A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Poesia, Tati Mancebo, Vídeos

Apresentação d’ A razão do perverso, de Mário J. Herrero

«Esté é o vídeo da apresentação do livro do Mário J. Herrero Valeiro A razão do perverso (Ajuste de contas) (Caldeirón, 2016), que venceu no X Prémio de Poesia Erótica Ilhas Sisargas. Com gravação de Táti Mancebo e edição de Alfredo Ferreiro. A seguir, publicamos o texto lido pelo Mário na apresentação da Crunha em 21 de abril de 2017 no coworking Eléctrica, com a presença do autor, do editor Paco de Tano e do poeta Alfredo Ferreiro

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A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro
Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Críticas e referências, Poesia

A propósito d’ A razão do perverso, de Mário J. Herrero Valeiro

mario-herrero-a-razao-do-perverso-300O poemário começa com aquilo que é interdito, como sendo os “mandamentos” do poeta do nosso tempo, aqueles de uma religião imposta: “nunca comerás terra / nunca beberás leite / nunca escreverás / sobre o sexo do país / nunca lamberás / as conas das poetas / nunca buscarás / as suas cuecas / entre as néscias palavras, / nunca vomitarás / no umbigo / do nosso Octavio Paz.” E isto dá pé para questionar uma consciente e necessária ação política: “quebrar para sempre as inércias do país”.

A seguir, a destruição, a decadência, a frustração se manifestam até ao ponto de amor e poema tender a desaparecer. Uma dor inevitável, essa da vida do indivíduo como a da nação, sempre semelha uma tragédia: “o meu corpo a arder sobre a terra”. Mesmo o país se tornou tão funesto que a língua houve de o abandonar: “partiu a língua, / foi a primeira a fugir”.

Até o passado que podemos lembrar, aquilo já perdido, só é uma “passagem pelas sombras”. E assim o niilismo invade definitivamente o livro: “somos poetas do nada”; “nada permanecerá no teu corpo… nada no teu país… distante e atroz o teu país”; “ não me custa não estar, / não ter terra, / não te amar”. Porque o amor se torna algo impossível numa sociedade tão doentia, em que a poesia não encontra espaço para florescer: “gritavas pedindo versos”; “não escreverás mais, / esse foi o castigo” e a verdade escasseia mesmo no íntimo do poeta: “porque nada em mim / é verdade”. Assim as cousas, é da dureza do mundo que é preciso escrever para “esquecer as vísceras, / as vísceras das crianças / sobre a areia”.

Existe, sim, erotismo neste livro, mas faz parte das diversas experiências humanas que este mundo corrompe, ultraja e contamina, não sendo mais do que parte do tecido habitualmente falso desta vida pervertida por uma razão que converte tudo em “quase-nada”, entre a frustração do que deveria ter sido e o pouco valor do que é. Um mundo que não pode evitar produzir constantes psicopatias (“sou a mão demente / a assinar o papel”), ajustes de contas, os agravos a causa da “falácia, uma lenta desforra por uma idade interminável de vergonha”, o sentimento de vulnerabilidade por “esta língua ruim e cativa / com que descrevo a miséria”. Agora, quando se revelam como protagonistas a vingança, o desterro, as ruas sem luz, os lábios que beijam a poeira das pedras, percebemos que o erotismo à la page do poemário é escasso, salvo que se poda falar de novo da erótica do poder ou, neste caso, da erótica da crítica contra o poder: “o desejo foi conceber uma erótica dos povos, / um orgasmo grupal, / uma hecatombe”, ou quando “os teus lábios lambem o universo”.

Na parte final do livro, resulta evidente a crítica do corpus literário aprovado pela intelligentsia galeguista, caracterizada por uma visão pequeno-burguesa e portanto falsamente proletária. E aqui influem, quer-me parecer, alguns dos grandes erros do nacionalismo pseudorevolucionário: a) que o nacionalismo precisa de uma burguesia galega na prática inexistente; b) que aquele modelo de revolução precisa de um proletariado igualmente inexistente, dado que uma maioria de trabalhadores rurais possuem de certo modo uma mentalidade pré-industrial, se não declaradamente feudalista.

É portanto, um livro eminentemente político. Existe nele a denúncia de um galeguismo nacionalista maioritário que se rege por esse comportamento partidário de consignas e capelinhas, e que se permite proscrever fórmulas regaleguizadoras como o reintegracionismo. Lembro neste momento as declarações do Almada Negreiros em 1968 a respeito da geração anterior à sua: “Os jovens da Orpheu fomos maltratados pela geração anterior ao Orpheu, que nem sequer nos supunha. Então, porque nos combateram?”.

