Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, José António Lozano, Pedro Casteleiro, Poesia, Ramiro Torres

Herberto Helder, in memoriam

Ontem soubemos que um dos vultos da poesia europeia contemporânea, o poeta português Herberto Helder, iniciou o caminho de retorno. Se calhar ele nunca chegou a saber até que ponto foi o grande referente da poesia moderna para alguns de nós, neste pequeno país chamado Galiza que, sendo o berço certo da lusofonia, esquece cada dia a sua cultura enquanto sorve desesperado as essências da poesia. Somos assim, contraditórios até ao paroxismo, e isso talvez é que nos faz humanos e divinos, efémeros e eternos.

Obscuro e luminoso ao tempo, Helder foi um exemplo de compromisso com o trabalho interior que a poesia impõe, e que pouco tem a ver com a literatura, esse objeto mercantilizado que coisifica a espiritualidade da arte, mede o esforço, calcula os ganhos e contabiliza os aplausos: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós […]». Por isso nós hoje queremos escrever tão só umas breves linhas de homenagem, breves, seguindo a recomendação do mestre, porque é que a nós, mais do que a ele, dirão respeito. Continue reading

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Críticas e referências, Poesia

A partir d’ A morte sem mestre, de Herberto Helder

A morte sem mestre, de Herberto HelderA morte sem mestre é um livro triste. Tanto, que já me quer parecer que o poeta se tem tornado nas últimas obras um dos poetas mais tristes que deu Portugal. Por isto, ademais de pelo fato de sempre me fazer tremer com cada nova obra, deixo este poema a modo de reflexão ou crítica não sei se com a obra do poeta ou melhor com toda a Humanidade:

Ao Herberto Helder

A vida sem morte

O H. H. de tanto descrever o espanto
se tornou um animal convulso e extasiado
que tão só quer ser um homem.
Não admira por isso que nos poemas
devore os dedos enquanto conta
o que resta para o próximo assalto,
monstro octogenário catapultado da infância
que espreita passadas infâmias,
brigas em que falece e renasce
enquanto amamenta uma mágoa.

{Palavra comum, 03/09/2014}

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Críticas e referências, Lusofonia, Poesia

De Herberto Helder, demónio inocente, a Ramiro Torres, apaixonado vidente

Herberto Helder, que desde 2008 não publicava livro, publicou Servidões neste maio passado, composto por dez páginas de prosa autobiográfica e setenta e três poemas inéditos. Mas não tomem pressa, que a obra já ficou esgotada, como acostuma a acontecer.

O Herberto, sim, esgota seus livros em semanas, a pesar de a poesia ser um gênero que não se vende bem. A pesar de o poeta não se interessar com as vendas, as entrevistas e a fina-flor do mundo intelectual. Porque o poeta, como ele amostra sem ter que dizê-lo por um altifalante, não é um literato. Embora se possa servir da literatura, como todo o mundo, se for preciso.

Nunca li, em livros do Helder, tantos versos sentindo tanto e ao mesmo tempo os compreendendo tão pouco. Se calhar essa é mesmo uma técnica para nos abrir os olhos ao que realmente importa, a aquilo que só na escuridão do pestanejo se sente. Porque o livro todo é o dó-de-peito de um guerreiro de oitenta e três anos com toda a poesia da vida carregada na mão, pronta para nos disparar como a peças adormecidas que não sabem fugir.

É, na realidade, uma obra que revela o compromisso profundo com a procura da verdade, aquela que se oculta na floresta do coração assim como aquela que vagueia pelos caminhos de uma nossa sociedade que, melhor que evoluir, simplesmente se arrasta. A verdade que não só ao poeta corresponde procurar, mas à alma que tenta cumprir o seu destino contra as forças demoníacas que a sepultam e a alimentam.

