Alfredo Ferreiro, Colaborações:

«O teu corpo a oriente e a ocidente», de Pedro Casteleiro

A vontade da Deusa, da Grande Mãe ou da Amada Eterna presidem o livro. Não se admirem, leitoras e leitores, se este livro semelha à vez moderno e antigo. Porque há cousas que não mudam embora nunca ofereçam a mesma figura, como factos diversos sob os quais subjazesse um único gesto divino.

Falarmos em termos de espírito é, todavia, raro nestes tempos. Somos velhas vítimas do autoritarismo eclesiástico e não se torna fácil trazer para a mesa os instrumentos com que a nossa sociedade foi torturada durante séculos, e que são a causa de que muitas pessoas confundam Igreja e religião. Mas nós devemos saltar por cima destes obstáculos referenciais e falarmos abertamente do conteúdo religioso ou, por palavras mais exatas, gnóstico desta obra. Não estamos obrigados a menos, se queremos é transmitir alguma perceção sincera do que é ou pode ser O teu corpo a oriente e a ocidente.

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Raias Poéticas: Afluentes Ibero-Afro-Americanos de Arte e Pensamento
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Colóquios, Lusofonia, Narrativa, Poesia, Vídeos

Raias Poéticas 2017: Luís Serguilha

No passado fim de semana tive a oportunidade de participar no Raias Poéticas ~ Afluentes Ibero-Afro-Americanos de Arte e Pensamento fazendo parte de uma delegação galega composta por Ramiro Torres, Teresa Moure e Tiago Alves Costa. Este é o primeiro do cinco vídeos que compõem o nosso contributo plural.

Este evento nasceu, segundo as palavras o produtor e coordenador do evento o poeta Luís Serguilha, há seis anos para
«_________potencializar a criatividade artística, o pensamento como experiência dançante, a interrelacionalidade, a sismologia das sensações, as mutabilidades, as correntezas transfronteiriças das línguas poéticas ibero-afro-americanas, os movimentos giratórios da interrogação estética
_________aproximar a diversidade, as forças das resistências-vivas, as geografias do nomadismo, as intensidades migratórias, as heterogeneidades dos fluxos cortantes.
_________ecoar as multiplicidades, as redobras, a profusão das diferenças, os espelhos dos entre-cruzamentos, criando uma zona de vozes singulares, vozes-devires________holomovimento antecipador da vida.»

{Palavra Comum}

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A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Poesia, Tati Mancebo, Vídeos

Apresentação d’ A razão do perverso, de Mário J. Herrero

«Esté é o vídeo da apresentação do livro do Mário J. Herrero Valeiro A razão do perverso (Ajuste de contas) (Caldeirón, 2016), que venceu no X Prémio de Poesia Erótica Ilhas Sisargas. Com gravação de Táti Mancebo e edição de Alfredo Ferreiro. A seguir, publicamos o texto lido pelo Mário na apresentação da Crunha em 21 de abril de 2017 no coworking Eléctrica, com a presença do autor, do editor Paco de Tano e do poeta Alfredo Ferreiro

{Palavra Comum}

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A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Críticas e referências, Poesia

A propósito d’ A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro

mario-herrero-a-razao-do-perverso-300O poemário começa com aquilo que é interdito, como sendo os “mandamentos” do poeta do nosso tempo, aqueles de uma religião imposta: “nunca comerás terra / nunca beberás leite / nunca escreverás / sobre o sexo do país / nunca lamberás / as conas das poetas / nunca buscarás / as suas cuecas / entre as néscias palavras, / nunca vomitarás / no umbigo / do nosso Octavio Paz.” E isto dá pé para questionar uma consciente e necessária ação política: “quebrar para sempre as inércias do país”.

A seguir, a destruição, a decadência, a frustração se manifestam até ao ponto de amor e poema tender a desaparecer. Uma dor inevitável, essa da vida do indivíduo como a da nação, sempre semelha uma tragédia: “o meu corpo a arder sobre a terra”. Mesmo o país se tornou tão funesto que a língua houve de o abandonar: “partiu a língua, / foi a primeira a fugir”.

