Cultura que Une: Letras Galegas 2016

Proximamente acudiremos a Alhariz e Vilar de Santos para falarmos da nossa revista palavracomum.com e do último projeto de edição do Grupo Surrealista Galego.Cultura que une: Letras Galegas 2016

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Liberdade, do Grupo Surrealista Galego

Liberdade, caixa de artistas ou objeto-livro criado polo Grupo Surrealista Galego e produzido artesanalmente por Manchea a partir da versão galega do poema homónimo de Paul Eluard, realizada por Xoán Abeleira. Com gravuras de Alba Torres, Ana Zapata, Alfredo Ferreiro, Laura Sánchez e Tono Galán.

À venda aqui. Contato: Laura Sánchez e Tono Galán: mailsamanchea@gmail.com.

Nota: A foto acima foi tirada na apresentação do Natal de 2015, em que os aviões da Liberdade voárom de novo.

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A Ideia, revista de cultura libertária

A ideia ~ Revista de cultura libertária 73-74O número duplo nº 73/74 da revista de cultura libertária “A Ideia” oferecia no ano passado mais de 250 páginas dedicadas ao Surrealismo e ao Café Gelo. O António Cândido Franco, diretor da revista, é um velho amigo da Galiza que gostamos imenso de reencontrar. O redator adjunto, o João Mendes de Sousa, é um artista com quem nos sentimos à vontade. E assim as velhas relações e as novas se encontram no mesmo coração, mercê à persistência da musa em tempos tão adversos, e o caminho se revela certo.

Lemos a revista e gostamos da sua variedade nos assuntos e nas plumas: Agostinho da Silva, Alfredo Margarido, Alexandre Vargas, Ângelo Lima, António Barahona, António Cândido Franco, António Gonçalves [“Henrique Risques Pereira”], António Telmo, Benjamim Péret, Fiame Hasse Pais Brandão, Gonçalves Correia [sobre Brito Camacho], Joaquim Palminha da Silva, Jorge Leandro Rosa, José Hipólito Santos [“Um militante libertário: Moisés Silva Ramos], José Maria Carvalho da Silva, Luís Amaro, Manuel de Castro [dossier de/sobre este poeta], Manuel Hermínio Monteiro, Manuel Silva, Maria Estela Guedes, Maria de Fátima Marinho, Miguel Carvalho, Nuno Júdice, Paulo Borges, Pedro Martins, Pedro Oom, Raul Leal, Rui Sousa, Sérgio Lima, Sofia Carvalho, Teixeira de Pascoaes, Virgílio Martinho.

Do Agostinho da Silva, sobre um livro de António Telmo (autor de preferência na minha humilde biblioteca dedicada à tradição esotérica galego-portuguesa), gostei de ler uma referência à Galiza:

«[…] O que António Telmo nos vai levantando neste seu livro ou colecção de ensaios e depois de, apesar de tudo, ainda dar um ar de sua graça académica no primeiro capítulo, é extremamente importante para o entendimento do que somos no mundo, nós galegos, ou nós brasileiros, ou nós portugueses. Bom seria que os científicos pusessem de lado a irritação que talvez o escrito lhes cause e averiguassem tudo o que por ali se diz a respeito de maniqueísmo na mentalidade de cultura lusíada, de priscilianismo ainda tão mal averiguado, de culto do Espírito Santo de que tão imperfeitamente se conhecem as ligações aragonesas e catalãs ou os caminhos sicilianos, de conceitos de paraísos futuros, que conviria talvez ligar com a história da Comuna de Münster e as ideias de Jan de Leide quanto a uma Quinta Monarquia e a uma segunda vinda de Cristo.

O mal dos nossos científicos não está propriamente em serem científicos, o que é excelente; está em se fazerem de científicos, como se bastasse para isso passarem seus concursõezinhos de cátedra e ficarem depois remoendo, plácidos, a ração de alcofa oficial; e está muito em se educarem em escolas de Europa, aplicando depois ao que não é Europa, e espero que nunca o seja, critérios europeus, casos de história cultural europeia, perspectivas europeias.  O resultado é que nunca ninguém se debruçou sobre o complexo galaico-português, que vem desde Paio Soares e D. Sancho a José Régio e Castelao, quaisquer que tenham sido as aventuras da História, e daí, atravessando os mares, se enriqueceu produzindo o Brasil, futuro senhor cultural do mundo, com olhos verdadeiramente portugueses, porque só se encontra no exterior o que se é por dentro […]». [pp. 160-161]

A IDEIA (cartaz de 2015)_versão finalO Portal Anarquista, em colaboração com “A Ideia” disponibilizou o PDF desta edição. E se isto foi quanto aos números e 2014, temos notícia de que o volume correspondente aos números 75-76 já está a ser apresentado em Portugal. Aguardamos impacientes a nova publicação, em que aliás muito nos honra ter podido incluir uma breve colaboração do Grupo Surrealista Galego.

