Compromiso por Galicia na Corunha em 2016 por Alfredo Ferreiro
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Língua

Tolerância gráfica

Há já tempos que vimos advogando pública e privadamente pela promoção de uma nova atitude de rotunda tolerância gráfica, nada nova certamente para quem quiser ouvir (cfr. “O galego e os limites imprecisos do espaço lusófono” do professor Xoán Lagares). Uma atitude necessária, democrática e fraterna entre todos os utentes da língua galega, conscientes da luta por um objetivo comum perante as afrontas constantes dos poderes antigalegos e o declínio permanente da cultura. Se o patriotismo existe e serve para algo, não deve ser muito mais do que isto. Por isso o manifesto “O fim do Apartheid”, publicado por um pequeno grupo de pessoas entre as que figura Teresa Moure, me resultou tão grato.

A proposta, se bem entendida, só pode ser boa para a nossa língua. Defendem o possível convívio de vários modos de grafar o galego, de modo que se convertesse em natural apresentar-se a prémios, publicar livros, colaborar na imprensa, figurar nos livros de texto, aceder a prémios da crítica, etc, em qualquer normativa que fosse, e para isso tentam exorcizar a censura ativa e passiva que incontestavelmente sofrem as obras reintegracionistas apelando ao melhor espírito galeguista das agentes culturais, tanto criadoras quanto técnicas.

No entanto, alguns intelectuais não chegaram a compreender o positivo da proposta, embora tenham muito dignamente ocupado seu tempo em valorizá-la. Continue reading

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Rosa Parks Bus
Colaborações:, Língua, O levantador de minas, Sociedade

Manifesto “O fim do Apartheid”

«Na casa em que nasci, citando Rosalia, dizem irmao e galega. Na tua, no entanto, dizem irmán e ghalegha. Uns falam de corisco e de barruçar, outros de pedraço e de poalhar. A tradição académica, sobre estas diferenças, construiu imensos catálogos, o grande edifício da dialetologia, com tantos praticantes. O furor em defesa da variedade é uma constante da filologia galega e um dos poucos legados etnográficos reconhecidos entre a população que, mesmo subestimando o seu património linguístico, surpreenderia a falantes doutras línguas com maior tradição normativa por valorar tanto as variantes. Diversidade é riqueza, parece ser o slogan. “Nós não falamos assim”, “não falamos como os da TVG”, “não falamos como os da costa, ou como os da chaira”.

Todo esse respeito pela variação desaparece assim que se fixa por escrito. Como se fosse impossível perceber um texto se não estivesse escrito como estudámos no Instituto, na época em que as pessoas se afizeram a introduzir os computadores nas suas vidas, a gerir os seus pagamentos pela internet, a socializar os seus afetos através das redes sociais, no imaginário coletivo isso que se chama o/a falante continua a ser visualizado como uma pessoa com escassa formação, que se assusta por um ç e deixa de ler um texto se não está grafado tal como aprendeu nas aulas. Referentes políticos e intelectuais apresentam como impossível repartir folhas informativas à saída da Citroën se não estão redigidas segundo a mesma tradição gráfica do espanhol, embora usem um léxico requintado, que conjunta sisudos conceitos políticos com uma seleta escolha de termos populares com sabor local. O professorado assegura as crianças não poderem ler Harry Potter em português, mas não vê assim tão problemático que esse mesmo alunado entenda um texto de Otero Pedraio que, até agora, ninguém leu sem dicionário à mão –ou á man.

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Língua

Língua materna?

Qual será a minha língua materna, a língua da minha mãe ou a língua que me falava quando menino? E isto aconteceu por que? Por que me dava o leite das suas mamas enquanto me negava a língua da sua boca?

A língua apreendeu-na na escola, antes não sabia nenhuma.

Então, a que por sua vez lhe tinha ensinado sua mãe não era uma língua?

Não, não era. Era apenas a fala das velhas…

Mas a gente falou por milénios essa língua… E se a gente não conhecer a língua das velhas, como se comunicará com elas?

Não te preocupes com isso. Já quase não restam dessas velhas.

Mas… elas são o nosso passado vivo! São as nossas raízes, são as fontes do nosso sangue! São o húmus da Terra!

Aqui ninguém se vira para olhar o passado, nem venera as suas raízes nem respeita as fontes. Quanto ao húmus, apenas produz ervas, e estas somente dão trabalho!