 O escritor Luiz Pacheco, ignorado pelas enciclopédias e desconhecido nas Faculdades de Letras (podemos acrescentar: hoje com toda a sua obra inacessível porque esgotada), é responsável pela edição da melhor poesia portuguesa, embora fosse sempre considerado um “bobo da Corte”. Para ele existiam três tipos de literatura falsa: a) a literatura “abençada”, que consiste naquelas obras dos grandes nomes que periodicamente devem vir à luz no mercado, e que respondem mais a uma “exploração do nome” ou mesmo à prostituição da escritura; b) a literatura de casino, que é “a que salva os prémios”; c) a literatura de consumo, aquela que é pensada para “ter em casa”.

 Nesta linha, uma verdade que a este livro subjaz é que a literatura galega atual está alicerçada no reconhecimento a muitos autores que na realidade têm um talento essencialmente político, ou ao menos um talento para as relações públicas, factos que propiciam que tenham atingido uma projeção por cima da altura real das suas obras: “quando tudo vale, / nada tem mérito”, “quando tudo é arte, / deus dá por conclusa / a sua obra”, “porque quando tudo vale, / a única forma é não estar / guardar os cadernos, / preservar o pénis / debaixo das calças / e, silenciosamente, / desaparecer”.

E dizer isto não comporta necessariamente inveja ou um pacato desejo de não deixar medrar o fruto na leira do vizinho. É, na realidade, afirmarmos que vivemos na falsidade, dizermos mais uma vez que o rei caminha despido embora a maioria louve a vestimenta real, é reconhecer que não resolveremos os problemas do país alimentando os egos das elites.

Não se pretende, porém, desmascarar os falsos méritos literários do pessoal quanto reconhecermos que no pobre caldo da literatura atual existem restrições, censuras e intolerâncias profundamente antidemocráticas para os escritores de diversa raça gráfica, de epiderme cultural diversa à pretensamente “normalizadora”, o que faz com que dia após dia nos tornemos, absolutamente todos, menos normais.

A literatura galega reintegracionista, não só a poesia, continua, nesta cacarejada democracia, num interregno, quando não sofrendo um autêntico apartheid. Por isso é que somos descrentes deste mundo em que o mais importante semelha decidir que capelinha governará a Real Academia Galega. Depois chegam mesmo estrangeiros bem intencionados, amadores da cultura galega “autêntica” a quem devemos agradecer sua atenção embora partam suas exigências, aparentemente objetivas e científicas, de um erro insuspeitado por eles: o galego, em seu uso quotidiano e vulgar, como experiência vital comum, não é uma língua. E isto é corroborado cada dia pelo seu uso nos jornais, no mundo da empresa, na ciência e nas legislação.

Hoje, no quadro da crise económica ocidental e da crise política espanhola, as contas não dão certas para a língua do país e aquela pretensa “normalidade cultural” que devia era dar reconhecimento a uma nova e extensa vaga de vultos intelectuais e criativos revelou uma nova época em que a carência de recursos faz mais violenta a luta das capelinhas culturais perante os restos do que pode ser o definitivo naufrágio cultural. Não devemos esquecer que a nova democracia espanhola se baseia num “pacto de silêncio” a respeito dos crimes da ditadura, e é esta cultura do silêncio face à repressão que educou várias gerações e ainda contribui para que a própria democracia não floresça, e que mesmo o retorno à perda de direitos civis seja tolerada. Nesta ordem de cousas, a ocultação das obras reintegracionistas não resulta estranha no contexto dos habituais e irresolutos conflitos culturais do estado espanhol.

Ao tempo, o reintegracionismo organizado progrediu como? Embora era marginalizado por questões de forma, promoveu atitudes positivas de divulgação de conteúdos interessantes. Assumiu o paradoxo e avançou graças a ele: se os seus inimigos o castigavam a causa da forma, ele privilegiou os conteúdos. É aqui, portanto, que devemos situar a obra de Mário J. Herrero Valeiro, membro da Academia Galega da Língua Portuguesa, tradutor juramentado de português e vencedor com sua particular língua nortenha no Prémio Internacional Glória de Sant’ Ana para obras lusófonas. É nesta vontade insubmissa e abertamente galeguista em tempos de alinhamento e uniformização intelectual bizarra, que a obra do Mário Herrero ressalta, para além de na sua arte, como profundamente comprometida e contestatária.

*

Notas: Este livro venceu o X Certame de Poesía Erótica Illas Sisargas em 2015. Outras referências: “da prosaica grossaria (a razão do perverso – poemas descartados), por Mário Herrero”; “Política da carne: A razão do perverso de Mário Herrero Valeiro”; “‘A razão do perverso’ é um livro formalmente erótico e também é uma crítica do sistema literário galego”.