Até o passado que podemos lembrar, aquilo já perdido, só é uma “passagem pelas sombras”. E assim o niilismo invade definitivamente o livro: “somos poetas do nada”; “nada permanecerá no teu corpo… nada no teu país… distante e atroz o teu país”; “ não me custa não estar, / não ter terra, / não te amar”. Porque o amor se torna algo impossível numa sociedade tão doentia, em que a poesia não encontra espaço para florescer: “gritavas pedindo versos”; “não escreverás mais, / esse foi o castigo” e a verdade escasseia mesmo no íntimo do poeta: “porque nada em mim / é verdade”. Assim as cousas, é da dureza do mundo que é preciso escrever para “esquecer as vísceras, / as vísceras das crianças / sobre a areia”.

Existe, sim, erotismo neste livro, mas faz parte das diversas experiências humanas que este mundo corrompe, ultraja e contamina, não sendo mais do que parte do tecido habitualmente falso desta vida pervertida por uma razão que converte tudo em “quase-nada”, entre a frustração do que deveria ter sido e o pouco valor do que é. Um mundo que não pode evitar produzir constantes psicopatias (“sou a mão demente / a assinar o papel”), ajustes de contas, os agravos a causa da “falácia, uma lenta desforra por uma idade interminável de vergonha”, o sentimento de vulnerabilidade por “esta língua ruim e cativa / com que descrevo a miséria”. Agora, quando se revelam como protagonistas a vingança, o desterro, as ruas sem luz, os lábios que beijam a poeira das pedras, percebemos que o erotismo à la page do poemário é escasso, salvo que se poda falar de novo da erótica do poder ou, neste caso, da erótica da crítica contra o poder: “o desejo foi conceber uma erótica dos povos, / um orgasmo grupal, / uma hecatombe”, ou quando “os teus lábios lambem o universo”.

Na parte final do livro, resulta evidente a crítica do corpus literário aprovado pela intelligentsia galeguista, caracterizada por uma visão pequeno-burguesa e portanto falsamente proletária. E aqui influem, quer-me parecer, alguns dos grandes erros do nacionalismo pseudorevolucionário: a) que o nacionalismo precisa de uma burguesia galega na prática inexistente; b) que aquele modelo de revolução precisa de um proletariado igualmente inexistente, dado que uma maioria de trabalhadores rurais possuem de certo modo uma mentalidade pré-industrial, se não declaradamente feudalista.

É portanto, um livro eminentemente político. Existe nele a denúncia de um galeguismo nacionalista maioritário que se rege por esse comportamento partidário de consignas e capelinhas, e que se permite proscrever fórmulas regaleguizadoras como o reintegracionismo. Lembro neste momento as declarações do Almada Negreiros em 1968 a respeito da geração anterior à sua: “Os jovens da Orpheu fomos maltratados pela geração anterior ao Orpheu, que nem sequer nos supunha. Então, porque nos combateram?”.

 O escritor Luiz Pacheco, ignorado pelas enciclopédias e desconhecido nas Faculdades de Letras (podemos acrescentar: hoje com toda a sua obra inacessível porque esgotada), é responsável pela edição da melhor poesia portuguesa, embora fosse sempre considerado um “bobo da Corte”. Para ele existiam três tipos de literatura falsa: a) a literatura “abençada”, que consiste naquelas obras dos grandes nomes que periodicamente devem vir à luz no mercado, e que respondem mais a uma “exploração do nome” ou mesmo à prostituição da escritura; b) a literatura de casino, que é “a que salva os prémios”; c) a literatura de consumo, aquela que é pensada para “ter em casa”.