Uma nota final para aqueles que asseguram não saber bem o que a poesia é, ou ainda para aquelas pessoas que dizem ser chegados os tempos em que a metáfora deve ser posta em questão. Tomemos este verso: “Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência”. Reparemos no verbo que fala da nossa existência, depois no advérbio que nos inculca a nódoa da maldade e finalmente no substantivo que nos exime de toda culpa. Não é, porventura, esta uma definição mestra da nossa vida, uma existência tão talhada pelas circunstâncias quanto pelos erros a que nos conduz o egoísmo? Não somos injustos em um mundo injusto?

A poesia autêntica não é fácil. O poeta não escreve para nós. Mas através do poema, eis a magia, descobrimos todo o que nos une por uma linha impossível de ver.

Ramiro Torres, de quarenta anos, apresentou uns meses antes que o velhote o seu primeiro poemário, Esplendor arcano. Um livro editado pelo Grupo Surrealista Galego, de que ele mesmo faz parte, e uma publicação a que o autor se viu impelido pelo resto do grupo, farto de sofrer a falta de egocentrismo do Ramiro, uma atitude sem dúvida virtuosa mas que convertia a natural vaidade dos companheiros em uma experiência dilacerante.

No livro, são os arcanos da existência que são perscrutados pelo poeta. A poesia penetra na fase saturnal onde o corpo se revela em todo o seu esplendor, a mostrar um seu fresquio natural ao tempo que a “harmonia transversal que trespassa o caos”. Em consonância, o estilo oferece constantes contrastes térmicos, cromáticos, tácteis, substanciais… Da matéria excitada surge o mundo espiritual, como sublimação de aquela.

O discurso ilumina-se com descrições a modo de summa de epifanias sapienciais, de catálogo de eventos gnósticos, de compêndio de casos em que a sabedoria, como vulcão, cospe matéria iluminada, vestígios de Verdade. É Esplendor arcano, em definitivo uma meditação sobre a vida, e esta apenas um sonho acesso, flamejante quando percebemos a natureza sacra do nosso ateísmo. Porque somos um vestígio do nosso futuro, e do mesmo modo que há uma árvore dentro de uma semente também há um ser harmônico dentro de nós; desse futuro, quando inspirados pela escritura ou a leitura, ligamos para nós próprios mercê à poesia: “Somos espuma de / uma idade vindoura” (p. 23). O arcano é, afinal, a fórmula do imanente, uma verdade que havemos de abstrair, compilar e interpretar enquanto não deixamos de apanhar as sujas pedras do caminho, ruínas do que seremos se cumprirmos o destino.

Vejamos agora um verso do poeta para ilustrar de novo a potência da metáfora: “Vulva da ciência órfica”. De que se trata, de uma visão carnal, científica ou esotérica? Sem dúvida das três em uma sorte de harmonia forçada, como uma imagem que se dispersa em três direções e ao tempo se alimenta de três mundos: o orfismo traz para a mesa o mistério, a ciência propõe o método e a vulva implica a matriz universal. Mais uma vez o poeta se contradiz, e na contradição, como uma pinga de chuva pinta no céu gris um abano colorido.

Esplendor arcano é também uma obra esgotada, ainda que se podam sempre achar exemplares novamente impressos a pedido dos mais perspicazes. São vários centos de livros os vendidos apesar da muito escassa presença em livrarias. Poesia que vende, sem vontade comercial. Porque este poeta também não faz literatura, embora se poda servir dela, como todo o mundo, se for preciso.

Alfredo Ferreiro {Publicado en Praza Pública}

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Ensaio, Lusofonia, Pedro Casteleiro

De amor e desamor (e outros indícios)

De Amor e DesamorEra uma vez um jovem que ansiava aprender a arte da transformação do metal em ouro. Foi então ter com um afamado alquimista da região e pediu-lhe para ser o seu discípulo, mas o mestre, depois de interrogá-lo acerca da sinceridade da sua intenção, pô-lo a trabalhar na oficina da forja das espadas. Aí devia permanecer um tempo –como lição inicial. Decorreu um ano, e o discípulo, ansioso, perguntou ao mestre quando é que começaria a aprender os segredos da elaboração do ouro, mas o mestre apenas lhe indicou que devia passar ainda mais tempo na forja das espadas. O jovem crescia e tornava-se dia a dia um forjador mais destro e, apesar de que de vez em quando tornava a perguntar ao alquimista pelo anelado início das aulas áureas, o mestre continuava a negar-lhe aquela lição.