Quem quiser adquirir a revista em suporte de papel pode pedi-la para o seguinte endereço: A Ideia – Rua Celestino David, 13º-C, 7005-389 Évora. O donativo recomendado para cada exemplar é de 20 euros que podem ser pagos por transferência bancária para o NIB 00350 73400014449400 13.

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Liberdade, objeto-livro do Grupo Surrealista Galego

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No sábado 26 de dezembro, às 19:00 horas, na Casa Museu Casares Quiroga (Rua Panadeiras, 12) da Corunha, será apresentada Liberdade, caixa de artistas ou objeto-livro criado polo Grupo Surrealista Galego e produzido artesanalmente por Manchea a partir da versão galega do poema homónimo de Paul Eluard, realizada por Xoán Abeleira. Com gravuras de Alba Torres, Ana Zapata, Alfredo Ferreiro, Laura Sánchez e Tono Galán.

O prezo é de 25 euros (gastos de envio incluídos para Galiza e Espanha). Contacto: mailsamanchea@gmail.com (Laura Sánchez e Tono Galán). Também na livraria da Corunha: Berbiriana. Libros e grolos (Rua Santiago, 7).

Mais informação.

{Grupo Surrealista Galego}

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<em>Esplendor arcano</em>: Licuacións na materia

Lino García Salgadoesplendorarcano_ramirotorres: «Por veces falar de poesía leva consigo determinados riscos, afortunadamente nada dramáticos, sobre todo á hora de enfocar a súa lectura ou no xeito no que determinados autores e autoras quedan encadrados en adxectivos tan esplendorosos dos que é difícil fuxir. Ramiro Torres escribe poesía surrealista, tal e como se desprende da súa propia definición ao formar parte do colectivo de escritores surrealistas galegos, mais… quizais isto non sexa o importante, non para el senón para quen tivemos a oportunidade de gozar dos seus poemas dende un punto de vista máis aséptico e acabamos descubrindo un mundo líquido que navega polos nosos interiores a pouco que nos deixemos.

Fóra dos retrousos típicos e tópicos teremos que devolver as formas aos seus comezos, tal e como sinala Ramiro en parte dun poema de Esplendor Arcano. E como de xerme vivimos tamén dos seus versos podemos respirar en plenitude unha chuvia variada de vocabulario tan diverso como ben empregado dando apertura, en case todo o libro, a historias paralelas que semellan competir nunha carreira de fondo para ver quen chega antes ao padal do/a lector/a. Pero non soamente somos illas senón fontes bravas de materia configurando esa materia do universo que é a nosa medula sen dividir a parte máis vexetal da ósea. Perpetuar os hábitos encol da imaxinación nutre o perfil arcano que temos e no que Ramiro incide dun xeito valente e decidido, onde se recobra a efervescencia natural que nos fai sacudir de frío as arterias obstruídas dando paso á beleza desa ascendencia solar da que nos fala.

[…] Ler mais

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Exposición e recital no “Local dipoñible – Almacén cultural”

Tati Mancebo. Fotografía de Xacobe Meléndrez. Obras do fondo de Ada PortoRevisión 17/12/2013: «O sábado 14 de decembro tivo lugar a primeira actividade dentro do proxecto Local dispoñible, almacén cultural. Case un centenar de persoas puideron desfrutar do recital de poesía dos membros do Grupo Surrealista Galego.