Então a gente foge das velhas e do passado porque representam as penalidades do trabalho?

Isso é. Representam os tempos do trabalho escravo.

Compreendo agora melhor. A minha mãe não me falava galego quando menino porque pretendia salvar-me da escravidão. A minha mãe ama-me, e isso não é algo que eu tenha que perdoar.

{Portal Galego da Língua}

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Colóquios, Língua, Sistema literário

No VIº Congresso da Associação de Escritoras e Escritores em Língua Galega

No Congresso AELG 2015, por Alfredo FerreiroVários fôrom os temas tratados no “VI Congreso de Escritores/as Galegos/as: Para que(n) escribimos o futuro?“, celebrado em Ponte Vedra em 26 de setembro de 2015, todos eles propostos polas interessadas e participantes no evento. Como três eram as mesas de trabalho a que uma pessoa podia acudir, falarei das três em que me coubo participar.

A mesa de trabalho de “Dereitos de Autoría e Profesionalización”, comandada por Francisco Castro, tinha começado por interessantes considerações suas e por uma pormenorizada síntese das nefastas experiências com editoriais de Xavier Queipo, que valorizou a situação que habitualmente o escritor sofre a respeito da sua falta de proteção no sistema literário e particularmente face aos interesses editoriais. Mas se estes fôrom os conteúdos de partida, logo no encontro propiciado polo Congresso outras questões fôrom trazidas à mesa.

Maria Xosé Queizán, perante a precária situação das escritoras perguntava onde era o muro das lamentações, ao que Francisco Castro replicava que se quadrar lamentar-se não servia. Elena Gallego solicitava referências atualizadas sobre honorários e contratos e arguia a necessidade de formar um critério próprio à hora da estratégia. Continue reading

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Fotografia, Língua, Objetos mutantes, Poesia

Pela tolerância ortográfica

GaivotaemArteijo_AFerreiro

A Teresa Barro

Cansado de escrever assim ou assám
com letras de cá ou de lá
concebo a ideia de escrever
com os dedos cheios de merda.
Escrever um poema
que cheirasse como uma bubela,
as fístulas explodindo
e os vómitos rarefeitos da cultura
que nos foi dado sorver
a causa das marés poluídas
das políticas nacionais,
dos negócios da política,
esgotos em que os poderosos
deitam as luvas depois de mexer
os intestinos larvados da pátria.
A pútrida pátria
que sob uma bandeira erradica
a liberdade, a democracia e a arte
gostava que morresse de vez.
Numa nova mátria
galega, portuguesa e ibérica
é que devíamos renascer.

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Alfredo Ferreiro, Breves, Colaborações:, Língua

«Galego em liberdade»

O subtítulo desta campanha é «Contra a discriminaçom que sofrem as pessoas reintegracionistas», e resulta, ao meu modo de ver, pouco ambicioso e limitadamente libertário. Acho que o objetivo melhor havia de ser «Contra a discriminação gráfica que sofre a língua galega», para assim libertá-la de qualquer aroma de conflito, algo que pesa como um persistente lastro na dignidade da luita galeguista. Tenho para mim que só uma normativa compatível com a história e o mundo lusófono que nasceu a partir dela poda ser realmente útil, mas não por isso gosto da ideia de renunciar a galeguismos que não logram desvincular-se suficientemente da realidade espanhola que nos envolve.

Contudo, apoio a campanha porque a impassibilidade evidentemente não aproveita e a sua intenção é positiva: «A Associaçom Galega da Língua (AGAL) promove a campanha «Galego em liberdade» para combater a discriminaçom que sofrem as pessoas reintegracionistas. O detonante da campanha foi a denúncia pública do escritor Vítor Vaqueiro, desqualificado num certame literário por causa da sua escolha normativa, isto é, por considerar o galego algo inseparável do português.

Segundo o presidente da AGAL, Miguel R. Penas, «por desgraça, nom estamos diante de um único caso». Da veterana associaçom, com mais de trinta anos de trabalho, asseguram que se trata de «umha prática demasiado habitual» e reprovam que na Galiza do século XXI continue a haver certames que discrimine a participaçom de reintegracionistas só «por puros motivos ideológicos».

Porém, também se dá o caso contrário, assinala Penas, o de «vários prémios que se centram realmente na qualidade literária das propostas e nom na ortografia» […] {Ler mais e assinar no Portal Galego da Língua}

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