário Herrero Valeiro, caro amigo desde os alvores da nossa afeição pola escrita. LivrosXLGarcia_VAVieira_AFerreiro_600Assim as cousas, não podia deixar de também convidar o Garcia para participar na Palavra comum, esta nossa modesta ágora que promove o convívio fraterno de todos os filhos da galeguia, ou como se conhece habitualmente, a lusofonia, pois não pretendemos atribuir-nos mais méritos que aqueles tão humildes que no passado remoto ficárom esquecidos para tantos. Na verdade, tomamos a iniciativa desde este pequeno país europeu com vontade de apelar a uma fraternidade que gostamos de alimentar, e já vamos vendo como os velhos amigos e ainda os novos de toda a parte aparecem carregados de presentes e nos honram com seu esforço e seu talento, e já não podemos deixar de ficar gratos e satisfeitos.

Mas voltarei a Chantada e àquele memorável encontro: houvo poesia, amizade, livros, vinhos, truitas e vitela da Terra, e de tudo foi testemunha a majestosidade do Românico e o grande rio que atravessa o país e discorre por unha Ribeira que, entre todas a mais pura, acabou por se chamar de Sacra. A gente não vai acreditar, mas chegamos ao Cabo do Mundo e caminhamos polas duas beiras, uma transcendência da cartografia que só a Poesia é capaz de conceder.

{Palavra comum}

Um pouco acima da miséria, de Amadeu Baptista

Amadeu Baptista vence XXIX Premio de Poesia Cidade de Ourense

Conheço desde há muito o Amadeu Baptista. É, com certeza, um dos melhores poetas vivos de Portugal, afirmação que digo com toda a contundência. Melhor sem dúvida que uma miríade de nomes pertencentes à esfera universitária, tão dada à divulgação de obras pelas palestras académicas, os meios e os congressos oficiais. Amadeu Baptista é, ao contrário, um outsider, e isso paga o preço de não contar com uma vasta família de padrinhos institucionais. Porém, o poeta produz, produz sem pausa e as águas do rio da inspiração inundam o território de todos, como quando o Nilo experimenta uma irreprimível enchente e assim acontece a fertilização dos campos. Entrei no seu blogue e apanhei um poema do livro que haverá de publicar-se sob o título Um pouco acima da miséria, com responsabilidade do Concelho de Ourense. Parabéns ao poeta e aos seus leitores galegos!

MURMURAÇÃO DE LEÓN TROTSKY NO SEU LEITO DE MORTE

Natália Sedova, olha-me, peço-te que me olhes fixamente
– de mim não escutarás um único gemido, mas dir-te-ei
que a última flor do terrífico é a beleza, como te disse há muito,
como repetidas vezes te disse e agora repito neste meu último fôlego:
o terrífico é a beleza, tal como tudo é neve em nós,
de vitória em vitória, ou derrota em derrota,
ou um verso aterrador de Pushkin ou Maiakovski.

Não vês a revolução permanente neste trapo vermelho
enrolado à volta da minha cabeça, enquanto ponho
os olhos num infinito não muito distante? […] Ler mais