Apresentação da revista DiVersos no Porto, em Santiago e na Corunha

Revista DiVersos ~ Poesia e tradução nº 25

Nesta semana, na quarta 22 de março em Santiago (20:00 hs. na livraria Chan da Pólvora) e na quinta 23 na Corunha (no café livraria Linda Rama), a revista DiVersos – Poesia e tradução será apresentada na Galiza. São já 20 anos desde a sua fundação (1996-2016) e mais de 300 nomes da poesia que foram aqui publicados, em língua original ou traduzidos. Contaremos nos dous eventos com a presença do seu editor, o amigo José Carlos Marques, da Edições Sempre-Em-Pé, assim como com a do escritor e professor Carlos Quiroga em Santiago e o poeta Ramiro Torres na Corunha. O nosso propósito será, para além de apresentarmos uma revista de que tanto gostamos e na que nos orgulhamos em participar, tentarmos estabelecer as bases para uma colaboração permanente entre galegos e portugueses. […]

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Revista DiVersos 23

revista diversos 23

Prometia a DiVersos abrir mais sua porta a galegos e assim foi que aconteceu no número 23, outorgando à minha poesia um espaço que muito me honra e mais hei de agradecer. É uma mostra indubitável de que a natural irmandade galaica ancestral continua a ser honrada além do Minho, e que muito mais nestes tempos havemos de nos esforçar por alimentar. Eis alguns dos poemas que publiquei na revista por cortesia do amigo José Carlos Marques:

Não me digais que andar é cozinhar os passos com tempero amargo, mastigar depressa a brisa dum amor pequeno, vender a barriga ou por palha trocá-la. Se as asas do amor não fossem para a nossa alma outras esmolas nos darão reinados no coração certo dum amor mais amplo. Não castigueis essa pena, símbolo errático, ligeiro coração dum diminuto destino a toda a parte aberto.

[Anto, nº 2, Amarante: 1997]

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Frágua

No vapor do aço que por tudo se estende ascendem as almas de pássaros esquálidos. Nasceram nas mãos sudorosas do entardecer, quando uma cadeia de corações atingia um calor vulcânico. Quando o espaço ardia na lareira dos sentidos. Era a festa dos gritos, a roda dos pés ardentes sobre a prancha zincada das horas: uma febre que a noite não conseguia emudecer. A vida neste lugar tem suas próprias regras, governa-se pela combinação de engrenagens e fantasmas. São forças contrárias trançadas pelo acaso, uma singular e perversa protuberância do mundo que só em cativeiro se reproduz.

[Metal central, A Corunha (Galiza): 2009]

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Desvelado

I Desvelado o poeta vê-se obrigado a desfazer-se da pedra que lhe nasce na mão.

Lança a pedra para o lado e segue o caminho que esta descreve na parábola da inspiração.

O poeta lança a pedra e pousa a mão no peito. Protege assim um castelo em que cada ameia é um verso erguido e a ponte tendida uma oferta para visitar os museus do amor.

Lança o poeta a pedra e pousa a mão no peito. Uma antiga dor alimenta com tinta e pedras um manso dragão.

II Desvelado o poeta tece uma prenda única com fio sentimental.

Veste de branco o medo, veste de verde o deserto, veste sem roupa o amor.

Porque o amor é nudista.

III Desvelado o poeta sorve uma paixão no silêncio.

No silêncio em que mana a lágrima do sol.

IV Desvelado o poeta descobre o mistério irresolúvel.

Uma verdade solúvel no coração.