Alfredo Ferreiro. Fotografía de Xacobe Meléndrez. Obras do fondo de Ada PortoXoán Abeleira comezou a súa intervención presentando o grupo e rompeu o xeo cun audio no que el mesmo recitaba mentres Alberto Laso acompañaba coa música. Alfredo Ferreiro deu un bo avance do seu novo poemario Teoría das ruínas, aínda inédito e Tati Mancebo agradeceu a Raúl Doval o tempo pasado como docente na Academia Roma, que durante moitos anos estivo neste local. Seguiu François Davo, que repartiu versos manuscritos en tarxetas postais, conseguindo así a intervención do público, Begoña Paz, con poemas que pasaron veloces como raiolas de luz, moi fermosos e pechou Ramiro Torres que recitou poemas do seu libro Esplendor arcano. Despois todas e todos compartimos un viño, conversa e visitamos as salas nas que están expostas as obras de Xacobe Meléndrez, Ada Porto e Inma Doval, fotografía, pintura, gravado e escultura.» {Colectivo Arteu}

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Xesús González Gómez:

Fin das baduadas: a modo de manifesto que non o é

Versos Fatídicos, por Alfredo Ferreiro (Positivas, 2011)XGG: «André Breton, como Benjamin Péret, Aragon e outros, mesmo algún Paul Éluard, foi na súa mocidade contaminado polo proxecto mallarmeano do libro total: do Libro. De aí que o surrealismo, aínda que no momento da súa aparición dea as costas ao simbolismo, as súas raíces simbolistas, nunca rompeu, todo o contrario, co pensamento do Libro, cun proxecto do libro total que compromete tamén todo o seu destino comunitario e que o constitúe fundamentalmente nun proxecto comunitario. Porque o Libro de Mallarmé é tamén isto, ou sobre todo isto: o nome da esixencia comunitaria que atravesa, que marca a ferro a literatura moderna, dos románticos alemáns a algúns grupos denominados de vangarda, ante todo o surrealismo, a pasar precisamente por Mallarmé.

O surrealismo é, xa que logo, unha esixencia comunitaria, como ben percibiu Jules Monnerot en La poésie moderne et le sacré. (Non imos enguedellarnos, mais, talvez, esa esixencia comunitaria –nada a ver co comunitarismo– do surrealismo estea atravesada, ou alicerzada, no Contrato social roussoniano). Como esixencia comunitaria é tamén, sempre falamos do surrealismo, unha esixencia poética: a poética da existencia, que é a poética última e verdadeira do surrealismo. Estas esixencias, comunitaria e poética, conducen a que, aínda que diferentes entre si, os poemas, os textos surrealistas gocen dunhas constantes (constantes que chegan a dominalos?). Constantes, que non tópicos, tanto no sentido retórico como no cotián. Constantes que, dunha ou outra maneira, se manifestan nos poemas dos poetas surrealistas1. Isto pode comprobalo doadamente un lector interesado folleando con certa atención calquera antoloxía de poesía surrealista, francesa ou non.

Nós, neste artiguiño a modo de manifesto que non o é, non imos facer tal cousa. Si algo semellante, con dous poetas surrealistas e galegos, con dous libros de poemas surrealistas: Versos Fatídicos (1994-2010), de Alfredo Ferreiro (Edicións Positivas, 2011), e Esplendor arcano, de Ramiro Torres (Edición do autor, 2012)).

Versos fatídicos e Esplendor arcano son dous poemarios ben diferentes entre si, aínda que estean atravesados (alicerzados) por unha mesma poética literaria e –avanzámolo – pola esixencia poética surrealista: a poética da existencia. Afirmamos que son dous poemarios diferentes entre si, o que, a pesar do que levamos dito e afirmado, é certo. Aínda que teñan temas comúns, visados, en certa maneira, desde unha mesma óptica, mais, por exemplo, a evidencia irónica está máis presente en Ferreiro que en Torres. Ou, por exemplo, a presenza da morte –a contrario– é máis nítida en Torres que en Ferreiro. Neste último a morte, máis por ausencia que por presenza, inscríbese na continuidade das metamorfoses surreais. Torres, pola súa parte, procura un equilibrio entre o enigma que é a morte e as liñas de forza que son amor, liberdade e poesía. Etcétera.

Non imos continuar –talvez outro día– desvelando diferenzas entre os dous poemarios (diferenzas, maticemos, non xerárquicas), xa que o que nos trouxo aquí foron precisamente as coincidencias profundas entre un e outro libro, entre un e outro poeta.

Cando o lector, un lector, inicia a lectura destes dous poemarios, Versos fatídicos co poema ‘Visión do médium’ Esplendor arcano con ‘Amor esplendendo no…’, e continúa, o primeiro que percibe é a fonda implicación en ambos poetas do eu. Tanto do eu persoal como do eu poético, que chegan a se confundiren, a se fundiren. E tanto nun como noutro poeta, nun como noutro libro, aínda que non estea fondamente atento, o lector percibirá fortemente, mesmo como se se producise un choque físico entre a vista e o papel, entre a vista e as letras, a aparición dunha nova persoa poética: a primeira do plural.