 Nesta linha, uma verdade que a este livro subjaz é que a literatura galega atual está alicerçada no reconhecimento a muitos autores que na realidade têm um talento essencialmente político, ou ao menos um talento para as relações públicas, factos que propiciam que tenham atingido uma projeção por cima da altura real das suas obras: “quando tudo vale, / nada tem mérito”, “quando tudo é arte, / deus dá por conclusa / a sua obra”, “porque quando tudo vale, / a única forma é não estar / guardar os cadernos, / preservar o pénis / debaixo das calças / e, silenciosamente, / desaparecer”.

E dizer isto não comporta necessariamente inveja ou um pacato desejo de não deixar medrar o fruto na leira do vizinho. É, na realidade, afirmarmos que vivemos na falsidade, dizermos mais uma vez que o rei caminha despido embora a maioria louve a vestimenta real, é reconhecer que não resolveremos os problemas do país alimentando os egos das elites.

Não se pretende, porém, desmascarar os falsos méritos literários do pessoal quanto reconhecermos que no pobre caldo da literatura atual existem restrições, censuras e intolerâncias profundamente antidemocráticas para os escritores de diversa raça gráfica, de epiderme cultural diversa à pretensamente “normalizadora”, o que faz com que dia após dia nos tornemos, absolutamente todos, menos normais.

A literatura galega reintegracionista, não só a poesia, continua, nesta cacarejada democracia, num interregno, quando não sofrendo um autêntico apartheid. Por isso é que somos descrentes deste mundo em que o mais importante semelha decidir que capelinha governará a Real Academia Galega. Depois chegam mesmo estrangeiros bem intencionados, amadores da cultura galega “autêntica” a quem devemos agradecer sua atenção embora partam suas exigências, aparentemente objetivas e científicas, de um erro insuspeitado por eles: o galego, em seu uso quotidiano e vulgar, como experiência vital comum, não é uma língua. E isto é corroborado cada dia pelo seu uso nos jornais, no mundo da empresa, na ciência e nas legislação.

Hoje, no quadro da crise económica ocidental e da crise política espanhola, as contas não dão certas para a língua do país e aquela pretensa “normalidade cultural” que devia era dar reconhecimento a uma nova e extensa vaga de vultos intelectuais e criativos revelou uma nova época em que a carência de recursos faz mais violenta a luta das capelinhas culturais perante os restos do que pode ser o definitivo naufrágio cultural. Não devemos esquecer que a nova democracia espanhola se baseia num “pacto de silêncio” a respeito dos crimes da ditadura, e é esta cultura do silêncio face à repressão que educou várias gerações e ainda contribui para que a própria democracia não floresça, e que mesmo o retorno à perda de direitos civis seja tolerada. Nesta ordem de cousas, a ocultação das obras reintegracionistas não resulta estranha no contexto dos habituais e irresolutos conflitos culturais do estado espanhol.

Ao tempo, o reintegracionismo organizado progrediu como? Embora era marginalizado por questões de forma, promoveu atitudes positivas de divulgação de conteúdos interessantes. Assumiu o paradoxo e avançou graças a ele: se os seus inimigos o castigavam a causa da forma, ele privilegiou os conteúdos. É aqui, portanto, que devemos situar a obra de Mário J. Herrero Valeiro, membro da Academia Galega da Língua Portuguesa, tradutor juramentado de português e vencedor com sua particular língua nortenha no Prémio Internacional Glória de Sant’ Ana para obras lusófonas. É nesta vontade insubmissa e abertamente galeguista em tempos de alinhamento e uniformização intelectual bizarra, que a obra do Mário Herrero ressalta, para além de na sua arte, como profundamente comprometida e contestatária.

*

Notas: Este livro venceu o X Certame de Poesía Erótica Illas Sisargas em 2015. Outras referências: “da prosaica grossaria (a razão do perverso – poemas descartados), por Mário Herrero”; “Política da carne: A razão do perverso de Mário Herrero Valeiro”; “‘A razão do perverso’ é um livro formalmente erótico e também é uma crítica do sistema literário galego”.