[Inéditos, de Teoria das ruínas]

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DiVersos: «A natureza foi desde sempre um dos temas predominantes da poesia universal e com especial força em algumas épocas. Modernamente, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, essa presença tem vindo a apagar-se, com o ser humano e os horizontes humanos a ocupar quase exclusivamente a boca da cena. Nas exceções, nota-se que, tanto ou mais que a admiração, a contemplação ou exaltação de épocas anteriores, se observa a par delas a consciência e o lamento da sua destruição pela civilização (ou barbárie) atual em grau historicamente nunca igualado. Contemplação, exaltação e requiem estão presentes nos três poetas – paulo da costa, Reiner Kunze e Ricardo Lima – com que aqui se inicia a etiqueta «Poesia e Natureza». Tal não quer dizer que a temática destes poetas seja exclusivamente a natureza. Mas apenas que a sua poesia, pelo menos nos poemas aqui inseridos, tem a natureza como presença forte. E, claro, haverá poemas que, sem essa etiqueta, a poderiam ter. É já o caso neste número do poema «A ornitoptera», de Guido Gozzano.

Páginas: variável (160 no nº23) Preço: 10€ ISSN: 1645-474X

Alfredo Ferreiro abre este número, na sequência do nosso renovado interesse pela poesia da Galiza (ver n.º 21). O seu nome consta da lista de poetas traduzidos que inserimos em cada número. É apenas uma maneira de referir a inclusão de poesia em galego. Versão, mais que tradução. Segundo a opção deste autor, a sua é escrita de acordo com a norma linguística de âmbito lusófono.

Dentre os poetas traduzidos destacamos a poetisa búlgara Zlatka Timenova, que escreve também em francês, de ambas as línguas traduzindo-se a ela própria para português. A autora trabalha e vive em Lisboa. É apenas a terceira língua eslava que a DiVersos inclui em tradução e a primeira em búlgaro, seguindo-se ao polaco (uma única vez) e ao russo (várias vezes). Desta última língua, um dos dois tradutores anteriormente incluídos é italiano, traduz para português e mora em Moscovo.

A DiVersos é talvez a publicação de língua portuguesa que mais poetas gregos traduz. Neste número inserem-se poemas de Michalis Ganás, mais uma vez em tradução de Rosa Salvado Mesquita. Ganás tinha já sido incluído há alguns anos na DiVersos em tradução de Manuel Resende.

Acrescem ainda neste número traduções do neerlandês (Remco Camport) e alemão (Francisca Stoecklin e Reiner Kunze).

Em língua portuguesa temos presentes neste número poetas portugueses como Isabel Cristina, Jorge Reis-Sá, Paulo Borges, Paulo Malekith e Ricardo Lima, pela primeira vez. Quanto a Deodato Santos, a Luís Quintais, e ao poeta luso-canadiano paulo da costa, colaboraram já antes pelo menos uma vez nesta série.

E temos também, na nossa língua comum, poetas brasileiros. Dois poetas que começaram a publicar no terceiro quartel do século XX, Anderson Braga Horta e Aricy Curvello. Deste último, «O Acampamento» pode considerar-se um curto poema épico da fronteira florestal do Brasil. De um poeta mais jovem, que já antes figurou na DiVersos, Wladimir Saldanha, inclui-se entre outros o poema «O Terceiro Mar», para nós notável também pela tessitura entrelaçada de temas da cultura e da história brasileira e portuguesa. Continuamos ainda a publicar jovens poetisas e poetas brasileiros graças aos bons ofícios de Elisa Andrade Buzzo, desta vez Greta Benítez e Izabela Orlandi. .

A DiVersos não tem distribuição comercial e apenas pode ser comprada diretamente ao editor, seja em números avulso seja em assinatura. Os números da DiVersos do n.º 2 (n.º 1 esgotado) ao n.º 15 custam €2,00 cada, os seguintes, €10,00 cada. Portes de correio variáveis conforme o peso. Para assinar uma série de quatro números (em Portugal: €30,00, para o estrangeiro, €38,00) ou para informações ou dúvidas, use os contactos gerais da página. Os novos assinantes ou os assinantes que renovem assinatura são convidados a escolher um dos títulos de poesia das Edições Sempre-em-Pé, que lhe será enviado gratuitamente como expressão de boas-vindas.»

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