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Críticas e referências, Poesia

O grito submergido de Mário Herrero Valeiro

Da vida conclusa, livro de Mario Herrero ValeiroA nossa vida é superficial, e este fato revela-se no nosso corpo e na nossa pele a mostrarem as máculas próprias de seres esquecidos por deus. Um deus a pedido, criado desde e para o materialismo, mais uma “instituição” para sustentar as misérias individuais e sociais, um deus que não é caminho para a libertação mas fundamento do cativeiro.
No plano individual, a doença e a tortura são duas caras da mesma moeda, paixão do ser e ação do mundo material ou do injusto poder que nos governa. No social, a pátria, a família e em geral as instituições e outros modelos impostos polo Estado foram criados para manter a frustração permanente do cidadão. O “pai”, também desde que figura instituída, é um referente de frustração íntima que deve ser transmitida para o cidadão permanecer vinculado às rédeas do sistema; como função emotiva e pessoal, é referente castrado e agente castrador que transmite a derrota com uma sua atitude de vencido permanente, aquele que na realidade forneceu uma semente em que só a miséria podia florescer. Produz-se então a vinculação a um lastro emotivo que o sistema pretende fazer perene, e que o poeta, em sua necessidade visionária de construir um mundo possível e assim prover a hipótese certa da utopia, deseja reconduzir (“ser um digno filho”, “compreender por fim / o sentido do poema”). “Pátria” e “pai”, não por acaso da mesma raiz, são versões da mesma farsa. Continue reading

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Críticas e referências, Poesia

A Outra vida de Mário Herrero Valeiro

Outra vida, livro de Mário Herrero ValeiroAlém da dor vital nasce o poema. O poeta não sabe donde caem as pedras e só o amor o salva da aniquilação. Uma incerteza absoluta provém do mundo chamado de real, uma sorte de promessas ou abstrações humanas que na realidade alimentam a ignorância e o caos. O poeta percebe a desarmonia constante que ressalta a debilidade humana, porém o amor propicia uma vinculação perene com o mundo e constitui o único fato que na verdade perdura. A única realidade que não pertence ao atrezzo.

O ser humano é simples e por isso padece. A sua animalidade essencial lembra a simplicidade de um réptil (“sei que arrastarei o meu ventre até ao final”) e contém não tanto uma sabedoria quanto uma tristeza permanente (“a criança triste que ainda sou”) perante um obscuro destino (“conheço bem o nosso destino”) que consiste em nada acontecer, em delongadamente viver (“os dedos começam a arder e nada ocorre”) numa opacidade inevitável. Todas estas forças deparam numa contradição vital irresoluta (“por fim assumo a mentira de que não te amo”), fato que implica a falsidade ou impossibilidade da negação do amor, até porque o amor é o único que de positivo temos direito a desfrutar. Se bem os temas assim tratados oferecem um tom confessional, ninguém deve esperar em rigor uma confissão sobre qualquer aspeto da vida: o poeta transcreve a complexidade vital como a indivisa experiência de uma miríade de sensações que atingem o íntimo em cada disparo. Continue reading

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Sistema literário

Encontro na Ribeira Sacra

Na passada quinta acudi a um encontro em Chantada. O propósito era reunir-me com dous amigos, um de há longo tempo, o Vergílio Alberto Vieira, e o outro de há bem pouco, o Xosé Lois Garcia. O contexto era o Românico galego e o tema a literatura peninsular ocidental que nos coubo conhecer, com seus delírios e suas grandezas.

O Vergílio conheci-no a finais de 90, se lembro bem, quando um amigo comum, o Amadeu Baptista, nos levou à Táti Mancebo e a mim a Braga para travarmos uma nova amizade na Galécia do sul, se me permitirem a reivindicação histórica. Num ambiente de fraternidade galego-portuguesa nasceu uma relação que chega até hoje. E que implica, felizmente, a Gina, a quem gostei imenso de voltar a ver.VAVieira_Gina_XLGarcia_AFerreiro_800

O Xosé Lois Garcia sempre foi para mim um referente da Galiza que, para além de teorizar sinergias, permanentemente exerceu como membro de pleno direito numa lusofonia que transcende as nescidades e misérias das políticas culturais do Estados. Lembro aquela entrevista ao Herberto Helder que realizou em 1987 para a extinta revista Luzes de Galiza, uma das escassíssimas e provavelmente a mais profunda que jamais concedeu aquele esquivo e genial poeta, referência ímpar da poesia europeia para tantos de nós. Achei-no repetidamente em todos os projetos de outro vulto da dinamização literária e da fraternidade galego-portuguesa, o António José Queiroz (que também conheci pelo Amadeu Baptista), e por isso não me admirou que fizesse parte do último júri do Prémio Literário Glória de Sant’Anna, este ano concedido pela primeira vez a um autor galego, o Mário Herrero Valeiro, caro amigo desde os alvores da nossa afeição pola escrita. LivrosXLGarcia_VAVieira_AFerreiro_600Assim as cousas, não podia deixar de também convidar o Garcia para participar na Palavra comum, esta nossa modesta ágora que promove o convívio fraterno de todos os filhos da galeguia, ou como se conhece habitualmente, a lusofonia, pois não pretendemos atribuir-nos mais méritos que aqueles tão humildes que no passado remoto ficárom esquecidos para tantos. Na verdade, tomamos a iniciativa desde este pequeno país europeu com vontade de apelar a uma fraternidade que gostamos de alimentar, e já vamos vendo como os velhos amigos e ainda os novos de toda a parte aparecem carregados de presentes e nos honram com seu esforço e seu talento, e já não podemos deixar de ficar gratos e satisfeitos.