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A língua da musa, Azertyuiop nº 105 (2016)
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Ilustração, Poesia

“A língua da musa”

A língua da musa, Azertyuiop nº 105 (2016)

Alfredo Ferreiro: “A língua da musa”

*

Tradução: Vem o amigo F. D. e não ouve aquilo que não bem tenho para dizer-lhe. Meu amigo é surdo perante quem melhor devia é ficar mudo, o amigo que me queima e me arrasta por uma encosta fascinante que arde.

Meu amigo é fiel, mas eu nem sei a quem. Talvez a uma musa que me elude e me não concede uma baila, ninfeta decorosa que não quer dançar com velhos de corações artríticos e falsos.

Meu amigo conhece uma musa misteriosa que num lugar dança em que o tempo não corrompe nem o baile cansa. Meu amigo tem um poder estrangeiro que me assombra e lhe outorga forças estranhas, uma musa que me recusa, que nalgum lugar recôndito se abre como flor e oferece o seu fascínio, uma musa impenetrável, recôndita e próxima que me atrai até ao abandono, me faz caminhar ao luar e esquecer o lugar em que moro.

Meu amigo guarda um segredo profundo. Um segredo que não confessa para proteger de mim o mundo.

*

Nota: “A língua da musa” é uma visão de Alfredo Ferreiro. A sua tradução para o galego-português foi publicada no fanzine Azertyuiop (nº 105) em Janeiro de 2017.

{Palavra Comum}

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Criação, Fotografia, Poesia

“Peles especuladas”

Fotografia de Paula Gómez del Valle

Autora: Paula Gómez de Valle

 

Peles especuladas

Existe uma densidade na pele do mundo
que me aterra,
uma memória cicatrizada nos gritos
de bichos diminutos
e no silêncio do húmus
ultrajado mas sempre fecundo.
Por toda a terra o nosso umbigo aparece
em cada furo de grilo
e o nosso mamilo floresce
no cimo de um monte coroado pelo sol.
Pode a humanidade
ser rastejada na terra
como pode a epiderme do mundo
oferecer-nos uma sombra entre rugas
para o descanso do ser.

*

Nota: Poema tirado da anotação de Palavra Comum em que partilha espaço com outro poema de Ramiro Torres também inspirado na fotografia de Paula Gómez Del Valle.

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Metal central de Alfredo Ferreiro por Pepe Caccamo expo
Alfredo Ferreiro, Arte, Colaborações:, Poesia

“Metal central”: versão plástica de Pepe Cáccamo

pepe caccamo e baldo ramos expo libros conversos“Metal central” é um poema pertencente ao meu livro Metal Central publicado na Espiral Maior em 2009, que mereceu uma menção de honra no Premio Nacional de Poesía Xosemaria Pérez Parallé. Na expo “Librosconversos”, em colaboração com Baldo Ramos, Pepe Cáccamo realizou a versão plástica do poema que aqui se reproduz. Sempre agradecerei a honra que o poeta e artista me fez assim como a vontade interdisciplinar que habitualmente rege o seu trabalho.

O catálogo da exposição, para além de mostrar a magnífica obra dos dous artistas, funciona como publicação em papel de duas seleções pessoais da poesia galega de ontem e hoje.

«Este proxecto que acolle O Museo do Pobo Galego xorde como un diálogo entre creación literaria e creación plástica. Escollendo poemas da nosa tradición poética clásica e contemporánea, ou ben encargándolle a algúns autores textos que dialogaran coas súas pezas plásticas, van fiando estes dous poetas e artistas plásticos un diálogo entre a literatura como contido e o libro como continente. Libros de artista, libros-obxecto, libros intervidos, libros-escultura entran na poesía, reescríbena, amplifícana, agóchana, establecen puntos de contacto que propician unha dialéctica de ida e volta: desde o poema ao libro e desde o libro ao poema. Mestizaxe de voces, de olladas, de libros que se abren para convidar ao lector a que entre nese diálogo que nunca remata». [Cfr. Exposição de Pepe Cáccamo e Baldo Ramos: “librosconversos”]

Metal central por Pepe Caccamo nota expo

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