Mas um dia, depois de já vários anos, em que o discípulo se encontrava a trabalhar numa belíssima espada, o velho mestre indicou que era chegado o momento de encetar a tarefa dourada: e o discípulo, quase sem retirar o olhar concentrado no gládio que nascia, disse ao mestre “deixa-me, por favor, ó mestre, agora estou ocupado a forjar esta espada”. Como esta história é a minha, contar-vo-la-ei: de outra maneira.

Com o título da dupla antologia de poesia publicada em 1984 e 1985, que encabeça este texto, queria aludir a uma constelação de poetas, não restrita aos membros daquele colectivo corunhês, cuja sensibilidade, cujo coração, a alguns de nós iniciou de certo modo a um mundo maior, no que diz respeito aos impactos procedentes da própria Galiza. Os posteriores poetas daquele fim de século, daquele fim do mundo, largamente imersos como estávamos na actividade criativa, na navegação às escuras que implica, no meu caso talvez desde que Celso Emílio Ferreiro enviou às mãos sua energia de palavras nocturnas, de longas noites, encetávamos a forja das espadas na época em que se publicava De Amor e Desamor. Por mim passara antes a palavra popular de Bernardino Graña, com a sua infantil e sublime imantação, que me ensinou a recitar em inglês aquele trecho inelutável do Hamlet, num bar da adolescência ferrolana, para embalar-nos logo com o miar do «gato da tasca marinheira»; talvez perto dos areais de Cangas, por onde caminhava a Maria Solinha, vítima da Inquisição que Celso Emílio ressuscitara.

Percorridos os caminhos para além do rio, do rio da desmemória, achada palavra comum, e conhecida –pelo acaso daquela exumação dos anos 80– a escrita desse senhor obscuro, volátil e certo, de máscara ou Pessoa retirada, intercambiável. E com este passeando por Lisboa até, surpreendentemente, os dias de hoje. Conhecemos alguns dos seus parceiros, nessa infindável partida de xadrez, alheia a tudo, omnicompreensiva: de olhos fechos fomos conduzidos aos lugares secretos do Álvaro de Campos, o Alberto Caeiro e ao mundo pagão do Ricardo Reis, aonde ficámos um tempo –um tempo que em mim permanece.

E como o tempo não existe, conhecemos ao seu tempo Manuel António e Guerra Junqueiro, sua Oração ao Pão; aqueles doces indóceis anarquistas.

Xosé Maria Álvarez Cáccamo, em Vigo, cercado pelas ondas e envolvido no atro crime de devolver a poesia do noroeste para o sagrado. E antes, o cantor de Cáli e Noia, que é como dizer da morte e a ressurreição, Antón Avilés de Taramancos, e o também ressuscitado, após morte pressentida, Eusébio Lorenzo Baleirón. Junto com eles, vagabundo reticente, Dom Ricardo Carvalho Calero, cavaleiro da triste desmemória.

E depois, por volta dos vinte anos, após uma breve viagem pela lírica de Ramos Rosa, de Ruy Belo, aparece um referente fulcral, sob o nome de Herberto Helder, mas com a substância que, para além da própria, se depreende dos seus heterónimos carnais: os poetas da antologia Edoy Lelia Doura –de indispensável navegação.

Vieram logo os poetas do interno, eterno Oriente, na sua insubornável «mesura». Por traduzir de alguma maneira o ideal adab, a verdadeira cortesia ou a íntima consideração, como já traduziram os nossos trovadores há mil anos, a quem aqueles poetas persas me levaram de regresso, agora talvez com pulso renovado. E escutei-os ao som daquela nova música antiga, ao som desse adab, que também significa literatura, como muadib –«aquele que é perito na boa vida»– significa literato. E como tarabi –trovador: que cai no tarab, no arrebato do amor, alheio a outra razão.