O nós non maiestático, senón o nós comunitario. Na páxina 23, en Esplendor arcano

Somos espuma de
uma idade vindoura,
afastando-nos do medível,
abstraídos perseguidores
de uma língua arrincada
aos sentidos, aquecendo-se
na contraluz do universo à
espera do seu percurso
enigmático dentro de nós.

Inmediatamente, na páxina 18, en Versos fatídicos:

Figura do tempo
Camiñamos
para unha especie de esencia
continuamente. Somos,
errantes na planicie,
vítimas do vento astral.
Na demora da vida
devoramos o traxe salgado da alma.
Só entón permanecemos fieis
á esfera celeste.
Escravos do sopro que nos arrastra.

 A noite é un niño invertido.
Presentimos o tempo
no puro ritmo do latexo.
Resucita unha estrela
cando o sol
no péndulo se enforca.

Se o lector le con atención os dous libros, axiña percibirá, malia as diferenzas entre un e outro poeta –diferenzas de son, de ton, de ritmo, se se quere; mais diferenzas debidas sobre todo á forte voz persoal de cada un dos poetas, de Torres como de Ferreiro–, unha corrente subterránea, que aflora no conxunto de cada un dos poemarios: a esixencia comunitario-poética do surrealismo. Por que, por fin!, estamos perante dous libros de poemas surrealistas, perante dous poetas surrealistas, os primeiros –xa non os únicos– da literatura galega, da poesía galega. O surrealismo en Galicia, até hoxe mesmo, era unha influencia retórica (tanto en pintores como en poetas), ben ou mal peneirada, segundo o poeta ou o pintor; mesmo en algún poeta chegou a ser unha influencia poética-ideolóxica, mais sen chegar ao final, é dicir, sen asumir as esixencias comunitarias, éticas, políticas, poéticas do surrealismo.

Hoxe podemos dicir que o surrealismo xa existe na poesía galega mercé a dous poetas: Alfredo Ferreiro e Ramiro Torres, e a dous libros: Versos fatídicos e Esplendor arcano. Poetas surrealistas non só porque se reclamen do surrealismo, porque fagan poemas surrealistas, porque se ateñan ás esixencias do surrealismo, senón porque mediante unha dupla modalidade da consciencia –ver Signe ascendent, de André Breton– , poética e prosaica, son quen de disipar a ambigüidade que pesa a noción de surreal.

O termo, malia a quen lle pese, non designa unha realidade ontolóxica diferente. O surreal non é o sobrenatural. O surreal, ontoloxicamente, non é outra cousa que o real, mais fenomenoloxicamente transfigurado por esa especie de superconsciencia que só a poesía é quen de darnos. É entón, como nos demostran estes dous poetas, estes dous poemarios, que o mundo aparece con ese rostro conmovedor, exaltante, convulsivo que responde soamente ao desexo dos que o habitan.

O home, en tanto que animal e como o animal, procura o equilibrio mediante a redución das tensións; como espírito, pola contra, procura o desequilibrio, de aí esa necesidade de intensidade, de risco e de drama, de tensión e de paixón en que se sitúa o camiño a cuxo final, quizais, podería cambiarse a vida. Polo que sei, polo que vento, novos poetas surrealistas están a aparecer: é un gran día para todos nós.

Acabáronse as baduadas, de agora en adiante, cando se fale de surrealismo en Galicia, na literatura galega falarase con propiedade, que se di popularmente, sen necesidade de contarmos historias non verdadeiras e de inventarmos o que nunca existira até hoxe.» {Publicado en Fin das baduadas: a modo de manifesto que non o é – Praza Pública}

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De Herberto Helder, demónio inocente, a Ramiro Torres, apaixonado vidente

Herberto Helder, que desde 2008 não publicava livro, publicou Servidões neste maio passado, composto por dez páginas de prosa autobiográfica e setenta e três poemas inéditos. Mas não tomem pressa, que a obra já ficou esgotada, como acostuma a acontecer.

O Herberto, sim, esgota seus livros em semanas, a pesar de a poesia ser um gênero que não se vende bem. A pesar de o poeta não se interessar com as vendas, as entrevistas e a fina-flor do mundo intelectual. Porque o poeta, como ele amostra sem ter que dizê-lo por um altifalante, não é um literato. Embora se possa servir da literatura, como todo o mundo, se for preciso.