Mas voltarei a Chantada e àquele memorável encontro: houvo poesia, amizade, livros, vinhos, truitas e vitela da Terra, e de tudo foi testemunha a majestosidade do Românico e o grande rio que atravessa o país e discorre por unha Ribeira que, entre todas a mais pura, acabou por se chamar de Sacra. A gente não vai acreditar, mas chegamos ao Cabo do Mundo e caminhamos polas duas beiras, uma transcendência da cartografia que só a Poesia é capaz de conceder.

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Alfredo Ferreiro, Colaborações:, Música, Poesia

Fim de semana memorável

Há várias semanas que aconteceu, mas a lembrança de um fim de semana pleno de arte é algo que permanece no meu íntimo e se rebela a ficar sem crónica, por humilde que for. Em primeiro, foi a atuação de Santiago Auserón na Corunha, no contexto de um evento da Fund. Luis Seoane, organizado por Yolanda Castaño, 10 abril. A mestria do cantor-poeta não deixou indiferente o pessoal, por muito que, como eu, experimentasse mais um repetido prazer ao ouvir letras tão bem compostas, músicas em que tão bem harmonizam a tradição e a fusão atual e comentários teórico-práticos tão amenos e reveladores.
A continuação do Grã Cão do rock-pop espanhol, veu a vez de Maria Lado e Lucia Aldao. Era de pressupor que uma parte do público tinha acudido atraído pela fama de Auserón, mas o que se puido comprovar é que, depois de o público decidir ao completo permanecer na sala, todos desfrutaram com o espectáculo poético-musical de AldaoLado. Efectivamente, das aproximadamente trescentas pessoas que ali estavam ninguém deixou de rir e aplaudir as interpretacións musicais, as canções, os poemas e as piscadelas humorísticas sobre o sistema literário. Foi, sem dúvida, um evento catártico que manteve o público atento, ativo e satisfeito durante mais de três horas. Sem dúvida algo que também temos de agradecer à direção da Fundação, pela sua sensibilidade à hora de aceitar propostas híbridas à vez tão lúdicas e de altura.

Em Arteijo, no Café Melandrainas, no dia seguinte (11 de abril), assistimos a um recital meigo como poucos. Fazendo parte do ciclo que organiza Ramiro Vidal Alvarinho sob o título “Versos no pentagrama”, o programa incluía guitarra clássica e recital poético. Em primeiro foi a vez de Isabel Rei, que nos deliciou com sua arte interpretativa, sua sensibilidade à hora de escolher um repertório compostos de temas tradicionais galegos e clássicos lusófonos, para além das suas interessantes notas sobre a história e características das diversas composições. Intercalando as intervenções, quatro poetas nos ofereceram seus melhores versos, entre eles e elas boas amizades e plumas de contrastado mérito: Mário Herrero, Verónica Martínez, Alberte Momám e Maria Castelo. E tudo isto sem sair de Arteijo. E tudo isto apesar dos gobernos nacioanalfabetocatólicos que padecemos nos dous concelhos! Sim, definitivamente há esperança.

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Alfredo Ferreiro, Criação, Poesia, Surrealismo

A pupila ardente

Acode, ó mar salgado, depois lembrarás a traição da náusea. Ama-me como o vento estilhaça uma pola seca até ser una com a terra. Mas não gostes do gelado da primavera. É o perigo da janela acesa.

Desfaz a pele para te lembrares da carne. O lótus das mil pétalas cresce nos olhos. Um beijo que foge da meixela como o ar que alouminha uma mão baleira. O cigarro acende o sonho. Nós próprios somos a pedra.

Os óculos impedem-nos ver. Sangra um olho cego na tua mão. Então, só então, destapas o lume. O quadrado do tempo. Ou a sombra das minhas mãos a rabunhar a pupila ardente.

Grupo Hedral. No pub El Siglo da Corunha, 1994.

{Grupo Surrealista Galego}

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