O ofício sonoro esforçadamente martelado, aquele anelo dourado, tornou-se indício do silêncio, frágua do anonimato. Agora fico por aqui, a relembrar a viagem de retorno. E deixo ainda a gratidão para todos aqueles que nos precederam na arte de tecer e destecer, com sombra e luz, como se o amor e o desamor só fossem uno.

Pedro Casteleiro

[Este texto foi publicado no “9º Didascálico do IF-SC“, que será realizado em setembro de 2010 em Florianópolis. A temática deste ano será “Você vive sem a arte?”, a proporcionar uma reflexão sobre a importância da arte para o ser humano em seus diversos universos (individual, coletivo, cidadão, etc). O IF-SC coletou a visão brasileira sobre esse tema e pediram ao Instituto Cultural Brasil-Galiza para trazerem a visão dos galegos para a exposição. Tratava-se de as e os escritores galegos oferecerem as suas reflexões sobre o tema. Também publicado na Nova Águia]

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Alfredo Ferreiro, Críticas e referências, Lusofonia, Poesia

Ofício cantante, de Herberto Helder

Herberto Helder, luz solitaria

Escribir sobre a poesía de Herberto Helder remíteme aos anos noventa, cando me atrevía a reclamar publicamente para a poesía galega poéticas surrealistas como as que representaban en Portugal Herberto Helder, Natália Correia, Mário Cesariny e António Maria Lisboa, entre outros. Nada me convencían os argumentos de Henrique Monteagudo e Claudio Rodríguez Fer sobre a nítida presenza de estilos surrealistizantes e a imitación excesiva de Helder entre os poetas galegos, pois semellaban tentativas de atribuír experiencias vangardistas infrutuosas a unha poesía galega asombrosamente pagada de si. Anos mais tarde coñecín a obra de Manuel Vilanova E direivos eu do mister das cobras e alí desfrutei dun poemario que apuntaba naquela dirección, e que probabelmente foi inxustamente obviado por ser o autor demasiado heterodoxo para o sistema literario da altura.

Herberto Helder sempre adoptou unha actitude evasiva perante o prestixio que a súa obra xerou, xa desde o inicio: «[…] O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós[…]». Non constan entrevistas concedidas polo autor salvo unha no Jornal de Letras en 1964 e outra realizada para a revista Luzes de Galiza por Xosé Lois García en 1987. Este autor, considerado por Antonio Gamoneda o poeta vivo máis importante de Europa, non reedita os seus libros. De facto, cando o ano pasado publicou A faca não corta o fogo e o poemario esgotou en tres meses, a resposta da editora foi proporlle unha selección persoal da súa obra completa que incluíse o libro que viña de ser devorado polos seus famentos lectores.

Ofício cantante é un título recuperado polo autor para os seus poemas reunidos. Nesta última entrega inclúe textos desde A colher na boca (1961) até A faca non corta o fogo (2008), en que as metáforas sorprendentes, a ambigüidade e a presenza do insólito continúan a florir libremente nun discurso literario que vehicula un compromiso profundo e inusual coa creación. Unha obra poética, en definitiva, en que a reflexión sobre a esencia do poético (“Porque o único sentido, digo-to agora, é a beleza mesmo”), a imbricación do carnal no intelectivo (“mamas sem leite e sangue mas / terrestres soberanas / pénis intenso / ânus sombrio”), a visión multiperspectivada do mundo (“Se basta a água anárquica?”), a teoría da escrita (“na folha escura onde cada frase brilha / um relâmpago apenas antes de ser escrita”), a imaxe sorprendente (“a flor com o seu feixe de artérias”) e a reflexión sobre o material de contrución poética (“porque eu, o mundo e a língua / somos un só / desentendimento”) continúan a ser recursos irrenunciábeis.

(Reseña publicada en Protexta 11 – Verán – Revista de libros de Tempos Novos)

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