Nunca li, em livros do Helder, tantos versos sentindo tanto e ao mesmo tempo os compreendendo tão pouco. Se calhar essa é mesmo uma técnica para nos abrir os olhos ao que realmente importa, a aquilo que só na escuridão do pestanejo se sente. Porque o livro todo é o dó-de-peito de um guerreiro de oitenta e três anos com toda a poesia da vida carregada na mão, pronta para nos disparar como a peças adormecidas que não sabem fugir.

É, na realidade, uma obra que revela o compromisso profundo com a procura da verdade, aquela que se oculta na floresta do coração assim como aquela que vagueia pelos caminhos de uma nossa sociedade que, melhor que evoluir, simplesmente se arrasta. A verdade que não só ao poeta corresponde procurar, mas à alma que tenta cumprir o seu destino contra as forças demoníacas que a sepultam e a alimentam.

Uma nota final para aqueles que asseguram não saber bem o que a poesia é, ou ainda para aquelas pessoas que dizem ser chegados os tempos em que a metáfora deve ser posta em questão. Tomemos este verso: “Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência”. Reparemos no verbo que fala da nossa existência, depois no advérbio que nos inculca a nódoa da maldade e finalmente no substantivo que nos exime de toda culpa. Não é, porventura, esta uma definição mestra da nossa vida, uma existência tão talhada pelas circunstâncias quanto pelos erros a que nos conduz o egoísmo? Não somos injustos em um mundo injusto?

A poesia autêntica não é fácil. O poeta não escreve para nós. Mas através do poema, eis a magia, descobrimos todo o que nos une por uma linha impossível de ver.

Ramiro Torres, de quarenta anos, apresentou uns meses antes que o velhote o seu primeiro poemário, Esplendor arcano. Um livro editado pelo Grupo Surrealista Galego, de que ele mesmo faz parte, e uma publicação a que o autor se viu impelido pelo resto do grupo, farto de sofrer a falta de egocentrismo do Ramiro, uma atitude sem dúvida virtuosa mas que convertia a natural vaidade dos companheiros em uma experiência dilacerante.

No livro, são os arcanos da existência que são perscrutados pelo poeta. A poesia penetra na fase saturnal onde o corpo se revela em todo o seu esplendor, a mostrar um seu fresquio natural ao tempo que a “harmonia transversal que trespassa o caos”. Em consonância, o estilo oferece constantes contrastes térmicos, cromáticos, tácteis, substanciais… Da matéria excitada surge o mundo espiritual, como sublimação de aquela.

O discurso ilumina-se com descrições a modo de summa de epifanias sapienciais, de catálogo de eventos gnósticos, de compêndio de casos em que a sabedoria, como vulcão, cospe matéria iluminada, vestígios de Verdade. É Esplendor arcano, em definitivo uma meditação sobre a vida, e esta apenas um sonho acesso, flamejante quando percebemos a natureza sacra do nosso ateísmo. Porque somos um vestígio do nosso futuro, e do mesmo modo que há uma árvore dentro de uma semente também há um ser harmônico dentro de nós; desse futuro, quando inspirados pela escritura ou a leitura, ligamos para nós próprios mercê à poesia: “Somos espuma de / uma idade vindoura” (p. 23). O arcano é, afinal, a fórmula do imanente, uma verdade que havemos de abstrair, compilar e interpretar enquanto não deixamos de apanhar as sujas pedras do caminho, ruínas do que seremos se cumprirmos o destino.

Vejamos agora um verso do poeta para ilustrar de novo a potência da metáfora: “Vulva da ciência órfica”. De que se trata, de uma visão carnal, científica ou esotérica? Sem dúvida das três em uma sorte de harmonia forçada, como uma imagem que se dispersa em três direções e ao tempo se alimenta de três mundos: o orfismo traz para a mesa o mistério, a ciência propõe o método e a vulva implica a matriz universal. Mais uma vez o poeta se contradiz, e na contradição, como uma pinga de chuva pinta no céu gris um abano colorido.

Esplendor arcano é também uma obra esgotada, ainda que se podam sempre achar exemplares novamente impressos a pedido dos mais perspicazes. São vários centos de livros os vendidos apesar da muito escassa presença em livrarias. Poesia que vende, sem vontade comercial. Porque este poeta também não faz literatura, embora se poda servir dela, como todo o mundo, se for preciso.

Alfredo Ferreiro {Publicado en Praza Pública}

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